As três Marias – Raquel de Queiroz

Ilustração: Lidiane Dutra

Raquel de Queiroz não fez uma escolha aleatória quando deu o título As Três Marias ao livro em que trata das limitadas possibilidades de existência da mulher, mesmo a privilegiada, na sociedade do início do século XX. Maria é um nome comumente associado a uma vida de restrições relacionadas ao gênero e à posição social, e a despeito desta condição não ser natural, mas determinada pelo meio em que se vive, por vezes a Vida Maria é de tal forma imposta que não é difícil associá-la com a predestinação: um destino escrito nas estrelas.

Maria Augusta (Guta), a protagonista, cresce no interior do Ceará, num internato de freiras, junto com Maria da Glória e Maria José. Sua narrativa permeia memórias da infância no mundo limitado do colégio, quando ela e as amigas sonham com os prazeres da cidade e cometem pequenas transgressões:  fazem amizade com as órfãs pobres do colégio, que aprendiam um ofício ao invés de receber a educação sofisticada das internas, uma restrição baseada na desigualdade de classes sociais e percebida pela protagonista sensível, leem livros proibidos e escrevem jornais satíricos – sendo a leitura e a escrita formas de autoexpressão e empoderamento.

Guta sai dos limites da escola e se desvencilha das raízes da casa paterna desejando experimentar o mundo, horrorizada com a monotonia da vida doméstica junto da família tanto quanto com a reclusão do colégio; ela quer ser livre e quer viver uma vida complexa. Por isso parte em busca de um encontro consigo no mundo, esse maravilhoso e dolorido processo de individuação, e como qualquer uma de nós, dá de cara com outras prisões: as relações românticas idealizadas como salvadoras ou transformadoras, a rotina massacrante e o trabalho monótono.

Tinha eu dezoito anos quando comecei a trabalhar, e seis meses depois já sentia medo de ficar velha sem saber o que era o mundo. (…) Andar. Viver. Viver uma vida complexa, onde as criaturas realmente existem, amam, sofrem, morrem, não sabem o que é passar a vida sentadas a uma máquina escrevendo fichas, batendo relatórios que os outros escreveram, coisas vis e sem humanidade, palavras que não têm existência real e não têm conteúdo, que não designam nada, senão as relações absurdas de gente que é apenas uma fórmula ou um título.

Conforme a narrativa vai entrando nos domínios de sua jovem vida adulta, a ingenuidade nostálgica e melancólica da protagonista vai se desconstruindo, amadurecendo-a. As histórias de mulheres com quem Guta se relaciona vem à tona e seus destinos são esmiuçados em descrições breves, porém marcantes, como se num ritual de reconhecimento de outras vivências, escolhidas conscientemente ou impostas, ela pudesse compreender seu próprio caminho no mundo.

Foi por conta desse livro, lido pela primeira vez quando eu tinha apenas doze anos, que me dei conta do meu gosto por narrativas que se preocupam menos com o desenrolar dos fatos e mais com a evolução psicológica das personagens. Guta amadurece, observa a vida com a distância de quem volta os olhos para o passado e desenvolve resistência às adversidades do mundo.

Se a vida livre, destino comum de um homem, ainda hoje encontra relutância quando se trata do desejo de uma mulher, na época em que o livro foi publicado, 1939, tal expressão era uma verdadeiro afronta. Confinamento, fuga, aceitação e subversão da condição feminina são tanto temas quanto parte do universo real em que essa obra foi criada.

O mundo: grande era minha sede. Não de prazeres, ou melhor, não só de prazeres. Minha alma era como a daquele soldado da história de Pedro Malasarte que abandona tudo, sai de mochila às costas, sofre fome, perseguições, anda cheio de poeira e cansaço por cidades estranhas (…). Ele, porém, escravo do desejo de “ver”, de “conhecer”, afronta tudo. (…) Eu me sentia igual a ele, éramos irmãos nós dois, o soldado e eu, sendo eu a irmã que ficara, que o não pudera acompanhar, e lhe estendia os braços e chorava.

