Para quem deseja fotografar

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Eu estou fotografando há um bom tempo e uma das minhas maiores questões em torno disso não tem a ver com técnica, mas com algo que me interessa muito mais: como contar histórias de uma maneira genuína, inspiradora, significativa.

Antes de qualquer coisa, sou ávida por compartilhar histórias. Desde muito nova nutro um desejo profundo em comunicar o que me instiga. Esse desejo me remete à lembrança de viajar na infância, ver o horizonte azulado na estrada e me sentir tão inspirada a ponto de querer transmitir essa sensação de grandeza que se impunha na paisagem. A fotografia é umas das formas que encontro de fazer isso.

Fotografar é fácil. A técnica é perfeitamente apreensível, embora exija estudo e prática. Conhecimento de arte e estética é importante para desenvolver o próprio estilo e conseguir produzir algo original. Na verdade, uma fotografia visualmente impactante é mais fácil de ser feita do que parece e existem muitos truques para conseguir uma. Mas e quanto a obter uma fotografia que não seja vazia de conteúdo?

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Eu não tenho uma resposta pronta, mas tenho várias ideias a respeito. E de todas elas, a principal é que não há boa fotografia sem bom conhecimento daquilo que se fotografa. É possível sentir a distância ou proximidade entre autor e assunto em uma imagem, tornando-a rasa e superficial. Um envolvimento mais profundo com a história de pessoas e lugares é importante para que o olhar chegue mais perto, mais dentro.

Tenho uma forma de lidar com a fotografia que muitas vezes é encarada como absurda. Embora mude conforme o contexto e assunto, não costumo chegar de câmera na mão em todas as situações. Se em alguns momentos é imprescindível estar atenta aos mínimos movimentos, em outros é preciso observar, sentir o local e as pessoas antes de começar a clicar; preciso que elas estejam à vontade com a minha presença – se possível, que elas saibam que estou ali, mas esqueçam de mim.

É que além de ser invasivo adentrar os espaços dos outros com uma máquina apontada em seus rostos, também perdemos um diálogo ou uma escuta que nos permita conhecer suas histórias se já chegamos com nossos olhos bloqueados pela frieza da câmera. Perdemos sua espontaneidade e a confiança de que não estamos ali para torná-los objetos nossos, além da oportunidade de deixar claro que respeitamos sua dignidade e é isso que queremos compartilhar. Observações longas e cuidadosas nos permite descobrir movimentos, motivações, jeitos de ser e de se expressar que enchem nossas fotografias de significados se priorizamos não a câmera, mas as pessoas e suas histórias.

Isso, na verdade, é o que eu levo em consideração quando vou fotografar e é parte da minha intenção com a fotografia: criar narrativas densas. E vai além, porque quando fotografo sinto que estou criando fragmentos de intensidade e beleza, mesmo que minha realidade seja de inquietude e angústia, e penso que isso é típico de quem cria para encontrar humanidade no que faz e uma salvação de si mesma através da própria criatividade.

Você já se perguntou porque deseja fotografar?

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Fotografe se deseja comunicar algo. Nem sempre conseguimos expressar o que sentimos e pensamos facilmente e fotografia é uma boa forma de abstração, de transformar aquilo que simplesmente existe, aparentemente tão puro, concreto e real, em um conceito. Nisso de fotografar, vamos encontrando algumas respostas para o que nos inquieta, que do inconsciente afluem para a luz de nossas mentes. Como num rio, entretanto, a água nunca para de correr e as questões não findam.

Qualquer que seja o motivo que te leve a fotografar, viaje: para conhecer o mundo e a si mesma, mesmo que mundo seja um universo bem próximo do seu quintal. Amplie sua leitura de mundo, porque mentes fechadas são incapazes de ver bem e fotografia é basicamente sobre olhar. A menos que você queira apenas registrar um momento sem mais motivações além disso, manter diálogo inteligente e empático com o mundo é requisito.

Evite modismos. É certo que somos parte do contexto em que a moda é criada e estamos inconscientemente ligadas à sua linguagem, porém, qualquer que seja sua intenção, saiba que fotografias com densidade, profundidade e autenticidade serão sempre aquelas que nos farão olhar mais uma vez. Vale a autocrítica sempre, mesmo sabendo que tudo que for criado no começo será um arremedo do que está sendo feito no momento no mundo, até que a gente encontre um modo próprio de expressão que, como tudo na vida, nunca está totalmente acabado.

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Fotografias da Exposição Badja ku Mar - Alexandra Duarte
*Leia sobre as condições de uso das imagens AQUI.

Cabo Verde ou, carinhosamente, Brasilinho

Cabo Verde

Acostumada com as dimensões continentais do Brasil, foi surreal avistar, do alto, aquela curva de ilha que o mar parecia querer engolir. A silhueta de terra e o mar gigante… Pousamos em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, recebidas com a aridez de montanhas nuas a perder de vista, o céu nublado sem chuva e o vento agradável às 6 horas da manhã. Saímos de táxi e a paisagem permaneceu a mesma durante um bom tempo. O asfalto muito preto, as linhas da pista muito brancas e as montanhas nuas e acinzentadas como se dissessem que tinham nascido de um esporro de vulcão.

