Festa em casa, elefantinho rosa e dourado e 1 ano da Aimée

festa rosa e dourado

Dia 23 de abril Aimée fez um ano e nós comemoramos com uma festa em casa, só para a família e algumas crianças mais próximas.

pink and gold party

Eu adoro fazer festinha, reunir pessoas íntimas, pensar um tema, decorar, fazer trabalhos manuais, montar mesa. Não passo aniversário em branco nunca e sempre dou um jeito de tornar o evento uma forma de por as minhas mãos para trabalhar criando coisas! Hahaha

festa elefantinho rosa e dourado

Fazer uma festa de elefantinho não foi uma escolha aleatória, elefantinho foi simplesmente o “tema” do primeiro ano de vida da Aimée. A gente percebeu que ela tinha um monte de coisas do bichinho e isso virou tão a cara dela que todo mundo queria dar elefantinhos de presente para Aimée.

Gosto da ideia de um tema que bem pessoal, torna tudo mais significativo. De fato, tem sido uma tendências nas festas infantis escolher temas que não sejam os tradicionais, como os de personagens, mas sim buscar inspiração em algo mais pessoal do aniversariante e criar todos os elementos da festa em cima disso. Eu já vi, por exemplo, festas cujo tema eram os próprios brinquedos da criança e ficou bem legal.

Tudo bem, elefantinho não é um tema “inventado”, porque o bicho tá na moda, sobretudo nos chás de bebê. Inclusive, vi demais nos últimos tempos um elefante mais moderninho, numa combinação de tons pastel com cinza e chevron.

Mas nós não fizemos esse tema porque estava na moda e também não queríamos nada muito batido. Então, não que eu tivesse qualquer resistência à isso, decidi fazer eu mesma algumas coisas e dar um ar mas personalizado para a festinha.

Decoração da festa – DIY

festa elefantinho - diy

Aqui vai uma dica para quem quer criar uma decoração personalizada e não sabe por onde começar: tenha uma ilustração como ponto de partida, assim fica bem mais fácil fazer “personalizados” para sua festa em casa. Com essa ilustração de elefantinho, eu precisei acrescentar apenas o nome e a idade da aniversariante – usando o aplicativo Canva –  e com ela fiz os convites e três decorações de mesa.

Imprimi em papel fotográfico a imagem para o porta retrato e em papel adesivo várias mini ilustrações para os convites e as caixas de pirulito.

O convite eu fiz no papel colorplus rosa, arredondando as bordas com uma cantoneira e acrescentando o rendado da ponta com um furador de papel de borda contínua, para dar um charmezinho. Em seguida, recortei as mini ilustrações e colei com uma fita dupla face no convite, sem retirá-lo, portanto, do papel adesivo. Desse modo, o convite já era uma lembrancinha. Quem não gosta de adesivo, não é?

Já para as caixinhas de pirulito, recortei alguns adesivos que sobraram das minhas cartelas e colei com fita banana no papel colorplus rosa, o que deu um efeito de alto relevo e sombreado bem legal.

tubete de elefantinho - diyPara os tubetes de elefantinho, copiei um molde da internet, risquei com um lápis no colorplus e recortei com a tesoura. Eu usei uma tesoura de precisão própria para scrapbook, ela deixa o acabamento bem mais perfeitinho do que uma tesoura escolar, ainda mais quando se trata de um papel de gramatura alta. À propósito, a tesoura é a Infinite, da Toke e Crie.

Depois fiz coroas e flores com papel colorplus dourado e rosa, usando furadores próprios nesses formatos, e finalizei com meia-pérola autoadesiva que comprei na Le Biscuit por um preço bem razoável. Depois enchi os tubetes com confete e achei que deu um colorido lindo para essa mesa toda rosa e dourada. As crianças adoraram – teve até menino voando para pegar mais de um. Achei fofo. 😀

festa elefantinho

De resto, usei balões, rosetas e um varal de feliz aniversário como “painel” na parede branca, tudo comprado pronto. Ainda queria ter feito um varal com elefantes em tamanho maior e em um modelo diferente dos que usei nos tubetes, mas achei que já tinha muita coisa e eu tinha quase nada de tempo para fazer.

Coloquei papel de seda nas caixinhas de doces, porque acho que dá um acabamento mais bonito na mesa e usei uma toalha descartável – que eu não descartei, porque ela é feita de um material plástico bom e vai me servir ainda. Uma coisa legal é que suportes de bolo e de marshmallow eram de acrílico transparente e não “pesaram” na ornamentação da mesa pequena.

Fizemos uma festinha bem simples e caseira, mas eu adorei o resultado de tudo. Acho que a combinação de rosa com dourado é muito bonita, iluminada, festiva. Procurar ficar dentro da paleta de cores também ajuda a criar um visual coerente. Além disso, não usei tudo no mesmo tom de rosa e acho que isso contribuiu para um resultado que não é monótono.  Já as paredes brancas de casa me ajudaram a não ter trabalho com painel. 😀

festa em casafesta em casa

Por inúmeras razões, nós decidimos fazer uma festa pequena em casa, ao invés de algo maior no salão de festas. Uma delas é que Aimée dorme cedo e poderia ficar estressada com um ambiente muito tumultuado, num evento mais longo.

Por isso, muita gente acha bobagem fazer festa para bebês, porque não é incomum que eles se estressem e, de qualquer forma, eles não vão lembrar de nada no futuro. Só que comemoração não é só de quem faz aniversário, é de quem vive junto e quando se trata do primeiro ano de vida do nosso bebê, que é tão intenso e que passa tão rápido, a gente tem a sensação de que merece comemorar, por tudo o que a gente viveu. Afinal, aniversário de um ano não é nada mais do que a celebração de uma vida ainda tão novinha nesse mundo e de um ano inteirinho do nosso amor.

Sentimentos incapacitantes e 10 conselhos para quem não consegue concluir projetos

concluir projetos

Eu sei como ninguém o quanto pode ser difícil concluir projetos.

Lidei e ainda lido com a insegurança e o perfeccionismo que me tornam uma pessoa com tendência à ansiedade. É um efeito bola de neve: a ansiedade me conduz à autossabotagem, a autossabotagem me torna uma procrastinadora, sempre temerosa de não conseguir fazer as coisas direito, a procrastinação me impede de fazer tudo o que eu preciso fazer e não dar conta de tudo me faz sentir uma impostora, aquela pessoa que até parece valer alguma coisa, mas que uma hora todo mundo vai descobrir que era uma farsa.