Suas melhores amigas e cúmplices, Maria da Glória e Maria José, seguem por caminhos diferentes, suas estrelas ditam outras histórias. A Glória, triunfante, a estrela mais brilhante do céu e sempre privilegiada, sem grandes imaginações para desejos difíceis, aceita a sorte que lhe cabe de bom grado e prefere seguir naturalmente o papel exigido pela sociedade para a mulher: o casamento.

A José, estrela trêmula e modesta, de trajetória familiar sofrida e que leva no nome a identidade masculina e feminina, vive a repressão de uma sexualidade incompreendida, rejeitando aquilo que é visto como aberração pelo mundo e que lhe foi ensinado nos anos de reclusão escolar: segue uma vida beata.

Maria Augusta, inquieta, quando insiste pela liberdade de viver longe de suas raízes e construir uma história própria, descobre com angústia o quanto é difícil ver-se livre da vida comum; observa e sofre com o mundo, angustia-se, não aceita as correntes que a aprisionam. É a estrela ardente e molhada, que escolhendo o caminho mais difícil, oposto à tradição, recebeu como recompensa o destino da mulher livre: a solidão.

Cinzas

Eles se acumularam na parte de cima do meu armário desde os seis ou sete anos e pesavam em mim. Com dezesseis, resolvi queimá-los, todos os diários que tinha tido até então, numa fogueira malfadada pela terra molhada, trêmula, não de frio, mas de emoção.

Era o meu desejo de me reinventar impedido pela existência de um passado escrito. Senti que podia recomeçar depois daquela fogueira, limpa, uma folha em branco, um caderno novo, emoções novas, um outro eu.

Constantemente sinto vontade de trocar de pele, mudar tudo. Não tento ser outra pessoa, trocar de pele é tentar todos os meios de ir de encontro à minha essência verdadeira, ser tão eu que me baste. Finda. Pois sinto que estou inteira, aqui, em algum lugar dentro de mim, um lugar distante dentro de mim.

Pronuncio meu nome em voz alta, me chamo e sei que sou, ainda que não saiba o quê; existo. Existo um pouco no meu cabelo e nos meus olhos e eles mudam. Existi num sorriso que já mudou, nas roupas que já foram. Mas a palavra, depois de escrita, é sempre presente, mesmo que não diga de mim mais nada.

Guardo todos os diários seguintes. Releio, às vezes. Não sinto mais que preciso destruí-los para poder recomeçar, pelo contrário. É como um quebra-cabeças, um jogo de memória, uma linha que vai ascendendo, fazendo sentido.

Por vezes me esqueço, esqueço de sonhos, e quando volto, quando voltam os sonhos, é como se fosse a primeira vez. Então me surpreendo, lendo; o que escrevo agora, já tinha escrito de outra maneira, porque já tinha pensado, já tinha sido tudo aquilo. Me dou conta de que me repito, mas às vezes também encontro escrito o que já deixou de existir.

É verdade que me crio e me invento; me invento pelo que sou e me forjo com o que inventei, por vezes livre e sem pensar, pela vida que me experimenta e que experimento; por vezes metodicamente, um trabalho minucioso e artesão, mas nunca frio, nem como uma farsa – não esculpo uma máscara, pois sou tirada das vísceras; dói.

Crio como uma síntese; algumas coisas ou nunca morrem ou se transformam das cinzas.

Fotografia: autoria desconhecida (retirada do Pinterest)

Uma breve história do medo

“Eu tenho medo e medo está por fora/O medo anda por dentro do teu coração/Eu tenho medo de que chegue a hora/Em que eu precise entrar no avião…” (Belchior)

Eu não tinha medo de voar. Durante a infância viajava muito, mas só de carro ou de trem; voar, embora não fosse motivo de receio, também não chegava a ser objeto de desejo. Meu conceito de viagem simplesmente envolvia estradas: era fascinada por elas, me sentia inspirada e livre.

Quando pequena, entretanto, sonhava frequentemente que estava dentro de um avião que decolava, mas que não se mantinha no ar; ele precisava descer em uma pista de carros e subir em seguida, tornando a descer e subindo de novo. Não havia perigo e eu não acordava com medo, mas me sentia frustrada, como se estivesse impedida de algo e não tivesse controle da mente.

Depois da minha primeira viagem de avião, esse sonho cessou. Foi como se eu tivesse provado ao meu inconsciente que o avião era capaz de permanecer no ar, estável, sem precisar descer durante o trajeto. Segui por anos viajando com alguma frequência e tranquilamente, sem qualquer tipo de medo ou receio, até que as coisas começaram a mudar.

Dias tristes, noites melancólicas

Lembro bem da noite em que entrei no avião inicialmente segura e animada, mas tomei uma atitude atípica no decorrer do trajeto: olhei várias vezes as horas no relógio e não conseguia manter a atenção em uma conversa. A ansiedade e irritação me dominaram totalmente quando o avião demorou a pousar. Eu olhava para baixo e via a cidade iluminada, o avião se aproximava dela e depois tornava a subir.

Finalmente pousamos e por mais aliviada que eu estivesse por ter os pés no chão, a minha mente começava aos poucos a trabalhar no medo e uma angústia apontava no peito. Eu não entendia o que estava acontecendo dentro de mim, no entanto sentia irritação e ansiedade constantemente e, apesar da viagem que me animava durante o dia, à noite eu ficava melancólica e distante. Comecei a não conseguir dormir, mas o medo ainda era algo difuso, por isso eu não associava a nada muito importante, nem sabia que teria um problema grande pela frente.

Estado de alerta: não dormir para não morrer

Voltei para casa após o primeiro episódio de ansiedade em viagem e poucos dias depois peguei novamente o avião. Embora, por princípio, eu quisesse ir – digamos que eu tinha em mente que minha “missão” na vida era viajar, conhecer lugares e culturas, portanto nunca dizer não para as oportunidades de viagem -, eu não estava confiante.

A nova partida não contribuiu para me acalmar o espírito, pelo contrário. O voo foi problemático: começou com um atraso de oito horas, que fez os ânimos dos passageiros se alterarem a ponto de alguns gritarem que o avião iria cair. Eu, de antemão cheia de dúvida e ansiedade, diante daquilo comecei a pensar que era um sinal; eu deveria voltar para casa o quanto antes!

Pela primeira vez senti a garganta apertar e o peito queimar, enquanto o resto do corpo gelava e paralisava. Tinha vontade de gritar, correr, puxar os cabelos, fazer qualquer coisa que pudesse aliviar o terror. O ar me faltava, o medo era incontrolável, eu achava que ia surtar a qualquer momento. Ainda assim, subi no avião e sofri calada com as turbulências, barulhos suspeitos e com minha mente escandalosa, que olhava os passageiros a fim de verificar se tinham cara de que iam morrer naquela noite.

Era o início do estado de alerta, uma sensação incontrolável e insuportável. Em três cidades e três hotéis diferentes as noites foram horríveis e iam piorando gradativamente. No primeiro hotel, eu me senti profundamente triste; no segundo, me vi aterrorizada por espíritos que não via, mas achava que sentia – era um edifício antigo; no terceiro, eu tinha certeza de que acordaria no meio de um incêndio e me mantive alerta imaginando mil maneiras de fugir pela janela do terceiro andar.

Socorro, não estou sentindo nada

Em todos esses dias, entretanto, eu não externalizei o pânico. Na volta para casa, desesperada com o voo e tentando me sentir melhor, decidi que não iria na próxima viagem, marcada para dali a duas ou três semanas. Como consequência de esconder a sensação aterrorizante que tomava conta de mim, não conseguia falar, conversar normalmente, tampouco conseguia sentir algo além do medo.

Ao chegar em casa, sequer pude ficar feliz por estar em terra; qualquer sensação de euforia, conforto e emoção positiva era alheia a mim. Depois de entrar no avião para voltar para casa, não lembro quase nada do que fiz, senti e pensei pelos dias e semanas seguintes. Era como se eu estivesse morta. Lembro apenas que cheguei em casa vazia e sem ânimo e que à noite sentei em uma lanchonete, mas não consegui comer. Lembro que olhei ao redor e tudo parecia distante, irreal.

