Cabo Verde ou, carinhosamente, Brasilinho

Acostumada com as dimensões continentais do Brasil, foi surreal avistar, do alto, aquela curva de ilha que o mar parecia querer engolir. A silhueta de terra e o mar gigante… Pousamos em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, recebidas com a aridez de montanhas nuas a perder de vista, o céu nublado sem chuva e o vento agradável às 6 horas da manhã. Saímos de táxi e a paisagem permaneceu a mesma durante um bom tempo. O asfalto muito preto, as linhas da pista muito brancas e as montanhas nuas e acinzentadas como se dissessem que tinham nascido de um esporro de vulcão.

Depois de viajar pela aridez da estrada, a cidade apareceu: Praia, amarela, com seus prédios baixos, quadrados, quase sempre amarelos como os táxis, mas algumas vezes de concreto cinza. O mercado de Sucupira, com o prato de comida de 200 escudos e uma garrafa de cerveja portuguesa, foi o primeiro destino. Quando perguntamos por almoço no mercado, nos mandaram procurar pela cozinha entre as barraquinhas debaixo do sol.

A “cozinha” é um conjunto de cubículos, com duas mesas no máximo cada um, em que se servem pratos prontos muito parecidos com a comida brasileira: arroz misturado com feijão, “bife” de atum, carne de vaca ou galinha, batata frita e salada. Ouvimos dizer que o arroz consumido lá vai da China e embora tenha o gosto parecido com o nosso e seja solto, é de uma consistência mais liguenta. O bife de atum é especial e a palavra-chave para receber um tempero extra é sabor.

No mercado há muitos senegaleses vendendo seus tecidos e confeccionando roupas sob medida – vestidos e saias com cortes simples, na maioria das vezes. Gastamos horas em barracas de roupas tradicionais, maravilhadas com o que mais há em Sucupira em todas as cores, estilos e texturas: desde a simplicidade das chitas em lindas estampas até a impressionante elegância do batik. Mas descobrimos muita mercadoria brasileira também: fileiras e mais fileiras de chinelos Havaianas, sapatos e roupas – muita malha e jeans – que as sacoleiras caboverdianas vão comprar nas feiras e fábricas do Nordeste.

A noite em Praia é muito agradável. A cidade tem restaurantes e bares bem charmosos. Um deles é o Quintal da Música, um lugar especial com excelente comida e música ao vivo. No repertório da noite em que fomos lá tinha música brasileira, mas gostoso mesmo é ouvir a sonoridade do criolo, língua que na prática é a oficial do país. Falando em música, vale a pena conhecer o som produzido em Cabo Verde. As mulheres arrasam com a batuqueira. Elas demonstram força e beleza incrível quando tocam, cantam e dançam. Deve estar certo o espanhol, dono de um restaurante onde almoçamos, que disse que “em Cabo Verde todo mundo é músico“.

Saímos de Praia, no sul da Ilha de Santiago, e fomos para Rabelados, uma comunidade camponesa tradicional e religiosa, situada no município de Espinho Branco, norte da ilha. Levamos poucas horas para chegar lá e no caminho de ida fomos parando para conhecer alguns lugares. Estivemos na casa de Amílcar Cabral, ícone intelectual, político e dirigente da luta armada pela libertação de Cabo Verde e Guiné-Bissau da colonização portuguesa e visitamos o antigo campo de concentração do Tarrafal, onde vários guerrilheiros que lutavam pela independência foram presos e torturados.

A grandiosidade do Baobá no terreno da casa de Amílcar Cabral

Praia de Tarrafal

Rabelados

Os rabelados têm uma história muito interessante. Eles foram discriminados por tentar manter suas tradicionais culturais e religiosas, ainda no período em que o país era colônia de Portugal, e por isso se refugiaram em uma região de montanhas. Com isso, perpetuaram suas tradições, acabaram por adquirir um espírito de resistência e mantiveram sua essência, em boa parte por conta da arte que produzem. A experiência na comunidade foi propiciada pelo encontro da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS). Quando chegamos, fomos recebidos pelas pessoas com a comida símbolo de Cabo Verde, a cachupa. Sinal de que fomos realmente acolhidos.

Cidade Velha

Além de Praia e Rabelados, fomos na Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, fundada em 1462 e primeira cidade construída pelos portugueses nos trópicos. Algumas construções estão toda ou parcialmente debaixo da terra, há muitas ruínas e algumas escavações arqueológicas podem ser vistas no entorno da cidade. Tudo é tão pequeno – a praça, as ruas, as casas – que dá para fazer um tour bem legal em uma manhã. Mas como cidade não é só ponto turístico, é bom ficar pra andar pelos espaços fora do eixo, conhecer algumas pessoas e comer a comida local, como a cachupa, búzios guizados, lagosta ou filé de atum fresquinho.

A sensação de andar pela Cidade Velha é de andar pelo Brasil antigo… mas como eu saberia disso? Acho que é a impressão do imaginário do passado colonial criado pela história e pela literatura. Andando pelas ruas, eu me sentia como nas descrições que Aluísio Azevedo fez em O cortiço ou em Casa de Pensão.  Uma senhora que conhecemos em Praia nos disse que lá as pessoas costumam gostar muito do Brasil e é corrente a expressão de que Cabo Verde é um Brasilinho.  Acontece que tudo o que os portugueses fizeram aqui foi feito primeiro lá; Salvador, na Bahia, é como uma grande Cidade Velha. Cabo Verde era a parada das embarcações que saiam da Europa, passavam pela África e partiam para a América.

Cabo Verde me marcou profundamente. As pessoas de lá, que parecem ter no espírito a expressão da natureza que as rodeia, são simpáticas e bonitas ao mesmo tempo em que são fortes e orgulhosas, além de terem aquele sotaque que parece música. Nos dias em que estive lá,  fui interiorizando a paisagem cortante, o mar de azul muito escuro, as montanhas negras e áridas e os vales verdes e úmidos, uma natureza tão diversa e ao mesmo tempo tão resistente e bela. E mais uma vez, mais uma viagem me transformou.
 

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

…e algumas considerações sobre ler mulheres

Fui em uma livraria com a intenção de procurar autoras brasileiras contemporâneas. Primeiro porque eu andava lendo muita literatura clássica, minha cabeça estava entre o século XVIII e o XIX, completamente ignorante do tipo de escrita produzida agora. Depois porque eu comecei a me incomodar com uma ideia reproduzida por aí afora de que mulher escreve e publica pouco porque é mais acanhada que o homem, como se isso fosse uma característica que nascesse com a gente. Uma ótima desculpa para esconder o privilégio dos homens e a desigualdade entre gêneros decorrente disso. Eles quase sempre têm mais visibilidade e, principalmente, legitimidade ao falar e escrever. É como se o homem falasse algo universal, de interesse para a humanidade, e a mulher ficasse restrita a assuntos que interessam apenas ao próprio gênero.

Em As mulheres ou os silêncios da história, a historiadora francesa Michelle Perrot escreveu sobre como a mulher ocidental, pelo menos até o início do século XX, teve o espaço público e tudo o que o envolve negado: a rua, a cidade, a política e, consequentemente, a expressão pública da fala, da escrita, das decisões políticas e de tudo que não ficasse restrito ao lar. Incentivadas à discrição e, quando não, obrigadas à reclusão no âmbito privado, algumas mulheres, geralmente de classes privilegiadas, escreveram suas histórias em diários e cartas, interrompendo um pouco do silêncio a elas destinado, deixando um rastro de memória a partir da escrita íntima.

Foi acompanhando o debate em torno da visibilidade da literatura produzida por mulheres que eu me voltei para algo que sempre me incomodou um pouco, mas que nunca havia questionado muito profundamente – e também nunca havia feito nada a respeito. Mulheres escrevem, mas a gente não ouve falar tanto nelas quanto ouve falar dos homens. Dentre os livros considerados clássicos, quantos foram escritos por mulheres? Em uma dessas listas de internet, de cem apenas cinco. São eles que aparecem, que têm mais visibilidade, é sobre eles que a gente ouve falar. E, penso eu, é isso que faz com que a maior parte da nossa leitura continue sendo aquela escrita por homens, em detrimento da produção das mulheres.