Crenças e atitudes nada agradáveis, não é mesmo? E que vão corroendo por dentro. Até que chega uma hora em que ou a gente se coloca no papel da pessoa incapaz, o que não é nada promissor, ou muda o comportamento e aprende a lidar com a sensação paralisante que impede a gente de fazer o que a gente quer fazer.

É possível.

Lembro de ouvir uma colega de graduação dizer que a monografia era um trabalho como outro qualquer. Então, quando chegou o momento, ela foi lá e c’est fini.  Já eu esperei muito por esse momento e reuni todos os meus esforços para fazer minha pesquisa. Foi um longo processo envolvendo crises, ansiedades, novas crises, novas ansiedades, num ciclo que não parecia ter fim.

Sei que entre a minha colega e eu existia um sentimento muito diferente em relação à monografia. Eu queria não só fazer algo bem escrito e correto, mas também honesto, relevante, original e me realizar fazendo minha pesquisa. Afinal, eu realmente acreditava naquilo.

Apesar de dedicada, minha colega não tinha pretensão alguma de fazer algo que fugisse de um trabalho comum, um trabalho que fosse além de seguir alguns passos conforme a orientação. Por outro lado, ela tinha foco, objetividade, segurança e desprendimento (da necessidade de fazer algo relevante) e como eu passei a admirar isso!

Hoje reconheço que a minha experiência foi problemática não só porque eu pretendia fazer uma pesquisa honesta. Na verdade, eu também tinha medo de fazer algo errado, incoerente, insuficiente, portanto, tinha medo de falhar. E isso foi crucial para o tamanho do meu sofrimento em fazer esse trabalho.

Outro dia, dando uma geral no email, encontrei um rascunho que era um desabafo sobre como eu demorava para fazer as coisas, sobre minha incapacidade em terminar aquilo que eu começava, etc, etc. Foi então que eu me dei conta de como tinha mudado, principalmente porque eu já não escrevo lamúrias assim.

Resolvi responder ao meu “eu antigo” e a resposta são os 10 conselhos a seguir:

1) Aprenda a ter constância

É fato que dá trabalho manter os próprios projetos de pé, mas ou a gente se dedica com constância ao que faz ou não consegue levar isso adiante. Você precisa levar a sério o seu trabalho e se esforçar para manter um ritmo. Importante: aprendi que constância tem muito a ver com o quanto a gente confia e se sente à vontade com o que está fazendo. Insegurança e perfeccionismo empacam a gente.

2) Lembre-se de que feito é melhor que perfeito

Os perfeccionistas são as pessoas que mais tem dificuldade em dar cabo das coisas. Quanto mais crítica você for, mais seu próprio trabalho vai parecer insuficiente. Mesmo que você acredite que não talento, saiba que talento também se constrói. É com a prática que a gente vai melhorando e, se você não se permite dar alguns passos porque acha que ainda não está bem, como é que vai conseguir fazer melhor algum dia?

3) Aprenda a ter assertividade

Cora Coralina disse que descobriu no caminho incerto da vida que o importante mesmo é decidir. A certa altura, percebi que muitos dos meus projetos não andavam porque eu ficava me perguntando se estava indo pelo caminho certo. Às vezes, é preciso meter uma ideia na cabeça sem muito espaço para dúvidas. Não se trata de ser inflexível ou acrítica, porque isso é muito ruim, mas de ter assertividade.

4) Tenha mais autoconfiança

Vou parecer minha mãe dizendo isso, mas ela está certa mesmo, então lá vai: você tem que se colocar lá em cima! Pode ser que você não saiba muito bem o que está fazendo, mas tem que confiar que está tentando fazer o melhor que pode. Respeite sua trajetória, suas intenções, seu esforço, até mesmo suas falhas. É comum a gente reclamar da falta de respeito e confiança dos outros em nós mesmas e no nosso trabalho, sem perceber que a gente também não confiança nem tem lá muito respeito por quem a gente é e pelo que a gente faz.

5) Dê espaço para o feedback, mas tenha critério

 Ouvir o que os outros têm a dizer sobre o nosso trabalho é essencial. Mas a linha entre ouvir um conselho que vai te ajudar a melhorar e se deixar levar pelo que é importante para os outros, e não para você, é muito tênue. Autocrítica, reflexão e um pouco autoconfiança ajudam a ir decidindo o que realmente você quer fazer. Lembre-se: você só vai fazer bem o realmente importa para você.

6) Não queira ter controle de absolutamente tudo

 O maior medo da pessoa insegura/ansiosa é não ter controle de tudo que envolve seu projeto. Acontece que não dá para prever como as coisas acontecerão o tempo todo. Às vezes, a ideia inicial não é a melhor. Às vezes, a gente deixa de acreditar naquela coisa. Às vezes aquilo em que a gente acredita não é a melhor escolha. Além disso, shit happens, como diria Jessica JonesNão tem problema. Quando algo foge ao nosso controle, a gente precisa de resignação e coragem, para seguir em frente e recomeçar.

5) Aproveite melhor o seu tempo

É engraçado. Se eu soubesse como era a vida com filhos, eu teria aproveitado melhor meu tempo, porque agora sei o quanto o tempo é um privilégio. Antes eu não dava conta de assistir uma vídeo aula, de cinco minutos que fosse, se dali a dez eu tivesse que sair de casa. Eu sei que isso tem a ver com ansiedade, mas agora eu procuro aproveitar cada mísero minuto para fazer algo útil. Por exemplo: é melhor escrever um rascunho de texto às pressas quando eu tenho uma ideia boa na cabeça, do que ter que começar do zero quando eu tiver um tempo maior disponível, porém sem ter nada em mente.

 8) Não espere pelo momento ideal

 Essa é uma das coisas mais difíceis para mim. Não é incomum eu achar que não estou pronta para algo ou que meu trabalho ainda não está bom. Não vou publicar isso, porque ainda não está pronto. Não vou entrar naquele projeto, porque ainda não estou pronta. O momento ideal é aquele em que a gente faz as coisas. A melhor oportunidade é a que a gente tem.  Também não existe maturidade ideal para saber que caminho tomar, maturidade é outra coisa. É preciso fazer escolhas, tomar decisões, ter constância, coragem e seguir pelo incerto para ver no que vai dar. Parece um clichê motivacional, mas eu tenho que admitir que é verdade.