Foi então que tive a sensação de  ver a mim mesma a um metro de distância do meu corpo, suspensa, tal qual um balão de ar. Era como se o meu eu – espírito, mente, personalidade – estivesse fora e eu tivesse virado apenas um corpo vazio, distante de mim mesma. Quando eu não sentia medo, não sentia nada, a não ser um torpor. Uma música do Arnaldo Antunes nunca fez tanto sentido como naqueles dias:

“Socorro não estou sentindo nada, nem medo nem calor nem fogo, não vai dar mais pra chorar, nem pra rir. Socorro alguma alma, mesmo que penada me empreste suas penas…já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada…” (Arnaldo Antunes).

 É como morrer e é sobre se sentir completamente só

Logo me dei conta de que os sonhos com avião tinham mudado. Eu já não tinha sonhos frustrantes, em que um avião subia e descia, incapaz de se manter estável no ar. Eu sonhava com acidentes terríveis, aviões explodindo, chocando-se em pistas de carros e destruindo aeroportos. Em todos esses sonhos, eu estava observando de fora e em todos eles eu dizia: “Eu sabia! Eu sabia que ia acontecer! Eu sabia que ia cair! Eu disse!”. E acordava.

Depois de uma semana em alerta, sem conseguir dormir, temendo o botijão de gás todas as noites, achando que jamais conseguiria entrar em um avião novamente, com medo de rasgar as estradas alguma vez mais na vida, tendo horror a prédios com mais de um andar, temendo a morte, temendo a vida, insensível a qualquer estímulo, eu resolvi pesquisar o que sentia.

Em parte, a gente sofre por se sentir só na dor. Enquanto eu sofria sem dormir, todos dormiam. Enquanto eu sentia o peito explodir no avião, as pessoas iam conversando. Enquanto eu me sentia vazia, fora de mim e sem emoção, todos pareciam animados. Enquanto eu me sentia morta, todos viviam. E foi conversando com pessoas que passaram pelo mesmo que eu, que comecei a melhorar.

As crises de pânico começaram quando eu fazia aquilo que mais amava e voltavam sempre que tornava a fazer: viajar. Eu achava que jamais seria capaz de sentir novamente uma velha conhecida da infância, a sensação indescritível de estar em um lugar novo; um feliz frio na barriga, uma ardenciazinha boa na pele, da mudança de ares, um pôr do sol na estrada, uma cidade iluminada vista do alto, a decolagem e o pouso, a emoção da partida e a emoção do retorno…

No auge do pesadelo que era ter pânico, eu entendia a expressão fundo do poço. Sentia que tinha conhecido o inferno e achava que nunca nunca mais seria a mesma, que uma vez conhecendo a morte, seria impossível voltar à vida. Aconteceu… e o começo do fim foi encarar.

 

 Fotografia: Alexandra Duarte

Não sou uma dessas – Lena Dunham

Tomei duas decisões tardias em 2015: ler mulheres e ler mais obras que não fossem teóricas, já que passei a maior parte dos cinco anos na universidade longe demais do universo literário ficcional (ou não-teórico) e acho que isso mata um pouquinho da minha sensibilidade. Então, voltar ávida às leituras não-teóricas não é só uma questão de gosto, é uma necessidade…

Segui na minha lista de livros escritos por mulheres com Não sou uma dessas, de Lena Dunham, nova-iorquina criadora e protagonista de Girls, série produzida para a HBO sobre a vida de garotas e seus perrengues típicos do início da vida adulta. Sou espectadora esporádica de séries – fico meses sem ligar a TV – por isso assisti Girls somente algumas vezes, mas lembro de ter gostado do que vi, da fotografia  e do roteiro cômico e original.

Na verdade eu não sabia do livro até vê-lo na livraria. Sou muito visual e a capa me chamou logo a atenção, mas foi só por ter visto alguns episódios da série que me interessei em lê-lo. A aparência lembra um pouco aquela urgência dos best-sellers que prometem mudar sua vida definitivamente contando um relato de superação, mas a história  não é sobre isso, pelo contrário.