Então eu fui numa enorme livraria com uma convicção simples: comprar uma obra escrita por uma autora brasileira contemporânea. Me senti meio mal por não conhecer o nome da maioria das escritoras mais jovens e fiquei triste por não encontrar as que leio na internet naquela livraria. Viajei sentada no chão dos corredores procurando nomes de mulher. Infelizmente eram poucas e ainda assim eu não conhecia quase nenhuma. Mas me senti inspirada por um título numa capa verde água…

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

Tem algo de existencial nele, uma linguagem fluida e uma narrativa que parece alguém falando com a gente. O estilo de escrita é meio ofegante, com duas vozes se misturando numa mesma frase, como quando alguém conta um caso. Isso torna a leitura veloz, mas ao mesmo tempo gostosa.

O narrador é um escritor que quer falar de Nina, alguém que está ausente na vida dele e com quem ele teve um caso rápido quando ambos ainda estavam na faculdade, onde se conheceram. Mas ela vai embora de repente, sem dar explicações, e deixa com ele uma caixa com 17 diários.

Descrevendo os acontecimentos o narrador também parece escrever um diário; devaneios sobre a própria escrita, algumas lembranças e histórias paralelas, enquanto tenta elaborar uma ficção na qual Nina e ele são personagens. A obra é sobre o ato de criação na escrita; a vida do narrador e a ficção criada por ele se confundem.

O livro me prendeu, a leitura é viciante. Só não li as 122 páginas mais rápido porque parava em várias passagens, me reconhecia nelas e viajava nas sensações provocadas pela narrativa. É o tipo de história que me extasia, a que explora os sentimentos dos personagens. Não há a concretude de uma cidade, um local bem estabelecido sendo descrito e vivenciado. O universo é o interior dos personagens e suas emoções duras e reais, o amor e o desamor, a presença, a ausência e as fugas nas relações, é sobre o medo e o ódio, as mortes em vida e a memória.

A cada bocado de livro eu parava para pensar e escrever e se escrevo muito enquanto leio uma obra, é porque ela tem sido inspiradora de alguma forma, tem mexido com coisas dentro de mim, meus padrões, minhas ideias e emoções. A história de O inventário das coisas ausentes vai e volta, é repetitiva, como um martelo fincando um prego, materializando os sentimentos narrados, como um prego entrando na gente.

“Você quase nunca me beija, ela reclama. É claro que eu te beijo, que ideia, pronto, acabo de te beijar. Nina esboça um sorriso, mas o seu olhar é tenso e melancólico. Eu a puxo para mais perto de mim. Queria te beijar mais vezes, eu penso, mas esqueço, quando vou ver o dia passou e a noite passou e eu esqueço, queria te beijar mais vezes, mas esqueço, eu quero dizer, mas ela não entenderia. Ficamos os dois em silêncio, eu observo a infiltração do teto, a infiltração adquire novos relevos a cada chuva, o mofo ameaça se instalar. Porque você não manda dar um jeito nisso logo de uma vez, pergunta Nina, como se ouvisse meus pensamentos, eu esqueço, respondo. Quer que eu chame alguém, ela pergunta, aquilo me causa um incômodo instantâneo e irracional, não, não precisa, deixa que eu mesmo cuido das minhas coisas, digo imediatamente, sem conseguir disfarçar a agressividade na voz. Nina se afasta, responde, por que você faz isso?, isso o quê? eu pergunto, pensando que ela se refere à infiltração, mas ela diz, você quase não me beija, você quase não quer sair de casa, você quase não fala comigo direito, e quando fala é com tanta impaciência, esse desamor. Para que você me quer aqui?, talvez seja melhor eu ir embora. Nina me encara triste, derrotada. Eu a abraço com força, eu penso, não vai, Nina, não vai, fica, eu penso, mas não digo nada, e novamente eu esqueço, e passam-se mais dias e mais noites.”                                                                                       