9) Leve em conta que a vida tem altos e baixos

 Apesar da constância ser algo necessário para levar a cabo um projeto, a gente tem que ter em mente que, de fato, nada é muito linear e constante. É normal chegar um momento em que a gente não se sente totalmente dentro do que está fazendo, porque a vida tem facetas demais para que alguém consiga viver em função de uma só coisa. Não existe ser totalmente feliz em nada; tudo, absolutamente tudo e, especialmente, aquilo que a gente realmente ama fazer, vai dar trabalho, vão ter dias de desânimo, de descrença em si mesma, no trabalho que se faz.  Não se cobre tanto, não tenha tanta pressa. Respeitar os próprios limites e a energia de cada fase é fundamental.
10) Esqueça a noção de sucesso convencional
Nossa sociedade inventou uma ideia de sucesso e agora parece que a gente tem que fazer um monte de coisas para ser feliz. Mas, às vezes, felicidade dentro da gente tem a ver com poder ter uma tarde em paz, ouvindo o silêncio. Eu me sinto feliz assim desde criança e nos últimos tempos me dei conta de que isso é um conceito de felicidade para mim – e eu não estou dizendo isso para ser poética, é totalmente real. Quando eu não tenho tardes de paz suficientes, eu me sinto muito estressada e a vida parece me sugar. Eu preciso constantemente de pausa, silêncio, reclusão e ócio. Ócio reflexivo e ócio “nadativo” (de não pensar em nada, hahaha). Se para fazer um monte de trabalho massa e ter sucesso em algo, eu tenha que perder todas as minhas tardes de paz, eu não vou ter minha felicidadezinha. E aí não tem sentido fazer mais nada.

 

Goiás Velho em poesia e fotografia

goias velho

“Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens.”

[Aninha e suas pedras]

Estive em Goiás Velho duas vezes em um mesmo ano e, como costuma acontecer quando estou em cidades históricas, me senti encantada. O colorido das casas, as ruas sinuosas, o horizonte dos morros, as igrejas, a comida das panelas de barro, os doces caseiros, a aura do antigo e do moderno vibrando juntas…

Na primeira vez, por ocasião do carnaval, eu e Evandro curtimos uma festa tranquila nas ruas de pedra. Na segunda, participamos do FICA, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental que acontece anualmente por lá, para apresentar nosso filme [Aquém Margens] e participar de um debate no Fórum Ambiental do evento.

Nas duas vezes curtimos muito andar pelas ruas dessa cidade e um passeio que valeu muito a pena foi visitar a casa de Cora Coralina, que hoje é um museu. Lá fica fácil ver que a história da escritora e da Cidade de Goiás se confundem. Ela dedicou vários de seus poemas à terra onde nasceu, a qual atribui o resultado de toda sua formação. Aliás, ler Cora Coralina e andar pelas ruas de Goiás Velho é uma experiência impressionante, que nos faz sentir mais íntimos de sua poesia.

Fiz as fotografias da cidade do meu modo habitual, enquanto passeava por ela. Sempre ouvimos histórias, paramos para conversar com pessoas, procuramos sentir a atmosfera local, e isso influencia naquilo que adquire mais importância visual para mim. Mas, ainda assim foram fotografias feitas ao acaso, daquilo que eu ia achando bonito pelo caminho.

Só que depois, lendo Cora Coralina e revendo as imagens, percebi o quanto elas conversavam com muitas de suas poesias e a percepção disso me emocionou. A cidade forjou uma escritora, como ela própria disse. E agora é Goiás Velho quem é forjado por ela, ao se dedicar a contar a história de Cora, homenageá-la e perpetuá-la em sua própria história.

goias velho

“Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

goias velho

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

goias velho

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

goias velho

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

goias velho

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

goias velho

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.”

[Minha cidade]

***

goias velho

“Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”

[Humildade]

***

goias velho

“Quisera eu ser dona, mandante da verdade inteira e nua,
que nua, consta a sabedoria popular, está ela no fundo de um poço fundo,
e sua irmã mentira foi a que ficou  em cima beradiando.

Quem dera a mim esse poder, desfaçatez, coragem de dizer verdades…
Quem as tem? Só louco varrido que perdeu o controle das conveniências.
Conveniências… palavras assim de convênio, de todos combinados,
força poderosa, recriando a coragem, encabrestando a vontade.
Conveniência… irmã gêmea do preconceito, encangados os dois,
puxando a carroça pesada das meias verdades.
Confissões pela metade…
Quem sou eu para as fazer completas?

Reservas profundas, meus reservatórios secretos, complexos,
fechados, ermos, compromissos íntimos e preconceitos vigentes, arraigados.

Algemas mentais, e tolhida, prisioneira, incapaz de despedaçar a rede
onde se debate o escamado da verdade…
Qual aquele que em juízo são, destemeroso dos medos
para dizer mais do que  as meias dissimuladas, esparsas?

A gente tem medo dos vivos e medo dos mortos.
Medo da gente mesmo.
Nossas covardias retardadas e presentes.
Assim foi, assim será.”

[Confissões partidas]

***

goias velho

“Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.”

[Das pedras]

***

goias velho

“Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam – eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto,
veio outra que ficou sendo a caçula.

[…]

Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“- Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente.”

[…]

Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“- Levanta, moleirona.”

[…]

E a casa me cortava: “ menina inzoneira!”
Companhia indesejável – sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.

A rua… a rua!…
(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
– proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
– emparedavam.

[…]

Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.

Contenção… motivação… Comportamento estreito,
limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim…
Um mundo heroico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.

E a casa alheada, sem pressentir a gestação,
acrimoniosa repisava:
“- Menina inzoneira!”
O sinapismo do ablativo
queimava.

Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar…
E a certeza de estar sempre errando…
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre…
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.

Eu era triste, nervosa e feia.
Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
“- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido!”

Melhor fora não ter nascido…
Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
– ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.

Sem carinho de Mãe.
Sem proteção de Pai…
– melhor fora não ter nascido.

E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.”

