A louca da Casa – Rosa Montero

Rosa Montero [fotografia: Ivan Gimenez]

A louca da casa é como Santa Teresa chamava a imaginação. Esse é o tema principal da obra da escritora espanhola Rosa Montero: aquela parte essencial de todos os seres humanos e que impele romancistas e narradores a escrever, aquela que vai além da razão e da realidade imediata e existe em uma zona limítrofe com a loucura.

A obra é uma espécie de ensaio sobre o exercício narrativo, com um pouco de autobiografia, trechos da biografia de outros autores e um estilo que lembra um romance. O livro é dividido em dezenove capítulos e em cada um vamos descobrindo uma ideia central. Em um deles, por exemplo, ela trata de uma questão que sempre vem à tona quando mulheres escrevem: existe uma literatura feminina?

Para responder a essa pergunta, Rosa Montero, que se considera feminista – embora acredite que o termo anti-sexista seja mais coerente do ponto de vista semântico – explica que dentro de uma sociedade urbana ocidental é bem provável que homens e mulheres tenham mais em comum entre si do que pessoas do mesmo gênero de culturas ou estilos de vida muito distintos. Isso quer dizer que uma escritora espanhola que nasceu e viveu em grandes cidades possivelmente se identifica mais com um colega homem desse mesmo meio urbano do que com alguém que tem raízes e construiu sua identidade no campo.

Em suma, há uma literatura feita por mulheres, o que é muito diferente de dizer que existe uma literatura feminina, ou seja, acreditar que aquilo que as mulheres escrevem só serve para ser lido pelo próprio gênero. Embora a literatura feita por mulheres seja importante para a representatividade, ela pode e deve ser lida por todos os gêneros. Não obstante, durante séculos a mulher leu e se identificou com protagonistas homens e com personagens femininas construídas pela perspectiva do homem, muitas vezes adotando comportamentos que eles consideravam importantes, mesmo que fossem muito mais benéficos para o ego masculino do que para a dignidade feminina. É de Rosa Montero a famosa frase que diz:

“Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres, mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano”.

Em um outro capítulo, Rosa Montero fala de uma categoria que teve um papel essencial no mundo literário – na verdade, a autora garante que ela ainda existe. São as “esposas de escritores”, mulheres sem dúvida excepcionais, inteligentes e talentosas que, no entanto, abriram mão de seus próprios talentos para cuidar de tudo que diz respeito à obra de seu “Grande Homem”. Isso inclui todas as miudezas que fariam o escritor perder seu precioso tempo criativo: revisar textos e passá-los a limpo, cuidar das finanças, dos contratos, das edições, das traduções, da cobrança de pagamentos, das viagens, das relações públicas, além, obviamente, da casa e dos filhos. E como se isso não fosse o bastante, essas mulheres ofereceram conselhos literários que se mostraram fundamentais para o sucesso de inúmeras obras, como por exemplo, O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson.

Um aspecto interessante de Rosa Montero é que ela desmonta a aura mítica que cerca os escritores e os traz para uma luz mais humana. Assim, ela apresenta a história de Goethe, que na ânsia de fazer parte da aristocracia foi viver na corte de Weimar, como intelectual à serviço, após escrever seu célebre Os sofrimentos do jovem Werther. Seus trabalhos oficiais incluíram desde ser ministro da Fazenda até o trabalho de inspetor de minas. Tais ocupações garantiram-lhe um título nobiliário, mas sacrificaram seu talento e ele próprio escreveu que deixou de pertencer a si mesmo a partir do momento em que chegou na corte. 

“O grande Wolfgang era um pobre puxa-saco, um infeliz que desde o primeiro momento começou a largar os envoltórios da própria dignidade em sua árdua ascensão pela escala social. Os seres humanos são criaturas tão paradoxais que a fraqueza mais tola e vulgar pode coexistir ao lado do talento mais sublime”.

É verdade que todos que escrevem, escrevem primeiro para si, movidos por suas intranquilidades e incertezas e porque não suportam a vida tal como ela é. Mas em algum momento sentem que precisam de mais do que isso: precisam ser lidos. Ninguém sabe de onde vem essa necessidade do olhar alheio, mas certo reconhecimento público é crucial não só para que escritores continuem escrevendo, mas também para que continuem sendo. 

Para Rosa Montero, que além de Jornalismo também estudou Psicologia, o escritor é alguém que, mais do que os outros, tende à dissociação, aquela condição psicológica que leva as pessoas a sentirem distanciamento do mundo, como se ele fosse impalpável ou irreal.

“O romancista é um ser que tem as costuras de sua identidade meio soltas e tende a se sentir dissociado”.

O que é, provavelmente, uma das razões que levam o narrador a ter facilidade em escrever sobre outras vidas, mas que os tornam mais suscetíveis a colapsos emocionais, à loucura e à decadência, especialmente diante da fama ou do fracasso. Por outro lado, a linguagem, a escrita, a narração, são também formas de transcender a individualidade.

“Isto é a escrita: o esforço de transcender a individualidade e a miséria humana, a ânsia de nos unir aos outros num todo, o desejo de sobrepor-nos à escuridão, à dor, ao caos e à morte”.

E por isso a escrita é um instrumento coletivo poderoso, mas que pode ser destrutivo. Rosa Montero diz que “a palavra é o que nos torna humanos” e que “para assassinar em massa, é preciso primeiro despojar as vítimas em massa de sua condição humana”. Foi um dos motivos pelos quais o nazismo conseguiu chegar tão longe. Ela cita o caso do linguista judeu Victor Klemperer, que passou mais de uma década em trabalhos forçados na Alemanha e com o fim da guerra escreveu a obra LTI: A linguagem do Terceiro Reich, em que desmonta a “linguagem do vencedor” e denuncia “a hipocrisia afetiva do nazismo, o pecado mortal da mentira consciente empenhada em transferir para o âmbito dos sentimentos as coisas subordinadas à razão, o pecado mortal de arrastar essas coisas pela lama da pertubação sentimental.” E Rosa Montero conclui:

“…as palavras, quando mentem lambuzadas de sentimentalismo, podem ser letais como balas de um assassino”. 

Os discursos nazistas, como se sabe, foram cruciais para que todas as atrocidades que culminaram no holocausto pudessem ocorrer com grande apoio da população alemã, que depois se viu envergonhada e como que saindo de um sonho absurdo. O que se vê hoje na política brasileira também pode ser colocado no rol das situações em que as palavras mentirosas, lambuzadas de sentimentalismo, despojam e dominam as massas.

A louca da casa propõe a discussão de temas tão complexos, tais como a linguagem e o ofício da narrativa, de uma maneira leve e despretensiosa, sem deixar de ser crítica. É uma obra excelente não só para pessoas que escrevem e sonham em tornar-se escritoras, mas também para aquelas que adoram o universo da literatura e das palavras.

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As três Marias

Lidiane Dutra

Ilustração: Lidiane Dutra

Raquel de Queiroz não fez uma escolha aleatória quando deu o título As Três Marias ao livro em que trata das limitadas possibilidades de existência da mulher, mesmo a privilegiada, na sociedade do início do século XX. Maria é um nome comumente associado a uma vida de restrições relacionadas ao gênero e à posição social, e a despeito desta condição não ser natural, mas determinada pelo meio em que se vive, por vezes a Vida Maria é de tal forma imposta que não é difícil associá-la com a predestinação: um destino escrito nas estrelas.

Maria Augusta (Guta), a protagonista, cresce no interior do Ceará, num internato de freiras, junto com Maria da Glória e Maria José. Sua narrativa permeia memórias da infância no mundo limitado do colégio, quando ela e as amigas sonham com os prazeres da cidade e cometem pequenas transgressões:  fazem amizade com as órfãs pobres do colégio, que aprendiam um ofício ao invés de receber a educação sofisticada das internas, uma restrição baseada na desigualdade de classes sociais e percebida pela protagonista sensível, leem livros proibidos e escrevem jornais satíricos – sendo a leitura e a escrita formas de autoexpressão e empoderamento.

