Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie
Chimamanda Ngozi Adichie

É mais fácil lidar com o fato de que não somos perfeitas do que encarar o contraditório das pessoas que admiramos e idealizamos. Compreender perfeitamente que alguém que temos como ponto de referência desde a infância é alguém que nos violenta não é tão simples quanto parece.

“Tudo que Papa dizia soava importante”, diz Kambili sobre o próprio pai. O tempo todo, a protagonista de Hibisco Roxo, obra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, deseja a aprovação paterna pelo comportamento correto e pelas palavras adequadas. O cenário é a Nigéria de um novo golpe militar e em meio ao contexto social caótico, bem como ao ambiente familiar marcado pelo fanatismo religioso do pai tirânico e o silêncio da mãe submissa, acompanhamos o amadurecimento de uma jovem de 15 anos.

A relação de Kambili com o pai é muito mais complexa do que o simples medo provocado pelas reações violentas que ele tem quando ela e o irmão não atingem as regras e metas minuciosamente estabelecidas, que vão desde um comportamento adequado à religião católica, até o alcance das maiores notas na escola. A admiração e o orgulho que Kambili sente pela figura paterna parece ser muito mais balizador de sua própria vida; de certo modo, ela se sente especial por ser filha de um homem que tem prestígio na comunidade, que é respeitado por ser um capitalista e altruísta.

Se não fosse pela provocação da tia e dos primos que entram na vida de Kambili trazendo outras visões de mundo, talvez ela seguisse para sempre nos limites impostos no lar. A experiência é transformadora: tia Ifeoma a coloca em contato com a Nigéria além dos muros das mansões, das igrejas ricas e das escolas católicas dirigidas por freiras brancas. A culinária, a língua, os costumes, as tradições religiosas nigerianas e a música local são descritas por Kambili com o estranhamento natural de quem não só viveu sempre à parte daquilo, como foi ensinada a temer boa parte dos costumes populares. A postura da protagonista diante desse mundo novo, a princípio, é silenciosa e reprimida.

O comportamento esperado pelo pai era aquele cujas características se aproximam do modelo europeu, das qualidades atribuídas aos brancos: seriedade, sobriedade, silêncio, frieza. As únicas músicas ouvidas pela família de Kambili são os cânticos religiosos em latim. O sobressalto e constrangimento da protagonista ao ouvir a tia e os primos cantarem músicas religiosas em igbo após a oração da noite é um dos momentos em que ela mais expressa o quanto a sombra do pai caminha junto com ela. Kambili não canta porque sabe que pai a aprovaria se a visse naquele momento, mesmo ele estando longe demais para isso.

A paranoia religiosa do pai é também um medo, não do diferente, mas de quem ele era antes da igreja, e se apresenta numa tentativa de purificação de algum mal que ele acredita ainda existir em si e no mundo. É a negação da Nigéria, com as tradições religiosas de seu próprio povo, que ele passou a considerar diabólicas, conforme a igreja o ensinou, assim como da língua materna, de modo que ele só fala em igbo quando a raiva toma conta de si, descontrolando-o a ponto de não permitir que ele fale inglês.

Talvez por estar o tempo todo restrita ao lar, sem contato com visões de mundo que difiram dos valores injetados nela e no irmão pelo pai, Kambili demora a entrar no cerne do que sente e pensa. Embora haja profundidade na personagem, suas observações sejam longas e sua personalidade introspectiva, as reflexões são sutis. Ela passa arranhando aquilo que vê, devagar, jogando com sombras e luz no que quer dizer, como se estivesse ainda elaborando o que pensa ou tentando descobrir o que sente; é o amadurecimento, afinal. Dessa mesma forma misteriosa ela costuma descrever a violência doméstica, deixando no ar o que realmente aconteceu.

Só depois, quando já está mais madura, é que sua expressão se torna mais aberta. É quando ela se abre também para a diversidade com mais naturalidade. O irmão de Kambili, Jaja, amadurece de forma oposta. A aceitação da diferença é praticamente imediata, quase não há estranhamento. Talvez porque ele já tivesse batido de frente com pai dentro dele próprio, muito mais do que a irmã. Por outro lado, a complacência dela faz com que a ruptura com a sombra paterna seja menos dramática e dolorida do que foi para ele. Jaja caminha da abertura para o isolamento.

A princípio extremamente insegura a respeito das próprias opiniões, mal conseguindo articular as palavras, que travavam pelo medo profundo de não saber dizer a coisa certa, Kambili aprende a expressar-se com a prima Amaka, personagem duríssima de início, altiva, implicante e sempre com palavras cortantes na ponta da língua. Mas é ao observar o jovem padre Amadi, por quem ela se apaixona, treinando meninos pobres no salto, fazendo-os ir cada vez mais alto sem que eles percebessem, que Kambili entende porque seus primos são tão diferentes dela e do irmão:

“Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos porque acreditávamos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.”

O amadurecimento gradual e ascendente de Kambili a transforma profundamente. Ela aprende a lidar com o diferente sem temê-lo, a amar sem pudores, a expressar seus pensamentos e até mesmo a sorrir e cantar. Aliás, é no momento em que Amaka percebe que Kambili está cantando Fela Kuti, cujas músicas são expressão da liberdade e da consciência política e social, que nós mesmas nos damos conta de que ela mudou, e então podemos apreciar a incrível transformação dessa personagem, de maneira tão real, intensa e rica.

Mas Kambili ainda quer que o pai se orgulhe dela, ela ainda tem uma dependência profunda dele em sua existência. Apenas a morte física do pai é capaz de libertá-la. Provavelmente por saber disso, por saber que toda a família só conseguiria a libertação daquela figura de autoridade se ela desaparecesse para sempre, que a mãe de Jaja e Kambili, o tempo todo um silêncio de submissão, mal sendo capaz de expressar uma opinião que não soubesse previamente agradar ao marido, põe fim a vida dele, colocando veneno em seu chá.

Existem várias formas de se discutir uma obra e Hibisco Roxo tem muitos outros elementos que não foram tratados nesse texto. O livro foi uma das melhores descobertas literárias dos últimos tempos [os meus tempos, obviamente] e eu espero poder discutir muita coisa ainda sobre ele, porque as ideias e sensações dessa história estão me rondando com a mesma profundidade e sutileza de Kambili. A escrita de Chimamanda Adichie é autêntica e muito bonita. Gosto da simplicidade na estrutura do romance, da descrição que ela faz da rotina das personagens e da paisagem [um recurso que dá densidade à história e que adoro] e o fato de ela não usar nenhuma estratégia forçada para chamar a atenção para o enredo; a história basta.

As três Marias

Lidiane Dutra

Ilustração: Lidiane Dutra

Raquel de Queiroz não fez uma escolha aleatória quando deu o título As Três Marias ao livro em que trata das limitadas possibilidades de existência da mulher, mesmo a privilegiada, na sociedade do início do século XX. Maria é um nome comumente associado a uma vida de restrições relacionadas ao gênero e à posição social, e a despeito desta condição não ser natural, mas determinada pelo meio em que se vive, por vezes a Vida Maria é de tal forma imposta que não é difícil associá-la com a predestinação: um destino escrito nas estrelas.

Maria Augusta (Guta), a protagonista, cresce no interior do Ceará, num internato de freiras, junto com Maria da Glória e Maria José. Sua narrativa permeia memórias da infância no mundo limitado do colégio, quando ela e as amigas sonham com os prazeres da cidade e cometem pequenas transgressões:  fazem amizade com as órfãs pobres do colégio, que aprendiam um ofício ao invés de receber a educação sofisticada das internas, uma restrição baseada na desigualdade de classes sociais e percebida pela protagonista sensível, leem livros proibidos e escrevem jornais satíricos – sendo a leitura e a escrita formas de autoexpressão e empoderamento.

Guta sai dos limites da escola e se desvencilha das raízes da casa paterna desejando experimentar o mundo, horrorizada com a monotonia da vida doméstica junto da família tanto quanto com a reclusão do colégio; ela quer ser livre e quer viver uma vida complexa. Por isso parte em busca de um encontro consigo no mundo, esse maravilhoso e dolorido processo de individuação, e como qualquer uma de nós, dá de cara com outras prisões: as relações românticas idealizadas como salvadoras ou transformadoras, a rotina massacrante e o trabalho monótono.

Tinha eu dezoito anos quando comecei a trabalhar, e seis meses depois já sentia medo de ficar velha sem saber o que era o mundo. (…) Andar. Viver. Viver uma vida complexa, onde as criaturas realmente existem, amam, sofrem, morrem, não sabem o que é passar a vida sentadas a uma máquina escrevendo fichas, batendo relatórios que os outros escreveram, coisas vis e sem humanidade, palavras que não têm existência real e não têm conteúdo, que não designam nada, senão as relações absurdas de gente que é apenas uma fórmula ou um título.