***

Chapada dos Veadeiros: entre ETs e entre tantos

Precisávamos de um lugar para passar férias e alguns amigos já tinham nos contado de lá umas histórias boas. Depois de algumas semanas pesquisando tudo, pegamos avião, carro e fomos até o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros/GO. Os relatos de viajantes falavam de um lugar mágico e místico, que emanava energia de pureza tranquilizante. De fato, a Chapada dos Veadeiros é um paraíso não tão escondido, mas inacreditável. Entre ETs e entre muitos malucos que vagam por lá no período de julho, chegamos.

Bom, quanto aos ETs – com os quais eu vivo sonhando, diga-se de passagem – não posso lamentar que o contato tenha se limitado aos vários bonecos espalhados pela cidade de Alto Paraíso e pela Vila de São Jorge, entrada para o Parque e local do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, que ocorre em julho – à propósito, esse foi um dos motivos de nossa viagem ter sido nessa época. Embora a cidade nos receba com uma nave espacial no arco de entrada e uma parte do turismo se deva à tentativa de contatos extraterrestres, nós não tivemos a felicidade de topar com turistas intergaláticos.

Jardim de Maytrea

A vantagem de estar em São Jorge em julho é participar do Encontro, que reúne culturas de vários estados do país e de algumas partes do mundo. É uma experiência gratificante e memorável. Durante o dia e à noite, rolam as oficinas, como as de maracatu, e no palco, o centro convergente do evento, os shows de música e dança, que variam de atrações folclóricas a músicos famosos. As ruas lotam de pessoas e a Vila se enche de barraquinhas de artesanato, comidas e músicos que tocam ao ar livre, em restaurantes ou em bares com fogueira e luar.

Encontro de Culturas

Nossos dias consistiam em acordar cedo, tomar um bom café e partir para as trilhas, que incluíam longos trajetos de carro e a pé, subidas de morro, banhos em poços de água gelada, mirantes para ver o horizonte e sentir a emoção de estar viva – que andava vacilante -, encontros com rios de saltos espetaculares e travessias cabalísticas – não é sempre que se atravessa o mesmo rio sete vezes para chegar a um local misterioso de vento frio e úmido que parece cantar, cercado por paredões altos, com aparência de cenário de filme em que a qualquer momento seres místicos da floresta surgem de dentro da água e por entre a vegetação.

Vale da Lua  

Cachoeira e Poço do Segredo Salto do Rio Preto e Cachoeira do Garimpão 

À noite a Vila proporciona a experiência  do encontro de culturas com gente de mundos diferentes, que de certa forma se reúne com um sentimento de humanidade e de respeito pela ancestralidade em comum, mas que também se diverte e procura a paz tão rara num encontro consigo mesmo entre tantos… O exercício da alteridade: cantos dos hinduístas pelas ruas, algumas orações cristãs, a religiosidade afro expressa na vestimenta do rapaz da barraquinha de acarajé, a música que é jazz, reggae, eletrônica, nordestina instrumental, o cinema  que é aberto e a exposição visual nas paredes da casa do artista plástico local, desafiando qualquer noção ou perspectiva de normalidade, tudo confluindo para o espaço público da Vila, que se parece com uma grande praça.

Paredes da casa do Moacir, artista local

Estar na Chapada dos Veadeiros é uma experiência que, ao nos fazer entrar em contato com a natureza ao redor, nos remete ao nosso próprio interior, nosso espírito, nossa natureza, ao funcionamento do nosso corpo e às nossas emoções. Em alguns momentos estar lá foi tenso e é impossível negar que a viagem desencadeou uma série de mudanças no meu comportamento. Em parte, o potencial perigo de algumas trilhas, o olho sempre voltado para o abismo ou para a profundeza de lagos escuros, tapeando uma mente que estava se acostumando a sentir só medo. Por outro lado, o choque das energias puras da natureza com as energias perturbadas de descrença e ansiedade.

A velha história da (re)descoberta de si mesma que viagens costumam proporcionar e que, embora nem sempre sejam longas, compensam por serem intensas. Mas nada da alegria efusiva que costumam alardear; redescoberta pode ser algo muito mais sutil, lento e doloroso e que pode ser sentido muito depois do fim da viagem. Foi lá que despertei para medos e sentimentos que ignorava e isso costuma doer. No entanto, não consigo lembrar da Chapada sem sentir felicidade, porque um encontro feliz é mais sincero que superficialmente alegre e empolgado e por isso a saudade e vontade que sinto de voltar, agora com outro espírito e visões, para atravessar cabalisticamente sete vezes um rio que não é mais o mesmo, sendo eu não mais a mesma…

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

Frida: a (re)criação de si mesma na arte

Frida é um mito: as sobrancelhas unidas, o exotismo, a rebeldia e certa paleta de cores são símbolos capazes de identificar a obra, criada por ela sobre si mesma, em boa parte do mundo. No entanto, ninguém disse mais sobre seu país de origem ao falar de si em autobiografias pintadas. O surrealismo próprio, mas também mexicano, um estilo vindo de dentro de Frida, da vida que é fruto de experiências em sua terra natal ao longo do tempo, por entre e além das tragédias, foi proclamada pelos surrealistas europeus, ainda que ela própria não acreditasse muito nem no surrealismo nem em si mesma.

frida kahlo fotografia

A história, como todo mito, é cheia de coisas inacreditáveis. Frida sobreviveu como que por milagre a um terrível acidente de ônibus que sofreu aos 18 anos e que a manteve confinada na cama, com a coluna envolta em um colete de gesso, por vários meses – e por longos períodos, com intervalos, durante toda a sua não muito longa existência. Foi graças ao pai, Guillermo Kahlo, um fotógrafo alemão que também pintava telas, que ela começou a pintar para valer: logo depois do acidente ele deu à filha inválida um cavalete adaptado para a cama e todo o material necessário para a pintura. Antes, ainda na infância, ela contraiu poliomielite, que a deixou com a perna direita pouco desenvolvida, a mesma que seria amputada nos seus últimos meses de vida, e que também a tinha deixado muito tempo presa à cama. Nesse período ela tinha uma amiga imaginária e a imaginação era essencial para que ela pudesse se sentir mais viva: a doença, a dor e a tragédia viraram parte dela, ela se acostumou a isso e seus quadros traduzem todas as dores que sua gargalhada sonora, seu riso sarcástico e seu ar sedutor e inteligente escondiam.

A coluna partida, 1944

Como qualquer artista sofre influências de quem admira, Frida foi bastante influenciada por Diego Rivera, com quem viveu por 25 anos, entre um divórcio e um segundo casamento. Apesar das brigas – certa vez ela disse que duas tragédias tinham acontecido na vida dela, a pior era ele -, Frida e Diego se amaram intensamente e de um jeito pouco convencional. Ele era muralista e comunista convicto, julgava que as pinturas em quadro eram o tipo de arte burguesa em decadência, que fica confinada à propriedade privada, enquanto os murais podem ser vistos e apreciados por toda a classe trabalhadora, desprovida de condições financeiras para comprar obras de arte. Ele pintava paredes contando histórias que exaltavam o povo mexicano e os operários da fábrica, obras que falavam da revolução social e tinham como heróis, além dos trabalhadores, Karl Marx, Vladimir Lênin, Josef Stálin e Leon Trótski. Em suma, para Diego os murais são arte para o povo, pertencentes a ele.

Casamento de Frida Kahlo e Diego Rivera

Entretanto, Frida pintou telas a vida toda, que nos primeiros anos de pintura costumavam ser bem pequenas. Elas eram detalhadas, com pinceladas sutis e precisas, bem diferentes das pinceladas generosas e grandiosas de Rivera. O que havia de mais interessante entre Frida e Diego é que os dois eram completamente apaixonados pela arte um do outro; eles se admiravam, orgulhavam-se, interessavam-se imensamente pelo crescimento artístico do outro. Ele dizia que jamais seria capaz de pintar como Frida e que não havia nenhum pintor ou pintora à sua altura na contemporaneidade. Quando Rivera conheceu Frida, ele já era bastante famoso mundialmente, ainda assim sentiu-se maravilhado pelas primeiras pinturas dela e por isso sempre a incentivou a seguir seu estilo original e continuar pintando seus próprios sentimentos, ao invés de tentar imitar alguém ou um movimento. No entanto, isso não foi difícil para ela. Embora ao longo de sua vida, em especial nos últimos anos, Frida tenha se queixado de não conseguir pintar algo que tivesse uma função social clara, que proporcionasse uma transformação social pela arte, o fato é que foi justamente o contrário – retratar a própria realidade – que a tornou uma grande artista; ela identificou o sofrimento do México com suas próprias dores. E fez isso de maneira genial.

Quatro habitantes da Cidade do México, 1938

Ela era do Partido Comunista e ao contrário do que pode parecer, não foi Rivera quem a levou, Frida já havia se filiado antes de conhecê-lo. Mas sua atitude em relação à política era bastante singular. Ela tinha sonhos para o povo mexicano, odiava vê-los sofrer, se dava muito melhor conversando com pessoas simples em mercados e feiras do que conversando com intelectuais e artistas, que ela julgava afetados e prepotentes demais, especialmente os estrangeiros. Os Estados Unidos ela chamava de Gringolândia e detestava o que para os ianques é o centro da vida: a ambição. Ela dizia que não tinha pretensão de ser bem-sucedida, “ser alguém”, como os gringos diziam: ser a “gran caca” não a interessava. Ela jamais teve pretensão de ser uma grande artista e embora quisesse viver de sua arte desde que pintou seus primeiros quadros, Frida não fez nenhum esforço para torná-los vendáveis: ela realmente não conseguia pintar o que não fosse seu sentimento mais profundo e era modesta demais para acreditar que o que pintava tivesse algum valor.

frida kahlo
Autorretrato na fronteira entre o México e os Estados Unidos, 1932

O tipo de sentimento pouco alinhado com qualquer doutrina que seja, mesmo a do partido, e a ideia de que todas as coisas e seres estão inevitavelmente interligados, tal como pregava o antigo povo asteca, ancestral dos mexicanos, era o que a tornava comunista. Provavelmente ela sentia isso de forma muito mais intensa e genuína que muitos integrantes do partido, inclusive Rivera, que era fascinado pelos Estados Unidos tanto quanto reclamava do México. Embora nos últimos anos de vida ela tivesse tentado seriamente pintar algo que seguisse a linha do partido – e escreveu em seu diário: “Pela primeira vez na minha vida, a minha pintura tenta ajudar a linha traçada pelo meu partido: REALISMO REVOLUCIONÁRIO” -, Frida continuou pintando sobretudo a si mesma e seus próprios sentimentos, tanto em autorretratos quanto em naturezas-mortas, ainda que permeados de suas ideologias partidárias e suas crenças, que iam desde a revolução comunista à visão holística do mundo.

frida kahlo
O marxismo trará saúde aos doentes, 1954

Frida conseguia expressar o que ia em seu interior em incríveis pinturas surrealistas, apesar de não seguirem o movimento do início do século XX. O surrealismo, enquanto movimento, era uma válvula de escape para os desiludidos do Velho Mundo, sobretudo artistas e intelectuais que tentavam escapar da lógica do mundo moderno por meio da busca do que ia dentro do subconsciente de cada um; era uma tentativa de superar a realidade. Frida fantasiava, mas isso era fruto de sua própria vida e do lugar em que vivia, dos momentos de solidão que passou na cama, de seu temperamento e do que absorveu da cultura mexicana, repleta de ídolos pré-colombianos, combinados com rituais cristãos à moda mexicana. Pintar, para ela, era um jeito de encontrar um equilíbrio entre seu interior, tão vivo, com o mundo; era uma forma de se conectar à realidade. Isso a tornava admirável, mais do que aos próprios mexicanos, aos olhos dos europeus, incluindo Salvador Dalí e Pablo Picasso, importantes expoentes do movimento surrealista na Europa.

frida kahlo
O que a água me deu, 1938

Além de se representar na pintura, ela escreveu muitos diários, em que conta histórias por vezes tão exageradas e fantasiosas como seus quadros, mas nos quais ela expôs genuinamente suas dores. Na frente das pessoas Frida representava muita alegria e vigor, como se não se importasse nem um pouco com as dores e limitações físicas e todas as cirurgias e fusões de vértebras que tinha que fazer. Fingia não se incomodar com as traições de Diego, ficava amiga das amantes dele e fazia piadas disso. Seus quadros, entretanto, assim como as cartas a Diego e suas tentativas de suicídio nos últimos anos de vida, revelam a tristeza profunda em que ela vivia. Quando teve que amputar a perna, ela fez no diário um desenho dos pés em um pedestal e escreveu “Piés, para qué los quiero, se tengo alas pa’volar”. Para os amigos ela dizia, tirando sarro, que era a Frida pata de palo – Frida perna de pau -; era assim que seus amigos a chamavam na infância por conta da perna mais fina acometida pela poliomielite.

frida kahlo diario
Uma das últimas páginas do diário de Frida, fazendo alusão à amputação de sua perna

Havia dois motivos para Frida fazer piada com a própria vida e demonstrar apenas alegria aos outros: por um lado, era uma questão de dignidade pessoal esconder suas dores – mesmo tornando-as tão claras em suas telas e talvez por isso elas sejam tão pujantes -, por outro lado, Frida realmente queria ter vida, ainda que tivesse desejado a morte tantas vezes. Esse sentimento dual era próprio da crença da natureza dialética: assim a morte é representação da vida, como a vida é da morte. Tudo está ligado. Ela desejou muito ter filhos, mas nunca conseguiu e sofreu diversos abortos, sua coluna quebrada não conseguia segurar o feto. Ter filhos é uma forma de permanecer vivo, ela sabia bem disso e é provável que essa impossibilidade a tenha feito se reproduzir tanto em sua obra. Ao olhar suas telas por um tempo, sentimos como se ela estivesse aqui. Ela está viva em sua obra e permanecerá.

***

O dia vinte

A metade do primeiro mês do ano sempre traz decepção. Esperei dezembro inteiro pelo ano novo e os últimos meses do anterior, embora tenham corrido cansados, traziam um leve frescor de novidades – novidades raramente parecem ruins. No entanto, janeiro é o mês mais chato. Os gastos com as compras feitas há poucas semanas atrás já liberaram todos os hormônios do prazer que podiam e  o primeiro mês é um mês de contenção ou de endividamento para a maioria.

Mas muito mais que qualquer coisa relacionada a dinheiro, não há nada de fresco em janeiro, apenas uma lufada quente daquele cansaço que parecia que iria acabar depois do pequeno recesso das festas. É um cansaço silencioso, sem o frenesi dos jingles de natal, quase sem esperança. É como acordar de um sonho tão bom e passar o dia inteiro de mau humor, porque, afinal, era só um sonho.

É sempre uma decepção voltar à realidade depois das fantasias do natal e do réveillon. Mas, é ainda pior chegar no dia vinte, quando o trabalho já se acumulou na mesa que há tão pouco tempo tinha sido limpa e renovada com objetos novos, e me dar conta de que estou tão perdida novamente. O tempo passou tão rápido e tão cheio, que deu o dia trinta e um de dezembro e eu esqueci de fazer a lista de resoluções, eu que sempre fiz lista de resoluções de ano novo!

A mudança de corte de cabelo, a monografia, a retomada dos estudos de fotografia, o próprio ato de fotografar, tão negligenciado em meio ao trabalho, estudo e outros compromissos, as listas de livros lidos que parecem diminuir a cada ano, a promessa de assistir mais filmes e quem sabe de ver séries novas ou acompanhar as antigas, voltar a pedalar, parar de perder tanto tempo atualizando as timelines…desativar temporariamente as contas em redes sociais: ficar por fora, para ver se consigo ficar mais por dentro.

“Fica pro ano que vem” agora é uma realidade distante  e nada agradável. O que tem para se resolver, tem de ser resolvido agora. Bate um desespero…o final de semana podia me ajudar a organizar uma agenda e arrumar a mesa de estudos em casa e eu espero ansiosamente por ele, mas o final de semana é uma falácia. Nessas horas me pergunto qual o sentido da vida ou se deveria chutar o balde. Mas ter que limpar a bagunça depois de chutá-lo não parece promissor.

Eu chutaria o balde acreditando tanto na vida como quando acreditei na passagem de um ano para o outro. Expectativas e esperanças que parecem indestrutíveis até a realidade do primeiro dia útil bater à porta e começar a destruir lentamente qualquer sentimento de euforia. Não que eu não acredite na vida e não que eu não tenha sonhos. Mas me falta quem me pague a passagem e me sustente na Irlanda enquanto sigo em viagem “para me descobrir”.

Eu tenho que me descobrir aqui mesmo, desde a cadeira giratória do trabalho, escrevendo em uma pausa que eu mesma me concedo, enquanto a sala desaba em protocolos e emissões de certificados. É aqui mesmo que tenho que me encontrar, arquivando processos e analisando documentos. Não porque eu queira estar aqui, desconfio até que nunca estou aqui de fato. Faço meu trabalho por pura vergonha na cara, mas estou sempre com a cabeça em outras histórias.

O mundo, aliás, está cheio delas: principalmente histórias de pessoas que jogaram tudo pro alto e foram seguir seus sonhos. Como recompensa para tão corajoso ato, tudo aconteceu, todas as coisas boas, maravilhosas e inesperadas, todo o sucesso e dinheiro do mundo surgiram do nada, trazidos pela Vida, que bateu à porta vestida de amarelo e com sorriso largo como num comercial de pasta de dentes, pois ela é justa com aqueles que abandonam a mediocridade de precisar trabalhar e que têm dinheiro no banco para fazer a viagem de descoberta.

De repente, surge uma bela casa e um lindo escritório, porque gente de sucesso, vestida de pijamas, caneca de café em punho e chinelos, trabalha mais do que qualquer um, mas trabalha em casa. Muitas viagens de avião, palestras motivacionais e best-sellers contando como consegui ficar rico seguindo meus sonhos escondem a dura realidade das coisas e da gente que precisa trabalhar oito, nove, dez horas por dia, fora e longe de casa, que quando chega ao lar cansada ainda tem os trabalhos domésticos, e quando finalmente deita na cama não esquece que tem em si todos os sonhos do mundo. O quarto, no entanto, é um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é.

A minha sorte é que escrevo e descrevo as ilusões da vida, as minhas, pelo menos. E ironicamente, elas me alimentam de sonhos desiludidos, talvez amadurecidos, salvos do desejo que corrompe a razão, mas que não deixam de ser sonhos que me impelem a continuar, pois eu também tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu, que menosprezo minhas qualidades quase sempre, tenho que seguir acreditando um bocado em mim, para não desabar no dia vinte de janeiro, fechada em uma sala de onde se enxerga o topo de um coqueiro, num dia nublado e sem saída.

Ou sem saída que exija chutar baldes, porque eu já chutei tantos baldes que nunca deram onde eu queria, mas que deram em algum lugar. E nesses lugares algumas coisas foram boas, outras ruins e umas tantas ruins e boas ao mesmo tempo. De tudo isso não tirei um best-seller nem um guia de vida de sucesso, mas uma vida real e talvez uma mente com alguma perspicácia para ser capaz de observar que para tudo existe um outro lado e que se sabe humana demais pra esperar por finais impecáveis, mesmo de um texto. Por isso agora, aqui do dia vinte de janeiro, depois de viver dramas e conhecer infernos por pura ansiedade por resoluções, meu desespero não resolve nada e é plácido. Levemente melancólico, levemente ácido.

Fotografia: txr53 em Lomography