Cabo Verde

Depois de viajar pela aridez da estrada, a cidade apareceu: Praia, amarela, com seus prédios baixos, quadrados, quase sempre amarelos como os táxis, mas algumas vezes de concreto cinza. O mercado de Sucupira, com o prato de comida de 200 escudos e uma garrafa de cerveja portuguesa, foi o primeiro destino. Quando perguntamos por almoço no mercado, nos mandaram procurar pela cozinha entre as barraquinhas debaixo do sol.

A “cozinha” é um conjunto de cubículos, com duas mesas no máximo cada um, em que se servem pratos prontos muito parecidos com a comida brasileira: arroz misturado com feijão, “bife” de atum, carne de vaca ou galinha, batata frita e salada. Ouvimos dizer que o arroz consumido lá vai da China e embora tenha o gosto parecido com o nosso e seja solto, é de uma consistência mais liguenta. O bife de atum é especial e a palavra-chave para receber um tempero extra é sabor.

Mercado de Sucupira Cabo Verde

No mercado há muitos senegaleses vendendo seus tecidos e confeccionando roupas sob medida – vestidos e saias com cortes simples, na maioria das vezes. Gastamos horas em barracas de roupas tradicionais, maravilhadas com o que mais há em Sucupira em todas as cores, estilos e texturas: desde a simplicidade das chitas em lindas estampas até a impressionante elegância do batik. Mas descobrimos muita mercadoria brasileira também: fileiras e mais fileiras de chinelos Havaianas, sapatos e roupas – muita malha e jeans – que as sacoleiras caboverdianas vão comprar nas feiras e fábricas do Nordeste.

Mercado de Sucupira Cabo Verde

A noite em Praia é muito agradável. A cidade tem restaurantes e bares bem charmosos. Um deles é o Quintal da Música, um lugar especial com excelente comida e música ao vivo. No repertório da noite em que fomos lá tinha música brasileira, mas gostoso mesmo é ouvir a sonoridade do criolo, língua que na prática é a oficial do país. Falando em música, vale a pena conhecer o som produzido em Cabo Verde. As mulheres arrasam com a batuqueira. Elas demonstram força e beleza incrível quando tocam, cantam e dançam. Deve estar certo o espanhol, dono de um restaurante onde almoçamos, que disse que “em Cabo Verde todo mundo é músico“.

Quintal da musica Cabo Verde

Saímos de Praia, no sul da Ilha de Santiago, e fomos para Rabelados, uma comunidade camponesa tradicional e religiosa, situada no município de Espinho Branco, norte da ilha. Levamos poucas horas para chegar lá e no caminho de ida fomos parando para conhecer alguns lugares. Estivemos na casa de Amílcar Cabral, ícone intelectual, político e dirigente da luta armada pela libertação de Cabo Verde e Guiné-Bissau da colonização portuguesa e visitamos o antigo campo de concentração do Tarrafal, onde vários guerrilheiros que lutavam pela independência foram presos e torturados.

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A grandiosidade do Baobá no terreno da casa de Amílcar Cabral.

Os rabelados têm uma história muito interessante. Eles foram discriminados por tentar manter suas tradicionais culturais e religiosas, ainda no período em que o país era colônia de Portugal, e por isso se refugiaram em uma região de montanhas. Com isso, perpetuaram suas tradições, acabaram por adquirir um espírito de resistência e mantiveram sua essência, em boa parte por conta da arte que produzem. A experiência na comunidade foi propiciada pelo encontro da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS). Quando chegamos, fomos recebidos pelas pessoas com a comida símbolo de Cabo Verde, a cachupa. Sinal de que fomos realmente acolhidos.

Comunidade de Rabelados

Além de Praia e Rabelados, fomos na Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, fundada em 1462 e primeira cidade construída pelos portugueses nos trópicos. Algumas construções estão toda ou parcialmente debaixo da terra, há muitas ruínas e algumas escavações arqueológicas podem ser vistas no entorno da cidade. Tudo é tão pequeno – a praça, as ruas, as casas – que dá para fazer um tour bem legal em uma manhã. Mas como cidade não é só ponto turístico, é bom ficar pra andar pelos espaços fora do eixo, conhecer algumas pessoas e comer a comida local, como a cachupa, búzios guizados, lagosta ou filé de atum fresquinho.

Cabo Verde

A sensação de andar pela Cidade Velha é de andar pelo Brasil antigo… mas como eu saberia disso? Acho que é a impressão do imaginário do passado colonial criado pela história e pela literatura. Andando pelas ruas, eu me sentia como nas descrições que Aluísio Azevedo fez em O cortiço ou em Casa de Pensão.  Uma senhora que conhecemos em Praia nos disse que lá as pessoas costumam gostar muito do Brasil e é corrente a expressão de que Cabo Verde é um Brasilinho.  Acontece que tudo o que os portugueses fizeram aqui foi feito primeiro lá; Salvador, na Bahia, é como uma grande Cidade Velha. Cabo Verde era a parada das embarcações que saiam da Europa, passavam pela África e partiam para a América.

Cabo Verde
Cabo Verde me marcou profundamente. As pessoas de lá, que parecem ter no espírito a expressão da natureza que as rodeia, são simpáticas e bonitas ao mesmo tempo em que são fortes e orgulhosas, além de terem aquele sotaque que parece música. Nos dias em que estive lá,  fui interiorizando a paisagem cortante, o mar de azul muito escuro, as montanhas negras e áridas e os vales verdes e úmidos, uma natureza tão diversa e ao mesmo tempo tão resistente e bela. E mais uma vez, mais uma viagem me transformou.
Rabelados
Amanhecer em Rabelados
Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros