Goiás Velho em poesia e fotografia

goias velho

“Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens.”

[Aninha e suas pedras]

Estive em Goiás Velho duas vezes em um mesmo ano e, como costuma acontecer quando estou em cidades históricas, me senti encantada. O colorido das casas, as ruas sinuosas, o horizonte dos morros, as igrejas, a comida das panelas de barro, os doces caseiros, a aura do antigo e do moderno vibrando juntas…

Na primeira vez, por ocasião do carnaval, eu e Evandro curtimos uma festa tranquila nas ruas de pedra. Na segunda, participamos do FICA, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental que acontece anualmente por lá, para apresentar nosso filme [Aquém Margens] e participar de um debate no Fórum Ambiental do evento.

Nas duas vezes curtimos muito andar pelas ruas dessa cidade e um passeio que valeu muito a pena foi visitar a casa de Cora Coralina, que hoje é um museu. Lá fica fácil ver que a história da escritora e da Cidade de Goiás se confundem. Ela dedicou vários de seus poemas à terra onde nasceu, a qual atribui o resultado de toda sua formação. Aliás, ler Cora Coralina e andar pelas ruas de Goiás Velho é uma experiência impressionante, que nos faz sentir mais íntimos de sua poesia.

Fiz as fotografias da cidade do meu modo habitual, enquanto passeava por ela. Sempre ouvimos histórias, paramos para conversar com pessoas, procuramos sentir a atmosfera local, e isso influencia naquilo que adquire mais importância visual para mim. Mas, ainda assim foram fotografias feitas ao acaso, daquilo que eu ia achando bonito pelo caminho.

Só que depois, lendo Cora Coralina e revendo as imagens, percebi o quanto elas conversavam com muitas de suas poesias e a percepção disso me emocionou. A cidade forjou uma escritora, como ela própria disse. E agora é Goiás Velho quem é forjado por ela, ao se dedicar a contar a história de Cora, homenageá-la e perpetuá-la em sua própria história.

goias velho

“Goiás, minha cidade…
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

goias velho

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.

goias velho

Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.

goias velho

Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.

goias velho

Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.

goias velho

Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.”

[Minha cidade]

***

goias velho

“Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”

[Humildade]

***

goias velho

“Quisera eu ser dona, mandante da verdade inteira e nua,
que nua, consta a sabedoria popular, está ela no fundo de um poço fundo,
e sua irmã mentira foi a que ficou  em cima beradiando.

Quem dera a mim esse poder, desfaçatez, coragem de dizer verdades…
Quem as tem? Só louco varrido que perdeu o controle das conveniências.
Conveniências… palavras assim de convênio, de todos combinados,
força poderosa, recriando a coragem, encabrestando a vontade.
Conveniência… irmã gêmea do preconceito, encangados os dois,
puxando a carroça pesada das meias verdades.
Confissões pela metade…
Quem sou eu para as fazer completas?

Reservas profundas, meus reservatórios secretos, complexos,
fechados, ermos, compromissos íntimos e preconceitos vigentes, arraigados.

Algemas mentais, e tolhida, prisioneira, incapaz de despedaçar a rede
onde se debate o escamado da verdade…
Qual aquele que em juízo são, destemeroso dos medos
para dizer mais do que  as meias dissimuladas, esparsas?

A gente tem medo dos vivos e medo dos mortos.
Medo da gente mesmo.
Nossas covardias retardadas e presentes.
Assim foi, assim será.”

[Confissões partidas]

***

goias velho

“Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.”

[Das pedras]

***

goias velho

“Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam – eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto,
veio outra que ficou sendo a caçula.

[…]

Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“- Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente.”

[…]

Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“- Levanta, moleirona.”

[…]

E a casa me cortava: “ menina inzoneira!”
Companhia indesejável – sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.

A rua… a rua!…
(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
– proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
– emparedavam.

[…]

Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.

Contenção… motivação… Comportamento estreito,
limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim…
Um mundo heroico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.

E a casa alheada, sem pressentir a gestação,
acrimoniosa repisava:
“- Menina inzoneira!”
O sinapismo do ablativo
queimava.

Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar…
E a certeza de estar sempre errando…
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre…
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.

Eu era triste, nervosa e feia.
Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
“- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido!”

Melhor fora não ter nascido…
Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
– ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.

Sem carinho de Mãe.
Sem proteção de Pai…
– melhor fora não ter nascido.

E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.”

[Minha infância]

***

goias velho

“Irmanadas na poesia
Nos encontramos,
Quem vem vindo,
Quem vai indo,
Na roda-viva da vida.
Girando, se esbaldando,
No encalço de uma rima
Fugidia.
Pegar no laço do pensamento
A rima feliz e plantar com amor
Na divisa extrema do verso,
A chamada rima de ouro
Que tem forma de chave de ouro.
E dizer que há poetas consagrados
Que têm delas um chaveiro!
Com os dedos pegamos a luz.
Começou o seu tempo,
Meu tempo se acaba.
O esplendor de uma aurora,
O poente que se apaga.
Fui na vida o que estás agora,
Tu serás o que sou.
Nosso traço de união:
És o passado dos velhos,
Eu, o futuro dos moços.”
[Traço de união]
***

goias velho

“Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes. O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade. Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.  Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser melhor, pois bondade também se aprende. Mesmo quando tudo parece desabar cabe a mim decidir entre rir e chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida que o mais importante é decidir.” [Cora Coralina]

Para quem deseja fotografar

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Eu estou fotografando há um bom tempo e uma das minhas maiores questões em torno disso não tem a ver com técnica, mas com algo que me interessa muito mais: como contar histórias de uma maneira genuína, inspiradora, significativa.

Antes de qualquer coisa, sou ávida por compartilhar histórias. Desde muito nova nutro um desejo profundo em comunicar o que me instiga. Esse desejo me remete à lembrança de viajar na infância, ver o horizonte azulado na estrada e me sentir tão inspirada a ponto de querer transmitir essa sensação de grandeza que se impunha na paisagem. A fotografia é umas das formas que encontro de fazer isso.

Fotografar é fácil. A técnica é perfeitamente apreensível, embora exija estudo e prática. Conhecimento de arte e estética é importante para desenvolver o próprio estilo e conseguir produzir algo original. Na verdade, uma fotografia visualmente impactante é mais fácil de ser feita do que parece e existem muitos truques para conseguir uma. Mas e quanto a obter uma fotografia que não seja vazia de conteúdo?

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Eu não tenho uma resposta pronta, mas tenho várias ideias a respeito. E de todas elas, a principal é que não há boa fotografia sem bom conhecimento daquilo que se fotografa. É possível sentir a distância ou proximidade entre autor e assunto em uma imagem, tornando-a rasa e superficial. Um envolvimento mais profundo com a história de pessoas e lugares é importante para que o olhar chegue mais perto, mais dentro.

Tenho uma forma de lidar com a fotografia que muitas vezes é encarada como absurda. Embora mude conforme o contexto e assunto, não costumo chegar de câmera na mão em todas as situações. Se em alguns momentos é imprescindível estar atenta aos mínimos movimentos, em outros é preciso observar, sentir o local e as pessoas antes de começar a clicar; preciso que elas estejam à vontade com a minha presença – se possível, que elas saibam que estou ali, mas esqueçam de mim.

É que além de ser invasivo adentrar os espaços dos outros com uma máquina apontada em seus rostos, também perdemos um diálogo ou uma escuta que nos permita conhecer suas histórias se já chegamos com nossos olhos bloqueados pela frieza da câmera. Perdemos sua espontaneidade e a confiança de que não estamos ali para torná-los objetos nossos, além da oportunidade de deixar claro que respeitamos sua dignidade e é isso que queremos compartilhar. Observações longas e cuidadosas nos permite descobrir movimentos, motivações, jeitos de ser e de se expressar que enchem nossas fotografias de significados se priorizamos não a câmera, mas as pessoas e suas histórias.

Isso, na verdade, é o que eu levo em consideração quando vou fotografar e é parte da minha intenção com a fotografia: criar narrativas densas. E vai além, porque quando fotografo sinto que estou criando fragmentos de intensidade e beleza, mesmo que minha realidade seja de inquietude e angústia, e penso que isso é típico de quem cria para encontrar humanidade no que faz e uma salvação de si mesma através da própria criatividade.

Você já se perguntou porque deseja fotografar?

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Fotografe se deseja comunicar algo. Nem sempre conseguimos expressar o que sentimos e pensamos facilmente e fotografia é uma boa forma de abstração, de transformar aquilo que simplesmente existe, aparentemente tão puro, concreto e real, em um conceito. Nisso de fotografar, vamos encontrando algumas respostas para o que nos inquieta, que do inconsciente afluem para a luz de nossas mentes. Como num rio, entretanto, a água nunca para de correr e as questões não findam.

Qualquer que seja o motivo que te leve a fotografar, viaje: para conhecer o mundo e a si mesma, mesmo que mundo seja um universo bem próximo do seu quintal. Amplie sua leitura de mundo, porque mentes fechadas são incapazes de ver bem e fotografia é basicamente sobre olhar. A menos que você queira apenas registrar um momento sem mais motivações além disso, manter diálogo inteligente e empático com o mundo é requisito.

Evite modismos. É certo que somos parte do contexto em que a moda é criada e estamos inconscientemente ligadas à sua linguagem, porém, qualquer que seja sua intenção, saiba que fotografias com densidade, profundidade e autenticidade serão sempre aquelas que nos farão olhar mais uma vez. Vale a autocrítica sempre, mesmo sabendo que tudo que for criado no começo será um arremedo do que está sendo feito no momento no mundo, até que a gente encontre um modo próprio de expressão que, como tudo na vida, nunca está totalmente acabado.

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Fotografias da Exposição Badja ku Mar - Alexandra Duarte
*Leia sobre as condições de uso das imagens AQUI.