O livro é composto por tópicos no esquema das revistas femininas, com os temas Amor&Sexo, Corpo, Amizade, Trabalho e Panorama (que me remete às crônicas levinhas que costumam aparecer nas últimas páginas dessas revistas). A diferença é que ela não vai dar dicas de comportamento, como as revistas fariam, e sim falar, de maneira hilária e autocentrada, sobre como encarou cada uma dessas questões entre a adolescência e a idade adulta.

Há um fio condutor na trama que, mesmo não sendo linear, mostra uma personagem que vai amadurecendo, desde as primeiras páginas, quando ela parece mais adolescente e insegura, até as últimas, quando ela fala sobre o trabalho em Girls, sobre relações amorosas mais saudáveis e sobre satisfação e autoaceitação. Lena tem uma personalidade ansiosa, insegura, inquieta, egocêntrica, que necessita afirmar-se o tempo todo em todos os aspectos da vida, o que a torna muito intensa, mas também propensa a cagadas.

A escrita é autobiográfica, porque usa a experiência pessoal como matéria-prima, mas não é uma trajetória de vida e carreira, que é o que caracteriza a autobiografia propriamente dita. Não sou uma dessas segue um roteiro em que a experiência pessoal é essencial, certamente, mas tratá-lo como uma autobiografia somente é reduzir as possibilidades do texto.  E ela deve ter sido muitas vezes criticada por esse estilo de escrita mais livre e pessoal, porque logo nas primeiras páginas ela expõe a questão:

“Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe que tenhamos chegado, ainda existem forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. Que a escrita pessoal feminina não passa de um exercício de vaidade e que nós deveríamos apreciar esse novo mundo para mulheres, sentar e calar a boca.”

Na maior parte do livro, Lena descreve suas várias relações afetivas e sexuais, quase todas desastrosas, com homens que tiveram um sentimento de atração-repulsa meio doentia por ela e que, a despeito disso, ela insistiu em manter em uma relação dolorosa, como um caso que teve com um cara mais velho que conheceu quando trabalhava de garçonete em um restaurante:

“As primeiras poucas vezes em que Joaquin e eu transamos foram rápidas e um pouco tristes. As lâmpadas do teto zumbiam. Ele não olhou para mim e depois logo foi embora. Achei que, de alguma forma, talvez tivesse sido minha culpa. Talvez eu fosse um saco de batatas, sem criatividade na cama, paralisada pelo meu desespero de agradar. Talvez estivesse destinada a ficar lá deitada, dura feito pedra, até ser velha demais para fazer sexo.”

Às vezes, a relação acontece mais no mundo das ideias dela e nem o sexo se concretiza, como no caso que teve com um cara, ex-celebridade televisiva fracassada precocemente, emocionalmente traumatizado por um antigo relacionamento, por um cachorro que havia morrido e por algo que tinha a ver com a guerra no Iraque (embora ele não tivesse ido à guerra):

“No dia dos namorados, vesti uma lingerie e implorei para que ele, por favor, finalmente transasse comigo. A litania de desculpas que ele apresentou em resposta teria sido cômica se não fosse trágica: “Quero conhecer você melhor” “Não tenho camisinha.” “Tenho medo, porque gosto muito de você.”. Ele tomou calmante e dormiu, o braço estendido do meu lado, e, enquanto estava deitada lá, plenamente acordada e toda me coçando por causa da lingerie de renda, ocorreu-me que aquilo era humilhante, assexual e, pior de tudo, enfadonho. Aquilo não era conforto. Era paralisia.”

Mas nem só de frustrações sexuais é feita a narrativa do livro, embora elas estejam na maior parte dele. Me identifico com o que ela fala sobre os problemas com a escola e, depois, com a faculdade, a resistência com a autoridade, a rotina e os limites que permeiam as experiências com a educação formal; sobre ter desejado tanto entrar na universidade e depois ter desejado tanto sair, e, no fim, sobre sentir culpa e arrependimento por achar que poderia ter aproveitado melhor a experiência da época de estudante, ao invés de ter passado tanto tempo idealizando o futuro, especialmente o profissional:

“Se eu soubesse o quanto sentiria saudade dessas sensações, eu poderia tê-las vivenciado de outra forma, reconhecido seu glamour banal e respeitado o tique-taque do relógio que definiu toda essa experiência. Teria colocado meu ressentimento de lado, abaixado a guarda. Eu poderia ter um conhecimento básico da história ou da economia europeia. De uma forma abstrata, poderia sentir que de fato tinha estado em algum lugar, aberta, porosa e com vontade de aprender. Porque ser estudante era uma identidade invejável, uma que só poderei recuperar se um dia me matricular num curso livre de produção de livros ou coisa do tipo.”