[Minha infância]

***

goias velho

“Irmanadas na poesia
Nos encontramos,
Quem vem vindo,
Quem vai indo,
Na roda-viva da vida.
Girando, se esbaldando,
No encalço de uma rima
Fugidia.
Pegar no laço do pensamento
A rima feliz e plantar com amor
Na divisa extrema do verso,
A chamada rima de ouro
Que tem forma de chave de ouro.
E dizer que há poetas consagrados
Que têm delas um chaveiro!
Com os dedos pegamos a luz.
Começou o seu tempo,
Meu tempo se acaba.
O esplendor de uma aurora,
O poente que se apaga.
Fui na vida o que estás agora,
Tu serás o que sou.
Nosso traço de união:
És o passado dos velhos,
Eu, o futuro dos moços.”
[Traço de união]
***

goias velho

“Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes. O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.  Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser melhor, pois bondade também se aprende. Mesmo quando tudo parece desabar cabe a mim decidir entre rir e chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida que o mais importante é decidir.” [Cora Coralina]

Viajando de carro com bebê

viajando de carro com bebe
Foram três dias, dois mil quilômetros rodados e cinco estados viajando de carro com bebê.
Saímos de Marabá, no Pará, onde passamos férias de fim de ano com a família, rumo a João Pessoa, na Paraíba, onde moramos agora.
Na ida eu fui de avião com Aimée e após três conexões e sete horas de viagem eu estava destruída. Meu braço esquerdo ficou dormente por ter de carregá-la por horas a fio, sem pausa nem revesamento. E para completar eu passei o pior perrengue da vida tentando acalmá-la no último voo, sem poder me movimentar direito no espaço exíguo das poltronas, amarrada naquele cinto que eu nunca tinha percebido como era apertado.
Mas viajar de carro também tem seus perrengues. Por um lado, é mais divertido e até mais confortável e se você não estiver com pressa dá para ir curtindo tudo: as paisagens, as paradas nos restaurantes locais e até alguns pontos turísticos. Por outro lado, são horas demais na estrada, o que acaba interferindo de alguma forma no fator conforto e diversão.
A verdade é que viajar com bebê é tenso, seja qual for o meio escolhido. Em alguns momentos a sensação é de segurar uma bomba relógio. A gente sabe quando a cria está perto de entrar no efeito vulcão e aí começa a temporada de alternativas para segurar a onda até que ela finalmente consiga pegar no sono, recuperar as energias e dar uma trégua na gente.
Mas, no final das contas, cumprimos a missão de voltar para casa de carro e curtimos a viagem. Temos fotos lindas e umas boas histórias. É aquele tipo de coisa que vale a pena lembrar e contar: nós vivemos isso. São nossos momentos mais preciosos e eu me orgulho disso.
Provavelmente não faremos outra tão longa assim com Aimée bebezinha, mas deixo aqui algumas dicas de como aproveitar esse tipo de jornada sem grandes tormentos.

Sabe quando a gente come de tédio? Descobrimos que comer é uma distração em viagens não só para nós, mas para os bebês também. Pelo menos para a minha bebê taurina (hahaha). Ela ama frutas e na hora do estresse oferecer uma era uma salvação! Aqui a dica é levar o que o bebê mais gosta de comer.

viajando de carro com bebe

COMENDO PÊSSEGO
 

Bebê precisa ficar no chão para gastar as energias. Quando fizemos essa viagem, Aimée estava aprendendo a engatinhar e queria ficar treinando o tempo todo. Por isso levamos o tapete emborrachado que usamos em casa e em cada parada mais longa ela podia ficar livre brincando.  Como era o que já tínhamos, foi o que usamos, mas um tapete que não precisa ser montado teria sido mais prático. Essa dica ótima eu tirei do blog Ideias na Mala [você pode ver o texto completo aqui].

viajando de carro com bebe

PILATEIRA
 

Bebê que está aprendendo a engatinhar, ficar em pé, andar, não quer passar horas preso numa cadeirinha. Vamos combinar que ali não tem muito espaço para se movimentar (é tipo o conjunto poltrona e cinto do avião), então convém ter coisas legais para distrair o bebê e fazê-lo esquecer de estar preso. Os brinquedos devem estar acessíveis em uma sacola ou bolsa. É legal levar os preferidos, aqueles que sempre encantam a criança, mas também algumas novidades, que vão deixá-la curiosa e entretida por um bom tempo, explorando o objeto.

viajando de carro com bebe

ELA PREFERE LIVROS E GARRAFAS DE ÁGUA MINERAL (HAHAHA)

As paradas devem ser bem estratégicas. Pare para esticar as pernas, comer e ir ao banheiro quando o bebê estiver entediado ou estressado, evite parar quando o bebê estiver tranquilo e brincando e coloque sebo nas canelas quando a criaturinha estiver dormindo, esse momento é precioso (até o carro corre melhor!). Aproveite para dar um banho no bebê em uma parada mais longa, ajuda a refrescar e acalmar.

viajando de carro com bebe

ACREDITE, ELA ADORA TOMAR BANHO
 
Vamos pagar um pouco a língua. Não pode dar tudo o que o bebê quer, né? Mas às vezes, quando estamos com o Vesúvio em plena erupção (hahaha), é preciso fazer algumas concessões. Sim, se for o caso, deixe o bebê brincar com o controle do som ou dormir mordendo a tela de proteção do sol .

viajando de carro com bebe

ELA FEZ ISSO

 

Sabe aquele mantra “vai passar”? Pois bem, tenha calma e mantenha o bom humor nas horas trash. Se você escolheu viajar de carro, saiba que elas vão acontecer todos os dias. Não se desespere achando que o estresse e o choro não vão passar nunca, porque eles vão. Bebês precisam se alimentar, brincar e dormir, portanto sempre confira se algum desses “itens” está em falta. Se for preciso parar, pare. Uma boa dica: música pode ajudar a acalmar, distrair e induzir o sono.