Conforme a narrativa vai entrando nos domínios de sua jovem vida adulta, a ingenuidade nostálgica e melancólica da protagonista vai se desconstruindo, amadurecendo-a. As histórias de mulheres com quem Guta se relaciona vem à tona e seus destinos são esmiuçados em descrições breves, porém marcantes, como se num ritual de reconhecimento de outras vivências, escolhidas conscientemente ou impostas, ela pudesse compreender seu próprio caminho no mundo.

Foi por conta desse livro, lido pela primeira vez quando eu tinha apenas doze anos, que me dei conta do meu gosto por narrativas que se preocupam menos com o desenrolar dos fatos e mais com a evolução psicológica das personagens. Guta amadurece, observa a vida com a distância de quem volta os olhos para o passado e desenvolve resistência às adversidades do mundo.

Se a vida livre, destino comum de um homem, ainda hoje encontra relutância quando se trata do desejo de uma mulher, na época em que o livro foi publicado, 1939, tal expressão era uma verdadeiro afronta. Confinamento, fuga, aceitação e subversão da condição feminina são tanto temas quanto parte do universo real em que essa obra foi criada.

O mundo: grande era minha sede. Não de prazeres, ou melhor, não só de prazeres. Minha alma era como a daquele soldado da história de Pedro Malasarte que abandona tudo, sai de mochila às costas, sofre fome, perseguições, anda cheio de poeira e cansaço por cidades estranhas (…). Ele, porém, escravo do desejo de “ver”, de “conhecer”, afronta tudo. (…) Eu me sentia igual a ele, éramos irmãos nós dois, o soldado e eu, sendo eu a irmã que ficara, que o não pudera acompanhar, e lhe estendia os braços e chorava.

Suas melhores amigas e cúmplices, Maria da Glória e Maria José, seguem por caminhos diferentes, suas estrelas ditam outras histórias. A Glória, triunfante, a estrela mais brilhante do céu e sempre privilegiada, sem grandes imaginações para desejos difíceis, aceita a sorte que lhe cabe de bom grado e prefere seguir naturalmente o papel exigido pela sociedade para a mulher: o casamento.

A José, estrela trêmula e modesta, de trajetória familiar sofrida e que leva no nome a identidade masculina e feminina, vive a repressão de uma sexualidade incompreendida, rejeitando aquilo que é visto como aberração pelo mundo e que lhe foi ensinado nos anos de reclusão escolar: segue uma vida beata.

Maria Augusta, inquieta, quando insiste pela liberdade de viver longe de suas raízes e construir uma história própria, descobre com angústia o quanto é difícil ver-se livre da vida comum; observa e sofre com o mundo, angustia-se, não aceita as correntes que a aprisionam. É a estrela ardente e molhada, que escolhendo o caminho mais difícil, oposto à tradição, recebeu como recompensa o destino da mulher livre: a solidão.

Leitura: Não sou uma dessas

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Tomei duas decisões tardias em 2015: ler mulheres e ler mais obras que não fossem teóricas, já que passei a maior parte dos cinco anos na universidade longe demais do universo literário ficcional (ou não-teórico) e acho que isso mata um pouquinho da minha sensibilidade. Então, voltar ávida às leituras não-teóricas não é só uma questão de gosto, é uma necessidade…

Segui na minha lista de livros escritos por mulheres com Não sou uma dessas, de Lena Dunham, nova-iorquina criadora e protagonista de Girls, série produzida para a HBO sobre a vida de garotas e seus perrengues típicos do início da vida adulta. Sou espectadora esporádica de séries – fico meses sem ligar a TV – por isso assisti Girls somente algumas vezes, mas lembro de ter gostado do que vi, da fotografia  e do roteiro cômico e original.

Na verdade eu não sabia do livro até vê-lo na livraria. Sou muito visual e a capa me chamou logo a atenção, mas foi só por ter visto alguns episódios da série que me interessei em lê-lo. A aparência lembra um pouco aquela urgência dos best-sellers que prometem mudar sua vida definitivamente contando um relato de superação, mas a história  não é sobre isso, pelo contrário.

O livro é composto por tópicos no esquema das revistas femininas, com os temas Amor&Sexo, Corpo, Amizade, Trabalho e Panorama (que me remete às crônicas levinhas que costumam aparecer nas últimas páginas dessas revistas). A diferença é que ela não vai dar dicas de comportamento, como as revistas fariam, e sim falar, de maneira hilária e autocentrada, sobre como encarou cada uma dessas questões entre a adolescência e a idade adulta.