Guta sai dos limites da escola e se desvencilha das raízes da casa paterna desejando experimentar o mundo, horrorizada com a monotonia da vida doméstica junto da família tanto quanto com a reclusão do colégio; ela quer ser livre e quer viver uma vida complexa. Por isso parte em busca de um encontro consigo no mundo, esse maravilhoso e dolorido processo de individuação, e como qualquer uma de nós, dá de cara com outras prisões: as relações românticas idealizadas como salvadoras ou transformadoras, a rotina massacrante e o trabalho monótono.

Tinha eu dezoito anos quando comecei a trabalhar, e seis meses depois já sentia medo de ficar velha sem saber o que era o mundo. (…) Andar. Viver. Viver uma vida complexa, onde as criaturas realmente existem, amam, sofrem, morrem, não sabem o que é passar a vida sentadas a uma máquina escrevendo fichas, batendo relatórios que os outros escreveram, coisas vis e sem humanidade, palavras que não têm existência real e não têm conteúdo, que não designam nada, senão as relações absurdas de gente que é apenas uma fórmula ou um título.

Conforme a narrativa vai entrando nos domínios de sua jovem vida adulta, a ingenuidade nostálgica e melancólica da protagonista vai se desconstruindo, amadurecendo-a. As histórias de mulheres com quem Guta se relaciona vem à tona e seus destinos são esmiuçados em descrições breves, porém marcantes, como se num ritual de reconhecimento de outras vivências, escolhidas conscientemente ou impostas, ela pudesse compreender seu próprio caminho no mundo.

Foi por conta desse livro, lido pela primeira vez quando eu tinha apenas doze anos, que me dei conta do meu gosto por narrativas que se preocupam menos com o desenrolar dos fatos e mais com a evolução psicológica das personagens. Guta amadurece, observa a vida com a distância de quem volta os olhos para o passado e desenvolve resistência às adversidades do mundo.

Se a vida livre, destino comum de um homem, ainda hoje encontra relutância quando se trata do desejo de uma mulher, na época em que o livro foi publicado, 1939, tal expressão era uma verdadeiro afronta. Confinamento, fuga, aceitação e subversão da condição feminina são tanto temas quanto parte do universo real em que essa obra foi criada.

O mundo: grande era minha sede. Não de prazeres, ou melhor, não só de prazeres. Minha alma era como a daquele soldado da história de Pedro Malasarte que abandona tudo, sai de mochila às costas, sofre fome, perseguições, anda cheio de poeira e cansaço por cidades estranhas (…). Ele, porém, escravo do desejo de “ver”, de “conhecer”, afronta tudo. (…) Eu me sentia igual a ele, éramos irmãos nós dois, o soldado e eu, sendo eu a irmã que ficara, que o não pudera acompanhar, e lhe estendia os braços e chorava.

Suas melhores amigas e cúmplices, Maria da Glória e Maria José, seguem por caminhos diferentes, suas estrelas ditam outras histórias. A Glória, triunfante, a estrela mais brilhante do céu e sempre privilegiada, sem grandes imaginações para desejos difíceis, aceita a sorte que lhe cabe de bom grado e prefere seguir naturalmente o papel exigido pela sociedade para a mulher: o casamento.

A José, estrela trêmula e modesta, de trajetória familiar sofrida e que leva no nome a identidade masculina e feminina, vive a repressão de uma sexualidade incompreendida, rejeitando aquilo que é visto como aberração pelo mundo e que lhe foi ensinado nos anos de reclusão escolar: segue uma vida beata.

Maria Augusta, inquieta, quando insiste pela liberdade de viver longe de suas raízes e construir uma história própria, descobre com angústia o quanto é difícil ver-se livre da vida comum; observa e sofre com o mundo, angustia-se, não aceita as correntes que a aprisionam. É a estrela ardente e molhada, que escolhendo o caminho mais difícil, oposto à tradição, recebeu como recompensa o destino da mulher livre: a solidão.