viajando de carro com bebe
LENDO LIVRO COM MUDANÇA DE ENTONAÇÃO E TUDO
 
Você decidiu fazer essa viagem por algum motivo, então relaxa e curte o máximo que puder. É um momento incrível para a família e é recompensador rever os melhores momentos nas fotografias, nos vídeos e relembrando histórias engraçadas (e até tensas), sabendo que tudo que a gente viveu, a gente só viveu porque estava ali!
viajando de carro com bebe
MINHA FOTO DE BLOGUEIRINHA
viajando de carro com bebe
EU, QUE DEVO SER A ÚNICA PESSOA DO MUNDO QUE NÃO GOSTA DE ÓCULOS ESCUROS COM SOL MUITO FORTE
sertao
AS PAISAGENS SÃO A MELHOR PARTE

doce beira seca

NA VERDADE, AS PAISAGENS SÓ PERDEM PARA AS COMIDAS TÍPICAS: BEIRA-SECA, UM DOCE IMPRESSIONANTE

sertao

ESTRADAS SÃO MINHA PAIXÃO <3

sertao

PAISAGENS NORDESTINAS

gado

“A TEMPESTADE, A MANADA E NÓS, NA CONTRAMÃO DE TUDO…”

 

O fenômeno Baby Brain e nossa natureza sábia

baby brain
Li apenas um livro em nove meses de gestação e foi com um certo esforço. Eu, tão mental, racional, mente incansável, tive o primeiro sinal de gravidez enquanto lia, ou tentava ler um livro. À vista das páginas, eu nauseava, o cheiro do papel embrulhava o estômago. Enquanto tudo em mim se transformava e a barriga crescia, mal li e mal escrevi.

Como foi difícil para mim ficar longe do meu reduto, meu quarto com meus livros, minha mesa, meus cadernos. Além da náusea com o cheiro do papel e da visão das letras impressas ou na tela do computador, comecei a sentir uma irritação muito grande em ter que pensar, raciocinar, refletir. Nesse período eu fui toda corpo físico, material e instinto.

A gestação é de um imenso e quase invisível esforço. A barriga cresce e toda a engrenagem por trás disso, toda a atividade exigida para formar um novo ser, tão complexo e completo, funciona sem que a gente veja, mas o corpo exige e a gente sente. O enjoo é só um dos sintomas. O que de mais impressionante eu senti, diria até de mais bonito, foi a necessidade de aterrar, de estar presente aqui e agora.

Na gestação e sobretudo no parto, é impossível prescindir das sensações do corpo. E a sabedoria animal, instintiva, física, primitiva, por vezes sufocada numa sociedade em que a tendência é dissociar-se da própria natureza, torna-se primordial. Mas é especialmente quando o bebê nasce que precisamos dessa sabedoria.

A dificuldade em concentrar-se, a “perda” da memória e o fastio intelectual são, segundo a teoria do Baby Brain, respostas evolutivas do cérebro para garantir a sobrevivência do novo serzinho por quem temos total responsabilidade. As pesquisas sugerem que durante o período em que ocorre o fenômeno há um aumento de atividade cerebral nas áreas do cérebro ligadas às habilidades emocionais e uma diminuição na área relacionada às respostas racionais.

Com todos os nossos sentidos voltados para o bebê, nos conectamos mais fácil e rapidamente com ele, tornando-nos mais capazes de reconhecer  os significados das expressões faciais, dos vários tipos de choro e dos movimentos do seu corpinho, de modo a atender correta e prontamente às suas necessidades, diferenciando fome, dor, aconchego.

Compreender e aceitar a nova condição, buscando adaptar o que for necessário na rotina para lidar com lapsos de memória ou mesmo abrindo mão de atividades intelectuais por um tempo, é a melhor forma de lidar com essas mudanças tão importantes quanto temporárias.

Cerca de quinze dias após o parto, senti uma enorme vontade de ler e passei várias das longas horas de amamentação em leitura. E ainda lembro bem da sensação de já conhecer minha bebê quando a vi pela primeira vez e de sentir um vínculo muito forte. Foi a primeira vez em que percebi conscientemente o sábio movimento da natureza.

Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda Ngozi Adichie
Chimamanda Ngozi Adichie

É mais fácil lidar com o fato de que não somos perfeitas do que encarar o contraditório das pessoas que admiramos e idealizamos. Compreender perfeitamente que alguém que temos como ponto de referência desde a infância é alguém que nos violenta não é tão simples quanto parece.

“Tudo que Papa dizia soava importante”, diz Kambili sobre o próprio pai. O tempo todo, a protagonista de Hibisco Roxo, obra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, deseja a aprovação paterna pelo comportamento correto e pelas palavras adequadas. O cenário é a Nigéria de um novo golpe militar e em meio ao contexto social caótico, bem como ao ambiente familiar marcado pelo fanatismo religioso do pai tirânico e o silêncio da mãe submissa, acompanhamos o amadurecimento de uma jovem de 15 anos.

A relação de Kambili com o pai é muito mais complexa do que o simples medo provocado pelas reações violentas que ele tem quando ela e o irmão não atingem as regras e metas minuciosamente estabelecidas, que vão desde um comportamento adequado à religião católica, até o alcance das maiores notas na escola. A admiração e o orgulho que Kambili sente pela figura paterna parece ser muito mais balizador de sua própria vida; de certo modo, ela se sente especial por ser filha de um homem que tem prestígio na comunidade, que é respeitado por ser um capitalista e altruísta.

Se não fosse pela provocação da tia e dos primos que entram na vida de Kambili trazendo outras visões de mundo, talvez ela seguisse para sempre nos limites impostos no lar. A experiência é transformadora: tia Ifeoma a coloca em contato com a Nigéria além dos muros das mansões, das igrejas ricas e das escolas católicas dirigidas por freiras brancas. A culinária, a língua, os costumes, as tradições religiosas nigerianas e a música local são descritas por Kambili com o estranhamento natural de quem não só viveu sempre à parte daquilo, como foi ensinada a temer boa parte dos costumes populares. A postura da protagonista diante desse mundo novo, a princípio, é silenciosa e reprimida.

O comportamento esperado pelo pai era aquele cujas características se aproximam do modelo europeu, das qualidades atribuídas aos brancos: seriedade, sobriedade, silêncio, frieza. As únicas músicas ouvidas pela família de Kambili são os cânticos religiosos em latim. O sobressalto e constrangimento da protagonista ao ouvir a tia e os primos cantarem músicas religiosas em igbo após a oração da noite é um dos momentos em que ela mais expressa o quanto a sombra do pai caminha junto com ela. Kambili não canta porque sabe que pai a aprovaria se a visse naquele momento, mesmo ele estando longe demais para isso.