Ou, talvez, esses arrependimentos sejam idealizações do passado, o que não deixa de ser o outro lado problemático da idealização:

“Não absorvi a essência da sala de aula. Não fiz anotações claras nem dancei a noite toda. Achei que acabaria me casando com meu namorado, envelheceria e ficaria de saco cheio dele. Achei que manteria os meus amigos e teríamos lembranças novas e diferentes. Nada disso aconteceu. Coisas melhores aconteceram. Então, por que ainda estou triste?”

Angústias existenciais, a idealização excessiva do futuro e da própria existência, os pensamentos obsessivos sobre a morte, o sentido da vida, sonhos de grandeza, o desejo intenso de fazer algo significativo no mundo, a identificação excessiva com as próprias ideias, a ansiedade crônica e o transtorno dissociativo, são outras questões expressas no livro:

“A ansiedade que me acompanha pela vida como um amigo ruim tinha reaparecido com força e assumido uma forma totalmente nova. Eu sentia como se estivesse fora do meu corpo, me vendo trabalhar. Não me importava se teria sucesso ou fracassaria porque não tinha certeza absoluta se estava viva. Entre as cenas, me escondia no banheiro e rezava pela capacidade de chorar, um sinal indubitável de que eu existia de verdade. Não sabia porque aquilo estava acontecendo. A realidade cruel da ansiedade é que você nunca acha que é boa o bastante.”

Lena Dunham relata sua própria vida de maneira nua e escancarada; sem dar muitas respostas, menos ainda definitivas, propõe contar tudo o que aprendeu, como se isso fosse uma missão de vida. Ela própria confessa que suas experiências foram limitadas a um universo privilegiado e que num dado momento percebe que viveu num mundo distante da realidade comum; isso a fez buscar o máximo de vivência, mas talvez não perceba que é preciso sair um pouco de si para ter experiências mais ricas com o mundo real…

Não sou uma dessas tem seus méritos, um deles o de ser escrito por uma mulher que dá a cara à tapa com coragem para falar sobre suas próprias incongruências. O título em português soa ruim, já que parece desprezar mulheres em geral, colocando a autora como alguém superior por ser supostamente diferente. Mas em inglês Not that kind of girl sugere mais alguém fora dos padrões de beleza e comportamento e a voz dessa pessoa fora dos padrões é outro mérito do livro.

Ainda que a escrita seja uma expressão da individualidade, ela não deixa de ser produto de um tempo e é por seus textos serem repletos dos anseios desses tempos, apesar da diversidade e da distância que existe entre a geração classe média alta, branca e privilegiada de Nova York e o resto do mundo (inclusive o resto do mundo em NY), é por esses anseios em comum que tanta gente se identifica com suas histórias.

 Fotografia: Alexandra Duarte

Marajó

Um final de semana com feriado e uma ideia que há muito rondava nossas cabeças: pedalar na ilha de Marajó.

O arquipélago situado no Pará tem a maior ilha fluviomarítima do mundo, localizada na foz do rio Amazonas – na verdade, é graças a ele que o arquipélago existe, já que seus sedimentos vão sendo depositados no caminho até o oceano Atlântico, formando milhares de ilhas. Há milênios atrás era habitada por índios Marajoara, uma sociedade complexa e sofisticada da qual conhecemos a beleza das cerâmicas que ainda são reproduzidas na região.

Para chegar até lá, só precisávamos, eu e meu namorado, viajar 600 km de carro até Belém, ao som de Criolo e Afrobombas, nossa trilha sonora oficial on the road, depois pegar uma balsa no porto de Icoaraci com destino ao porto de Camará e curtir 3 horas no balançar das ondas do rio-mar, observando a paisagem repleta de ilhotas cobertas por mata e o trânsito de navios.