Há um fio condutor na trama que, mesmo não sendo linear, mostra uma personagem que vai amadurecendo, desde as primeiras páginas, quando ela parece mais adolescente e insegura, até as últimas, quando ela fala sobre o trabalho em Girls, sobre relações amorosas mais saudáveis e sobre satisfação e autoaceitação. Lena tem uma personalidade ansiosa, insegura, inquieta, egocêntrica, que necessita afirmar-se o tempo todo em todos os aspectos da vida, o que a torna muito intensa, mas também propensa a cagadas.

A escrita é autobiográfica, porque usa a experiência pessoal como matéria-prima, mas não é uma trajetória de vida e carreira, que é o que caracteriza a autobiografia propriamente dita. Não sou uma dessas segue um roteiro em que a experiência pessoal é essencial, certamente, mas tratá-lo como uma autobiografia somente é reduzir as possibilidades do texto.  E ela deve ter sido muitas vezes criticada por esse estilo de escrita mais livre e pessoal, porque logo nas primeiras páginas ela expõe a questão:

“Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe que tenhamos chegado, ainda existem forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. Que a escrita pessoal feminina não passa de um exercício de vaidade e que nós deveríamos apreciar esse novo mundo para mulheres, sentar e calar a boca.”

Na maior parte do livro, Lena descreve suas várias relações afetivas e sexuais, quase todas desastrosas, com homens que tiveram um sentimento de atração-repulsa meio doentia por ela e que, a despeito disso, ela insistiu em manter em uma relação dolorosa, como um caso que teve com um cara mais velho que conheceu quando trabalhava de garçonete em um restaurante:

“As primeiras poucas vezes em que Joaquin e eu transamos foram rápidas e um pouco tristes. As lâmpadas do teto zumbiam. Ele não olhou para mim e depois logo foi embora. Achei que, de alguma forma, talvez tivesse sido minha culpa. Talvez eu fosse um saco de batatas, sem criatividade na cama, paralisada pelo meu desespero de agradar. Talvez estivesse destinada a ficar lá deitada, dura feito pedra, até ser velha demais para fazer sexo.”

Às vezes, a relação acontece mais no mundo das ideias dela e nem o sexo se concretiza, como no caso que teve com um cara, ex-celebridade televisiva fracassada precocemente, emocionalmente traumatizado por um antigo relacionamento, por um cachorro que havia morrido e por algo que tinha a ver com a guerra no Iraque (embora ele não tivesse ido à guerra):

“No dia dos namorados, vesti uma lingerie e implorei para que ele, por favor, finalmente transasse comigo. A litania de desculpas que ele apresentou em resposta teria sido cômica se não fosse trágica: “Quero conhecer você melhor” “Não tenho camisinha.” “Tenho medo, porque gosto muito de você.”. Ele tomou calmante e dormiu, o braço estendido do meu lado, e, enquanto estava deitada lá, plenamente acordada e toda me coçando por causa da lingerie de renda, ocorreu-me que aquilo era humilhante, assexual e, pior de tudo, enfadonho. Aquilo não era conforto. Era paralisia.”

Mas nem só de frustrações sexuais é feita a narrativa do livro, embora elas estejam na maior parte dele. Me identifico com o que ela fala sobre os problemas com a escola e, depois, com a faculdade, a resistência com a autoridade, a rotina e os limites que permeiam as experiências com a educação formal; sobre ter desejado tanto entrar na universidade e depois ter desejado tanto sair, e, no fim, sobre sentir culpa e arrependimento por achar que poderia ter aproveitado melhor a experiência da época de estudante, ao invés de ter passado tanto tempo idealizando o futuro, especialmente o profissional:

“Se eu soubesse o quanto sentiria saudade dessas sensações, eu poderia tê-las vivenciado de outra forma, reconhecido seu glamour banal e respeitado o tique-taque do relógio que definiu toda essa experiência. Teria colocado meu ressentimento de lado, abaixado a guarda. Eu poderia ter um conhecimento básico da história ou da economia europeia. De uma forma abstrata, poderia sentir que de fato tinha estado em algum lugar, aberta, porosa e com vontade de aprender. Porque ser estudante era uma identidade invejável, uma que só poderei recuperar se um dia me matricular num curso livre de produção de livros ou coisa do tipo.”

Ou, talvez, esses arrependimentos sejam idealizações do passado, o que não deixa de ser o outro lado problemático da idealização:

“Não absorvi a essência da sala de aula. Não fiz anotações claras nem dancei a noite toda. Achei que acabaria me casando com meu namorado, envelheceria e ficaria de saco cheio dele. Achei que manteria os meus amigos e teríamos lembranças novas e diferentes. Nada disso aconteceu. Coisas melhores aconteceram. Então, por que ainda estou triste?”

Angústias existenciais, a idealização excessiva do futuro e da própria existência, os pensamentos obsessivos sobre a morte, o sentido da vida, sonhos de grandeza, o desejo intenso de fazer algo significativo no mundo, a identificação excessiva com as próprias ideias, a ansiedade crônica e o transtorno dissociativo, são outras questões expressas no livro:

“A ansiedade que me acompanha pela vida como um amigo ruim tinha reaparecido com força e assumido uma forma totalmente nova. Eu sentia como se estivesse fora do meu corpo, me vendo trabalhar. Não me importava se teria sucesso ou fracassaria porque não tinha certeza absoluta se estava viva. Entre as cenas, me escondia no banheiro e rezava pela capacidade de chorar, um sinal indubitável de que eu existia de verdade. Não sabia porque aquilo estava acontecendo. A realidade cruel da ansiedade é que você nunca acha que é boa o bastante.”

Lena Dunham relata sua própria vida de maneira nua e escancarada; sem dar muitas respostas, menos ainda definitivas, propõe contar tudo o que aprendeu, como se isso fosse uma missão de vida. Ela própria confessa que suas experiências foram limitadas a um universo privilegiado e que num dado momento percebe que viveu num mundo distante da realidade comum; isso a fez buscar o máximo de vivência, mas talvez não perceba que é preciso sair um pouco de si para ter experiências mais ricas com o mundo real…

Não sou uma dessas tem seus méritos, um deles o de ser escrito por uma mulher que dá a cara à tapa com coragem para falar sobre suas próprias incongruências. O título em português soa ruim, já que parece desprezar mulheres em geral, colocando a autora como alguém superior por ser supostamente diferente. Mas em inglês Not that kind of girl sugere mais alguém fora dos padrões de beleza e comportamento e a voz dessa pessoa fora dos padrões é outro mérito do livro.

Ainda que a escrita seja uma expressão da individualidade, ela não deixa de ser produto de um tempo e é por seus textos serem repletos dos anseios desses tempos, apesar da diversidade e da distância que existe entre a geração classe média alta, branca e privilegiada de Nova York e o resto do mundo (inclusive o resto do mundo em NY), é por esses anseios em comum que tanta gente se identifica com suas histórias.

 Fotografia: Alexandra Duarte

Leitura: O inventário das coisas ausentes

…e algumas considerações sobre ler mulheres

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                                                              Anne Sexton

Fui em uma livraria com a intenção de procurar autoras brasileiras contemporâneas. Primeiro porque eu andava lendo muita literatura clássica, minha cabeça estava entre o século XVIII e o XIX, completamente ignorante do tipo de escrita produzida agora. Depois porque eu comecei a me incomodar com uma ideia reproduzida por aí afora de que mulher escreve e publica pouco porque é mais acanhada que o homem, como se isso fosse uma característica que nascesse com a gente. Uma ótima desculpa para esconder o privilégio dos homens e a desigualdade entre gêneros decorrente disso. Eles quase sempre têm mais visibilidade e, principalmente, legitimidade ao falar e escrever. É como se o homem falasse algo universal, de interesse para a humanidade, e a mulher ficasse restrita a assuntos que interessam apenas ao próprio gênero.

Em As mulheres ou os silêncios da história, a historiadora francesa Michelle Perrot escreveu sobre como a mulher ocidental, pelo menos até o início do século XX, teve o espaço público e tudo o que o envolve negado: a rua, a cidade, a política e, consequentemente, a expressão pública da fala, da escrita, das decisões políticas e de tudo que não ficasse restrito ao lar. Incentivadas à discrição e, quando não, obrigadas à reclusão no âmbito privado, algumas mulheres, geralmente de classes privilegiadas, escreveram suas histórias em diários e cartas, interrompendo um pouco do silêncio a elas destinado, deixando um rastro de memória a partir da escrita íntima.

Foi acompanhando o debate em torno da visibilidade da literatura produzida por mulheres que eu me voltei para algo que sempre me incomodou um pouco, mas que nunca havia questionado muito profundamente – e também nunca havia feito nada a respeito. Mulheres escrevem, mas a gente não ouve falar tanto nelas quanto ouve falar dos homens. Dentre os livros considerados clássicos, quantos foram escritos por mulheres? Em uma dessas listas de internet, de cem apenas cinco. São eles que aparecem, que têm mais visibilidade, é sobre eles que a gente ouve falar. E, penso eu, é isso que faz com que a maior parte da nossa leitura continue sendo aquela escrita por homens, em detrimento da produção das mulheres.