A paranoia religiosa do pai é também um medo, não do diferente, mas de quem ele era antes da igreja, e se apresenta numa tentativa de purificação de algum mal que ele acredita ainda existir em si e no mundo. É a negação da Nigéria, com as tradições religiosas de seu próprio povo, que ele passou a considerar diabólicas, conforme a igreja o ensinou, assim como da língua materna, de modo que ele só fala em igbo quando a raiva toma conta de si, descontrolando-o a ponto de não permitir que ele fale inglês.

Talvez por estar o tempo todo restrita ao lar, sem contato com visões de mundo que difiram dos valores injetados nela e no irmão pelo pai, Kambili demora a entrar no cerne do que sente e pensa. Embora haja profundidade na personagem, suas observações sejam longas e sua personalidade introspectiva, as reflexões são sutis. Ela passa arranhando aquilo que vê, devagar, jogando com sombras e luz no que quer dizer, como se estivesse ainda elaborando o que pensa ou tentando descobrir o que sente; é o amadurecimento, afinal. Dessa mesma forma misteriosa ela costuma descrever a violência doméstica, deixando no ar o que realmente aconteceu.

Só depois, quando já está mais madura, é que sua expressão se torna mais aberta. É quando ela se abre também para a diversidade com mais naturalidade. O irmão de Kambili, Jaja, amadurece de forma oposta. A aceitação da diferença é praticamente imediata, quase não há estranhamento. Talvez porque ele já tivesse batido de frente com pai dentro dele próprio, muito mais do que a irmã. Por outro lado, a complacência dela faz com que a ruptura com a sombra paterna seja menos dramática e dolorida do que foi para ele. Jaja caminha da abertura para o isolamento.

A princípio extremamente insegura a respeito das próprias opiniões, mal conseguindo articular as palavras, que travavam pelo medo profundo de não saber dizer a coisa certa, Kambili aprende a expressar-se com a prima Amaka, personagem duríssima de início, altiva, implicante e sempre com palavras cortantes na ponta da língua. Mas é ao observar o jovem padre Amadi, por quem ela se apaixona, treinando meninos pobres no salto, fazendo-os ir cada vez mais alto sem que eles percebessem, que Kambili entende porque seus primos são tão diferentes dela e do irmão:

“Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja era diferente. Nós não saltávamos porque acreditávamos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir.”

O amadurecimento gradual e ascendente de Kambili a transforma profundamente. Ela aprende a lidar com o diferente sem temê-lo, a amar sem pudores, a expressar seus pensamentos e até mesmo a sorrir e cantar. Aliás, é no momento em que Amaka percebe que Kambili está cantando Fela Kuti, cujas músicas são expressão da liberdade e da consciência política e social, que nós mesmas nos damos conta de que ela mudou, e então podemos apreciar a incrível transformação dessa personagem, de maneira tão real, intensa e rica.

Mas Kambili ainda quer que o pai se orgulhe dela, ela ainda tem uma dependência profunda dele em sua existência. Apenas a morte física do pai é capaz de libertá-la. Provavelmente por saber disso, por saber que toda a família só conseguiria a libertação daquela figura de autoridade se ela desaparecesse para sempre, que a mãe de Jaja e Kambili, o tempo todo um silêncio de submissão, mal sendo capaz de expressar uma opinião que não soubesse previamente agradar ao marido, põe fim a vida dele, colocando veneno em seu chá.

Existem várias formas de se discutir uma obra e Hibisco Roxo tem muitos outros elementos que não foram tratados nesse texto. O livro foi uma das melhores descobertas literárias dos últimos tempos [os meus tempos, obviamente] e eu espero poder discutir muita coisa ainda sobre ele, porque as ideias e sensações dessa história estão me rondando com a mesma profundidade e sutileza de Kambili. A escrita de Chimamanda Adichie é autêntica e muito bonita. Gosto da simplicidade na estrutura do romance, da descrição que ela faz da rotina das personagens e da paisagem [um recurso que dá densidade à história e que adoro] e o fato de ela não usar nenhuma estratégia forçada para chamar a atenção para o enredo; a história basta.

Espírito literário

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Quando eu estava no 2º ano do ensino médio, estudei em uma escola em que a biblioteca era improvisada. As estantes ficavam coladas na parede de uma sala pequena e uma professora fazia bico de bibliotecária nos intervalos de aula, sentada em uma mesa de madeira antiga, onde anotava os empréstimos num caderno brochura grande.

O improviso gerava dois problemas: ou a biblioteca passava bom tempo fechada ou ficava aberta sem ninguém para tomar conta. O segundo problema muito me agradava.

Eu tinha saído de uma escola que tratava seus estudantes de maneira distante e desconfiada e a biblioteca seguia essa linha de relacionamento. Não era um ambiente gostoso. Aliás, nada era gostoso naquele lugar em que a diretora um dia me olhou de cima a baixo e disse “que roupa ridícula, mocinha”, na frente de um punhado de adolescentes “bulinadores” na hora do intervalo.

Mas a biblioteca conseguia ser mais desestimulante. Na sala cinza e asséptica, não era possível acessar as prateleiras de livros, portanto era preciso pedir a obra para a bibliotecária fria atrás da bancada, o que impedia a experiência de olhar, passar os dedos, cheirar, abrir aleatoriamente e cair em êxtase ao ler uma passagem qualquer de um livro desconhecido ou sentir a boca aguar com algum título instigante.

Na escola nova a biblioteca era minha. Eu sentava no chão empoeirado da sala escura e entontecia com todos aqueles livros à minha disposição. A diretora tinha tido a brilhante ideia de deixar uma poltrona velha nessa sala, uma maravilha reclinável e extremamente confortável, em que eu sentava regulando a melhor posição e ali reinava solitária por horas e perdia o tempo, perdia aula, perdia o horário de ir para casa.

A biblioteca improvisada, de prateleiras abarrotadas e desorganizadas, que servia de depósito para objetos antigos, era meu lugar favorito.

***

Numa época obscura da minha vida, fui acometida por um mal que eu mesma diagnostiquei como TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo – literário.

Eu estava no início da leitura de O fantasma da Ópera quando meu disco foi engolido e fiquei repetindo, repetindo e repetindo a leitura do mesmo parágrafo sem conseguir avançar. As letras eram um código neutro, que entrava na minha cabeça sem fazer sentido, apesar de tudo parecer tão simples, então eu me forçava a reler as palavras a ponto de nausear.