Às 7 horas do sábado estávamos no porto lotado; se quiséssemos desistir da missão de pedalar e ir de carro, não teria vaga de qualquer jeito, já que era fim de semana de feriado e balsa não é fácil, especialmente para quem não compra passagem com antecedência. Então deixamos o carro na garagem de um restaurante em Icoaraci, prendemos as bicicletas na balsa e partimos numa viagem tranquila. Sorte nossa, aliás, porque as histórias que contam sobre marés com ondas imensas que inundam o interior da balsa não são lá muito agradáveis.

Às 11 horas chegamos em Camará, tomamos água de coco, pegamos algumas informações com o vendedor e dali fomos pedalando até Joanes. Logo de cara recusamos uma carona, algo não tão sensato quando se trata de pedalar depois das 10 horas da manhã. Mas tínhamos ido com a missão de pedalar, queríamos muito fazer isso, e fomos mais na vontade de uma experiência alternativa do que como ciclistas, naquele sentido tradicional.

A verdade é que não tínhamos muita dimensão da dificuldade, especialmente porque recebemos informações erradas quanto à distância entre Camará e Joanes: achávamos que faríamos 12 km, mas fizemos pelo menos 20 km. Por isso é que muito antes da metade do caminho até a primeira parada o sol e o vento mais forte do ano, o do mês de setembro, correndo no sentido contrário ao que pedalávamos, foram desafiadores.

Mas esse é um trajeto especial: Marajó tem estradas tranquilas e a gente vai encontrando com  búfalos pacatos e gente simpática no meio do caminho, sentindo o cheiro de peixe sendo assado na brasa em cada casa de cada vila, fazendo com que o esforço do pedal fosse recompensado, tanto que sequer houve motivo para estresse. Às vezes o carro torna tudo mais preguiçoso e menos atraente. De bicicleta a gente ia sentindo a estrada, o clima, ia entrando na vibe do lugar.

Quando chegamos em Joanes fomos direto para a praia almoçar. A comida era boa, mas não era o que queríamos: o peixe na brasa no estilo tradicional paraense. Tínhamos ficado com o desejo da pescada amarela cujo cheiro sensacional sentimos quando paramos para comprar água no caminho entre Camará e Joanes. Quase nos convidamos para almoçar o peixe da vó, mas contivemos a cara de pau só porque parar para almoçar tiraria nossas forças para continuar pedalando. Então seguimos…

A praia de Joanes tem areia amarronzada e fria e as águas mornas com ondas fortes douradas  pelo sol, algo que me lembrou muito de Mosqueiro, no Pará, que também tem a mesma água salobra do rio-mar, mais doce pelo rio que salgada pelo mar. Por conta das inúmeras ilhotas com vegetação exuberante ao redor, as ondas trazem troncos e galhos que enchem a praia. Por conta disso, pode ser um pouco incômodo mergulhar quando a maré está enchendo.

Joanes é antiga e bucólica. Em uma praça, há ruínas de uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em cima de uma morrinho de onde se avista a praia. Um cenário encantador, ótimo para ver o entardecer, sentindo o vento que fica mais forte com a maré cheia. Depois de anoitecer, o programa (pelo menos o meu) é comer um pouco de todas as comidas típicas. As minhas preferidas são o arroz com galinha (um delicioso arroz branco bem temperado com cheiro verde e pimenta de cheiro, frango desfiado, milho e batata palha), o tacacá (caldo de tucupi com folha de jambu e camarão seco) e o vatapá paraense (creme feito com azeite de dendê e camarão seco, servido com arroz branco, folhas de jambu e um tiquim de tucupi).

No dia seguinte, acordamos cedo e pedalamos em direção a Salvaterra, até o ponto de travessia de barcos que levam à Soure. Uma viagem curtinha de rabeta – onde vai gente, bicicleta e moto – e chegamos na “capital” do Marajó. Sentamos para tomar um suco na feira, um cenário bem paraense, com  barraquinhas de produtos naturais e óleos mágicos, açaí, mingau e peixe frito, quando meu namorado descobriu uma conhecida na barraquinha de ervas. Foi assim que conseguimos hospedagem e realizamos o desejo de comer peixe assado na brasa (pratiqueira fresquinha, leve, deliciosa) e de quebra ainda comemos caranguejo (enooorme) e provamos o churrasco de búfalo (fiquei com dó).