Então eu fui numa enorme livraria com uma convicção simples: comprar uma obra escrita por uma autora brasileira contemporânea. Me senti meio mal por não conhecer o nome da maioria das escritoras mais jovens e fiquei triste por não encontrar as que leio na internet naquela livraria. Viajei sentada no chão dos corredores procurando nomes de mulher. Infelizmente eram poucas e ainda assim eu não conhecia quase nenhuma. Mas me senti inspirada por um título numa capa verde água…

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

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Tem algo de existencial nele, uma linguagem fluida e uma narrativa que parece alguém falando com a gente. O estilo de escrita é meio ofegante, com duas vozes se misturando numa mesma frase, como quando alguém conta um caso. Isso torna a leitura veloz, mas ao mesmo tempo gostosa.

O narrador é um escritor que quer falar de Nina, alguém que está ausente na vida dele e com quem ele teve um caso rápido quando ambos ainda estavam na faculdade, onde se conheceram. Mas ela vai embora de repente, sem dar explicações, e deixa com ele uma caixa com 17 diários.

Descrevendo os acontecimentos o narrador também parece escrever um diário; devaneios sobre a própria escrita, algumas lembranças e histórias paralelas, enquanto tenta elaborar uma ficção na qual Nina e ele são personagens. A obra é sobre o ato de criação na escrita; a vida do narrador e a ficção criada por ele se confundem.

O livro me prendeu, a leitura é viciante. Só não li as 122 páginas mais rápido porque parava em várias passagens, me reconhecia nelas e viajava nas sensações provocadas pela narrativa. É o tipo de história que me extasia, a que explora os sentimentos dos personagens. Não há a concretude de uma cidade, um local bem estabelecido sendo descrito e vivenciado. O universo é o interior dos personagens e suas emoções duras e reais, o amor e o desamor, a presença, a ausência e as fugas nas relações, é sobre o medo e o ódio, as mortes em vida e a memória.

A cada bocado de livro eu parava para pensar e escrever e se escrevo muito enquanto leio uma obra, é porque ela tem sido inspiradora de alguma forma, tem mexido com coisas dentro de mim, meus padrões, minhas ideias e emoções. A história de O inventário das coisas ausentes vai e volta, é repetitiva, como um martelo fincando um prego, materializando os sentimentos narrados, como um prego entrando na gente.

“Você quase nunca me beija, ela reclama. É claro que eu te beijo, que ideia, pronto, acabo de te beijar. Nina esboça um sorriso, mas o seu olhar é tenso e melancólico. Eu a puxo para mais perto de mim. Queria te beijar mais vezes, eu penso, mas esqueço, quando vou ver o dia passou e a noite passou e eu esqueço, queria te beijar mais vezes, mas esqueço, eu quero dizer, mas ela não entenderia. Ficamos os dois em silêncio, eu observo a infiltração do teto, a infiltração adquire novos relevos a cada chuva, o mofo ameaça se instalar. Porque você não manda dar um jeito nisso logo de uma vez, pergunta Nina, como se ouvisse meus pensamentos, eu esqueço, respondo. Quer que eu chame alguém, ela pergunta, aquilo me causa um incômodo instantâneo e irracional, não, não precisa, deixa que eu mesmo cuido das minhas coisas, digo imediatamente, sem conseguir disfarçar a agressividade na voz. Nina se afasta, responde, por que você faz isso?, isso o quê? eu pergunto, pensando que ela se refere à infiltração, mas ela diz, você quase não me beija, você quase não quer sair de casa, você quase não fala comigo direito, e quando fala é com tanta impaciência, esse desamor. Para que você me quer aqui?, talvez seja melhor eu ir embora. Nina me encara triste, derrotada. Eu a abraço com força, eu penso, não vai, Nina, não vai, fica, eu penso, mas não digo nada, e novamente eu esqueço, e passam-se mais dias e mais noites.”

Frida: a (re)criação de si mesma na arte

Frida é um mito: as sobrancelhas unidas, o exotismo, a rebeldia e certa paleta de cores são símbolos capazes de identificar a obra, criada por ela sobre si mesma, em boa parte do mundo. No entanto, ninguém disse mais sobre seu país de origem ao falar de si em autobiografias pintadas. O surrealismo próprio, mas também mexicano, um estilo vindo de dentro de Frida, da vida que é fruto de experiências em sua terra natal ao longo do tempo, por entre e além das tragédias, foi proclamada pelos surrealistas europeus, ainda que ela própria não acreditasse muito nem no surrealismo nem em si mesma.

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Fotografia feita pelo pai, Guillermo Kahlo, 1932

A história, como todo mito, é cheia de coisas inacreditáveis. Frida sobreviveu como que por milagre a um terrível acidente de ônibus que sofreu aos 18 anos e que a manteve confinada na cama, com a coluna envolta em um colete de gesso, por vários meses – e por longos períodos, com intervalos, durante toda a sua não muito longa existência. Foi graças ao pai, Guillermo Kahlo, um fotógrafo alemão que também pintava telas, que ela começou a pintar para valer: logo depois do acidente ele deu à filha inválida um cavalete adaptado para a cama e todo o material necessário para a pintura. Antes, ainda na infância, ela contraiu poliomielite, que a deixou com a perna direita pouco desenvolvida, a mesma que seria amputada nos seus últimos meses de vida, e que também a tinha deixado muito tempo presa à cama. Nesse período ela tinha uma amiga imaginária e a imaginação era essencial para que ela pudesse se sentir mais viva: a doença, a dor e a tragédia viraram parte dela, ela se acostumou a isso e seus quadros traduzem todas as dores que sua gargalhada sonora, seu riso sarcástico e seu ar sedutor e inteligente escondiam.

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A coluna partida, 1944

Como qualquer artista sofre influências de quem admira, Frida foi bastante influenciada por Diego Rivera, com quem viveu por 25 anos, entre um divórcio e um segundo casamento. Apesar das brigas – certa vez ela disse que duas tragédias tinham acontecido na vida dela, a pior era ele -, Frida e Diego se amaram intensamente e de um jeito pouco convencional. Ele era muralista e comunista convicto, julgava que as pinturas em quadro eram o tipo de arte burguesa em decadência, que fica confinada à propriedade privada, enquanto os murais podem ser vistos e apreciados por toda a classe trabalhadora, desprovida de condições financeiras para comprar obras de arte. Ele pintava paredes contando histórias que exaltavam o povo mexicano e os operários da fábrica, obras que falavam da revolução social e tinham como heróis, além dos trabalhadores, Karl Marx, Vladimir Lênin, Josef Stálin e Leon Trótski. Em suma, para Diego os murais são arte para o povo, pertencentes a ele.

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Frida e Diego Rivera, tela de 1931, retratando o casamento, que ocorreu em 1929

Entretanto, Frida pintou telas a vida toda, que nos primeiros anos de pintura costumavam ser bem pequenas. Elas eram detalhadas, com pinceladas sutis e precisas, bem diferentes das pinceladas generosas e grandiosas de Rivera. O que havia de mais interessante entre Frida e Diego é que os dois eram completamente apaixonados pela arte um do outro; eles se admiravam, orgulhavam-se, interessavam-se imensamente pelo crescimento artístico do outro. Ele dizia que jamais seria capaz de pintar como Frida e que não havia nenhum pintor ou pintora à sua altura na contemporaneidade. Quando Rivera conheceu Frida, ele já era bastante famoso mundialmente, ainda assim sentiu-se maravilhado pelas primeiras pinturas dela e por isso sempre a incentivou a seguir seu estilo original e continuar pintando seus próprios sentimentos, ao invés de tentar imitar alguém ou um movimento. No entanto, isso não foi difícil para ela. Embora ao longo de sua vida, em especial nos últimos anos, Frida tenha se queixado de não conseguir pintar algo que tivesse uma função social clara, que proporcionasse uma transformação social pela arte, o fato é que foi justamente o contrário – retratar a própria realidade – que a tornou uma grande artista; ela identificou o sofrimento do México com suas próprias dores. E fez isso de maneira genial.

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Quatro habitantes da Cidade do México, 1938

Ela era do Partido Comunista e ao contrário do que pode parecer, não foi Rivera quem a levou, Frida já havia se filiado antes de conhecê-lo. Mas sua atitude em relação à política era bastante singular. Ela tinha sonhos para o povo mexicano, odiava vê-los sofrer, se dava muito melhor conversando com pessoas simples em mercados e feiras do que conversando com intelectuais e artistas, que ela julgava afetados e prepotentes demais, especialmente os estrangeiros. Os Estados Unidos ela chamava de Gringolândia e detestava o que para os ianques é o centro da vida: a ambição. Ela dizia que não tinha pretensão de ser bem-sucedida, “ser alguém”, como os gringos diziam: ser a “gran caca” não a interessava. Ela jamais teve pretensão de ser uma grande artista e embora quisesse viver de sua arte desde que pintou seus primeiros quadros, Frida não fez nenhum esforço para torná-los vendáveis: ela realmente não conseguia pintar o que não fosse seu sentimento mais profundo e era modesta demais para acreditar que o que pintava tivesse algum valor.

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Autorretrato na fronteira entre o México e os Estados Unidos, 1932

O tipo de sentimento pouco alinhado com qualquer doutrina que seja, mesmo a do partido, e a ideia de que todas as coisas e seres estão inevitavelmente interligados, tal como pregava o antigo povo asteca, ancestral dos mexicanos, era o que a tornava comunista. Provavelmente ela sentia isso de forma muito mais intensa e genuína que muitos integrantes do partido, inclusive Rivera, que era fascinado pelos Estados Unidos tanto quanto reclamava do México. Embora nos últimos anos de vida ela tivesse tentado seriamente pintar algo que seguisse a linha do partido – e escreveu em seu diário: “Pela primeira vez na minha vida, a minha pintura tenta ajudar a linha traçada pelo meu partido: REALISMO REVOLUCIONÁRIO” -, Frida continuou pintando sobretudo a si mesma e seus próprios sentimentos, tanto em autorretratos quanto em naturezas-mortas, ainda que permeados de suas ideologias partidárias e suas crenças, que iam desde a revolução comunista à visão holística do mundo.

El marxismo dará salud a los enfermos, 1954 ✆ Frida Kahlo © Ñángara Marx
O marxismo trará saúde aos doentes, 1954

Frida conseguia expressar o que ia em seu interior em incríveis pinturas surrealistas, apesar de não seguirem o movimento do início do século XX. O surrealismo, enquanto movimento, era uma válvula de escape para os desiludidos do Velho Mundo, sobretudo artistas e intelectuais que tentavam escapar da lógica do mundo moderno por meio da busca do que ia dentro do subconsciente de cada um; era uma tentativa de superar a realidade. Frida fantasiava, mas isso era fruto de sua própria vida e do lugar em que vivia, dos momentos de solidão que passou na cama, de seu temperamento e do que absorveu da cultura mexicana, repleta de ídolos pré-colombianos, combinados com rituais cristãos à moda mexicana. Pintar, para ela, era um jeito de encontrar um equilíbrio entre seu interior, tão vivo, com o mundo; era uma forma de se conectar à realidade. Isso a tornava admirável, mais do que aos próprios mexicanos, aos olhos dos europeus, incluindo Salvador Dalí e Pablo Picasso, importantes expoentes do movimento surrealista na Europa.

O que a água me deu, 1938
O que a água me deu, 1938

Além de se representar na pintura, ela escreveu muitos diários, em que conta histórias por vezes tão exageradas e fantasiosas como seus quadros, mas nos quais ela expôs genuinamente suas dores. Na frente das pessoas Frida representava muita alegria e vigor, como se não se importasse nem um pouco com as dores e limitações físicas e todas as cirurgias e fusões de vértebras que tinha que fazer. Fingia não se incomodar com as traições de Diego, ficava amiga das amantes dele e fazia piadas disso. Seus quadros, entretanto, assim como as cartas a Diego e suas tentativas de suicídio nos últimos anos de vida, revelam a tristeza profunda em que ela vivia. Quando teve que amputar a perna, ela fez no diário um desenho dos pés em um pedestal e escreveu “Piés, para qué los quiero, se tengo alas pa’volar”. Para os amigos ela dizia, tirando sarro, que era a Frida pata de palo – Frida perna de pau -; era assim que seus amigos a chamavam na infância por conta da perna mais fina acometida pela poliomielite.

Uma das últimas páginas do diário de Frida, fazendo alusão à amputação de sua perna

 Havia dois motivos para Frida fazer piada com a própria vida e demonstrar apenas alegria aos outros: por um lado, era uma questão de dignidade pessoal esconder suas dores – mesmo tornando-as tão claras em suas telas e talvez por isso elas sejam tão pujantes -, por outro lado, Frida realmente queria ter vida, ainda que tivesse desejado a morte tantas vezes. Esse sentimento dual era próprio da crença da natureza dialética: assim a morte é representação da vida, como a vida é da morte. Tudo está ligado. Ela desejou muito ter filhos, mas nunca conseguiu e sofreu diversos abortos, sua coluna quebrada não conseguia segurar o feto. Ter filhos é uma forma de permanecer vivo, ela sabia bem disso e é provável que essa impossibilidade a tenha feito se reproduzir tanto em sua obra. Ao olhar suas telas por um tempo, sentimos como se ela estivesse aqui. Ela está viva em sua obra e permanecerá.

fonte: Frida – a biografiaHayden Herrera