Em certa altura, me dei conta de que não estava lendo, mas sim macerando meu cérebro e torturando minha mente na tentativa ridícula de fazer uma leitura profunda e bem feita. Não totalmente derrotada, abandonei o livro e fiquei meses sem ler nem um sequer. Um dia abri uma gaveta e ele estava lá, me esperando velho e paciente.

Decidi retomá-lo sem possibilidade de paradas para certificação de entendimento e proibida de reler parágrafos. Engavetei a obsessão perfeccionista e o bloqueio se desfez.

O livro é sempre o mesmo, afinal, mas a leitura não, assim como a gente.

Criei meu princípio de que os livros têm hora. Se eu sinto que não entrei na vibração da história, que ela caminha lenta e pesada, deixo estar. Às vezes é só uma questão de saber respeitar o momento certo do encontro.

Para quem deseja fotografar

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Eu estou fotografando há um bom tempo e uma das minhas maiores questões em torno disso não tem a ver com técnica, mas com algo que me interessa muito mais: como contar histórias de uma maneira genuína, inspiradora, significativa.

Antes de qualquer coisa, sou ávida por compartilhar histórias. Desde muito nova nutro um desejo profundo em comunicar o que me instiga. Esse desejo me remete à lembrança de viajar na infância, ver o horizonte azulado na estrada e me sentir tão inspirada a ponto de querer transmitir essa sensação de grandeza que se impunha na paisagem. A fotografia é umas das formas que encontro de fazer isso.

Fotografar é fácil. A técnica é perfeitamente apreensível, embora exija estudo e prática. Conhecimento de arte e estética é importante para desenvolver o próprio estilo e conseguir produzir algo original. Na verdade, uma fotografia visualmente impactante é mais fácil de ser feita do que parece e existem muitos truques para conseguir uma. Mas e quanto a obter uma fotografia que não seja vazia de conteúdo?

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Eu não tenho uma resposta pronta, mas tenho várias ideias a respeito. E de todas elas, a principal é que não há boa fotografia sem bom conhecimento daquilo que se fotografa. É possível sentir a distância ou proximidade entre autor e assunto em uma imagem, tornando-a rasa e superficial. Um envolvimento mais profundo com a história de pessoas e lugares é importante para que o olhar chegue mais perto, mais dentro.

Tenho uma forma de lidar com a fotografia que muitas vezes é encarada como absurda. Embora mude conforme o contexto e assunto, não costumo chegar de câmera na mão em todas as situações. Se em alguns momentos é imprescindível estar atenta aos mínimos movimentos, em outros é preciso observar, sentir o local e as pessoas antes de começar a clicar; preciso que elas estejam à vontade com a minha presença – se possível, que elas saibam que estou ali, mas esqueçam de mim.

É que além de ser invasivo adentrar os espaços dos outros com uma máquina apontada em seus rostos, também perdemos um diálogo ou uma escuta que nos permita conhecer suas histórias se já chegamos com nossos olhos bloqueados pela frieza da câmera. Perdemos sua espontaneidade e a confiança de que não estamos ali para torná-los objetos nossos, além da oportunidade de deixar claro que respeitamos sua dignidade e é isso que queremos compartilhar. Observações longas e cuidadosas nos permite descobrir movimentos, motivações, jeitos de ser e de se expressar que enchem nossas fotografias de significados se priorizamos não a câmera, mas as pessoas e suas histórias.

Isso, na verdade, é o que eu levo em consideração quando vou fotografar e é parte da minha intenção com a fotografia: criar narrativas densas. E vai além, porque quando fotografo sinto que estou criando fragmentos de intensidade e beleza, mesmo que minha realidade seja de inquietude e angústia, e penso que isso é típico de quem cria para encontrar humanidade no que faz e uma salvação de si mesma através da própria criatividade.

Você já se perguntou porque deseja fotografar?

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Fotografe se deseja comunicar algo. Nem sempre conseguimos expressar o que sentimos e pensamos facilmente e fotografia é uma boa forma de abstração, de transformar aquilo que simplesmente existe, aparentemente tão puro, concreto e real, em um conceito. Nisso de fotografar, vamos encontrando algumas respostas para o que nos inquieta, que do inconsciente afluem para a luz de nossas mentes. Como num rio, entretanto, a água nunca para de correr e as questões não findam.

Qualquer que seja o motivo que te leve a fotografar, viaje: para conhecer o mundo e a si mesma, mesmo que mundo seja um universo bem próximo do seu quintal. Amplie sua leitura de mundo, porque mentes fechadas são incapazes de ver bem e fotografia é basicamente sobre olhar. A menos que você queira apenas registrar um momento sem mais motivações além disso, manter diálogo inteligente e empático com o mundo é requisito.

Evite modismos. É certo que somos parte do contexto em que a moda é criada e estamos inconscientemente ligadas à sua linguagem, porém, qualquer que seja sua intenção, saiba que fotografias com densidade, profundidade e autenticidade serão sempre aquelas que nos farão olhar mais uma vez. Vale a autocrítica sempre, mesmo sabendo que tudo que for criado no começo será um arremedo do que está sendo feito no momento no mundo, até que a gente encontre um modo próprio de expressão que, como tudo na vida, nunca está totalmente acabado.

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Fotografias da Exposição Badja ku Mar - Alexandra Duarte
*Leia sobre as condições de uso das imagens AQUI.

As três Marias

Lidiane Dutra

Ilustração: Lidiane Dutra

Raquel de Queiroz não fez uma escolha aleatória quando deu o título As Três Marias ao livro em que trata das limitadas possibilidades de existência da mulher, mesmo a privilegiada, na sociedade do início do século XX. Maria é um nome comumente associado a uma vida de restrições relacionadas ao gênero e à posição social, e a despeito desta condição não ser natural, mas determinada pelo meio em que se vive, por vezes a Vida Maria é de tal forma imposta que não é difícil associá-la com a predestinação: um destino escrito nas estrelas.

Maria Augusta (Guta), a protagonista, cresce no interior do Ceará, num internato de freiras, junto com Maria da Glória e Maria José. Sua narrativa permeia memórias da infância no mundo limitado do colégio, quando ela e as amigas sonham com os prazeres da cidade e cometem pequenas transgressões:  fazem amizade com as órfãs pobres do colégio, que aprendiam um ofício ao invés de receber a educação sofisticada das internas, uma restrição baseada na desigualdade de classes sociais e percebida pela protagonista sensível, leem livros proibidos e escrevem jornais satíricos – sendo a leitura e a escrita formas de autoexpressão e empoderamento.

Guta sai dos limites da escola e se desvencilha das raízes da casa paterna desejando experimentar o mundo, horrorizada com a monotonia da vida doméstica junto da família tanto quanto com a reclusão do colégio; ela quer ser livre e quer viver uma vida complexa. Por isso parte em busca de um encontro consigo no mundo, esse maravilhoso e dolorido processo de individuação, e como qualquer uma de nós, dá de cara com outras prisões: as relações românticas idealizadas como salvadoras ou transformadoras, a rotina massacrante e o trabalho monótono.

Tinha eu dezoito anos quando comecei a trabalhar, e seis meses depois já sentia medo de ficar velha sem saber o que era o mundo. (…) Andar. Viver. Viver uma vida complexa, onde as criaturas realmente existem, amam, sofrem, morrem, não sabem o que é passar a vida sentadas a uma máquina escrevendo fichas, batendo relatórios que os outros escreveram, coisas vis e sem humanidade, palavras que não têm existência real e não têm conteúdo, que não designam nada, senão as relações absurdas de gente que é apenas uma fórmula ou um título.

Conforme a narrativa vai entrando nos domínios de sua jovem vida adulta, a ingenuidade nostálgica e melancólica da protagonista vai se desconstruindo, amadurecendo-a. As histórias de mulheres com quem Guta se relaciona vem à tona e seus destinos são esmiuçados em descrições breves, porém marcantes, como se num ritual de reconhecimento de outras vivências, escolhidas conscientemente ou impostas, ela pudesse compreender seu próprio caminho no mundo.

Foi por conta desse livro, lido pela primeira vez quando eu tinha apenas doze anos, que me dei conta do meu gosto por narrativas que se preocupam menos com o desenrolar dos fatos e mais com a evolução psicológica das personagens. Guta amadurece, observa a vida com a distância de quem volta os olhos para o passado e desenvolve resistência às adversidades do mundo.

Se a vida livre, destino comum de um homem, ainda hoje encontra relutância quando se trata do desejo de uma mulher, na época em que o livro foi publicado, 1939, tal expressão era uma verdadeiro afronta. Confinamento, fuga, aceitação e subversão da condição feminina são tanto temas quanto parte do universo real em que essa obra foi criada.

O mundo: grande era minha sede. Não de prazeres, ou melhor, não só de prazeres. Minha alma era como a daquele soldado da história de Pedro Malasarte que abandona tudo, sai de mochila às costas, sofre fome, perseguições, anda cheio de poeira e cansaço por cidades estranhas (…). Ele, porém, escravo do desejo de “ver”, de “conhecer”, afronta tudo. (…) Eu me sentia igual a ele, éramos irmãos nós dois, o soldado e eu, sendo eu a irmã que ficara, que o não pudera acompanhar, e lhe estendia os braços e chorava.

Suas melhores amigas e cúmplices, Maria da Glória e Maria José, seguem por caminhos diferentes, suas estrelas ditam outras histórias. A Glória, triunfante, a estrela mais brilhante do céu e sempre privilegiada, sem grandes imaginações para desejos difíceis, aceita a sorte que lhe cabe de bom grado e prefere seguir naturalmente o papel exigido pela sociedade para a mulher: o casamento.

A José, estrela trêmula e modesta, de trajetória familiar sofrida e que leva no nome a identidade masculina e feminina, vive a repressão de uma sexualidade incompreendida, rejeitando aquilo que é visto como aberração pelo mundo e que lhe foi ensinado nos anos de reclusão escolar: segue uma vida beata.

Maria Augusta, inquieta, quando insiste pela liberdade de viver longe de suas raízes e construir uma história própria, descobre com angústia o quanto é difícil ver-se livre da vida comum; observa e sofre com o mundo, angustia-se, não aceita as correntes que a aprisionam. É a estrela ardente e molhada, que escolhendo o caminho mais difícil, oposto à tradição, recebeu como recompensa o destino da mulher livre: a solidão.

Cinzas

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Eles se acumularam na parte de cima do meu armário desde os seis ou sete anos e pesavam em mim. Com dezesseis, resolvi queimá-los, todos os diários que tinha tido até então, numa fogueira malfadada pela terra molhada, trêmula, não de frio, mas de emoção.

Era o meu desejo de me reinventar impedido pela existência de um passado escrito. Senti que podia recomeçar depois daquela fogueira, limpa, uma folha em branco, um caderno novo, emoções novas, um outro eu.

Constantemente sinto vontade de trocar de pele, mudar tudo. Não tento ser outra pessoa, trocar de pele é tentar todos os meios de ir de encontro à minha essência verdadeira, ser tão eu que me baste. Finda. Pois sinto que estou inteira, aqui, em algum lugar dentro de mim, um lugar distante dentro de mim.

Pronuncio meu nome em voz alta, me chamo e sei que sou, ainda que não saiba o quê; existo. Existo um pouco no meu cabelo e nos meus olhos e eles mudam. Existi num sorriso que já mudou, nas roupas que já foram. Mas a palavra, depois de escrita, é sempre presente, mesmo que não diga de mim mais nada.

Guardo todos os diários seguintes. Releio, às vezes. Não sinto mais que preciso destruí-los para poder recomeçar, pelo contrário. É como um quebra-cabeças, um jogo de memória, uma linha que vai ascendendo, fazendo sentido.

Por vezes me esqueço, esqueço de sonhos, e quando volto, quando voltam os sonhos, é como se fosse a primeira vez. Então me surpreendo, lendo; o que escrevo agora, já tinha escrito de outra maneira, porque já tinha pensado, já tinha sido tudo aquilo. Me dou conta de que me repito, mas às vezes também encontro escrito o que já deixou de existir.

É verdade que me crio e me invento; me invento pelo que sou e me forjo com o que inventei, por vezes livre e sem pensar, pela vida que me experimenta e que experimento; por vezes metodicamente, um trabalho minucioso e artesão, mas nunca frio, nem como uma farsa – não esculpo uma máscara, pois sou tirada das vísceras; dói.

Crio como uma síntese; algumas coisas ou nunca morrem ou se transformam das cinzas.

Fotografia: autoria desconhecida (retirada do Pinterest)