A tarde partimos para a praia do Pesqueiro, que fica um pouco distante do centro de Soure, por isso pegamos uma Kombi coletiva para chegar até lá, ao invés de ir pedalando. Porque, afinal, já tínhamos vencido o desafio do sol e do vento contra, podíamos nos dar esse prêmio de passear de transporte coletivo e precisávamos recuperar as forças para voltar ao porto de Camará no dia seguinte. E aí a paisagem mais linda de todas estava à nossa espera na Praia do Pesqueiro: uma imensa faixa de areia branca, com um mar imenso (essa praia fica para o lado do oceano, já não é mais rio-mar), com ondas que quebram mais fortes em bancos de areia longe da beira e fazem com que o banho seja mais tranquilo – pelo menos para mim, que gosto de ficar boiando de leve.

A água tem um quê de azulado, mas é predominantemente dourada, como costuma ser todo o litoral paraense, isso por conta dos sedimentos do rio Amazonas. Muitas poças de água se formam ao longo da areia e para chegar até o mar é preciso atravessá-las. É bom atravessar onde há gente se movimentando e fazer isso arrastando os pés, pois existe o risco de encontrar arraias, já que essas poças são lamacentas – e o curioso é que muita gente, entre crianças e adultos, prefere tomar banho nas poças-casas-de-arraias do que no mar. Eu, que cresci na beira do rio, morro de medo dos bichos das águas e por isso prefiro o mar, aberto e movimentado, que os igarapés cheios de cobras gigantescas, poraquês e seres mágicos puxadores de pé (segundo as lendas paraenses).

Andando mais adiante, encontramos um rio desaguando no mar, serpenteando por entre o manguezal, algo de beleza surpreendente. As águas desse rio se abrem como se fossem num semicírculo arredondado, como uma enseada de encontro do rio com o mar, um lugar ótimo para quem quer mergulhar sem o incômodo das ondas. A riqueza do manguezal é encantadora e atravessando esse rio dá para chegar a outras praias, mas é preciso ter cuidado com a maré que enche e torna a travessia de volta impossível.

O Pará tem duas estações: a de chuvas e a de seca. No Marajó, entre dezembro e abril costuma chover muito. A beleza de visitar a ilha nessa época é ver os campos que alagam e se enchem de guarás, aves vermelhas símbolo da região do nordeste paraense e de Marajó. Em setembro as chuvas já não ocorrem e os campos estão secos, então não tivemos a oportunidade de vê-los repletos de guarás e búfalos, por outro lado, para a visitação das praias e o pedal, a seca é o melhor período. Na época das chuvas é mais fácil ver como as águas são significativas na cultura desse pedaço do Pará. Afinal, muitas pessoas vivem em áreas que alagam, em cima de palafitas, e o meio de transporte principal é o barco. A mudança das águas também influencia na pesca e na criação dos búfalos.

No total, foram 70 km de bike e uma experiência única num lugar único. Meu espírito se entusiasma com o singular de cada local, de cada vivência, e há tanta beleza e diversidade em Marajó… Além do quê, adoro o rústico de suas praias, majestosas em sua natureza e ritmo lento, característica que se repete pelo litoral paraense. Mas não é todo mundo que reage com entusiasmo à Ilha de Marajó e as críticas vão justamente na rusticidade da região.

Se o desejo é permanecer no ritmo da metrópole e encontrar praias urbanas e agitadas, o Nordeste tem excelentes locais. Se o que se quer é água de azul caribenho, melhor comprar passagens para o Caribe. Se há espanto com o fato das vilas marajoaras terem apenas uma pracinha e algumas ruínas, melhor seguir os roteiros do Velho Mundo e admirar as piazzas romanas, porque Amazônia é outra história, uma história incrível de um lugar que tem a sorte de se relacionar mais intimamente com a natureza nesses tempos em que nós estamos tão dissociadas dela e, sinceramente, eu prefiro que permaneça assim.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros