Barra do Cunhaú

estrada das falesias

Na nossa primeira viagem ao Rio Grande do Norte visitamos Pipa, a praia de Tibau do Sul e a Lagoa de Guaraíras. Por último, pegamos a Estrada das Falésias para ir até a Barra do Cunhaú, no município de Canguaretama, a 78 km de Natal. 

estrada das falesias

Apesar de ser um atalho para chegar muito mais rápido à Barra do Cunhaú, saindo de Pipa, do que se pegássemos a rodovia, a Estrada das Falésias não é apenas isso: trata-se de uma atração por si só. 

Mesmo que fosse mais longo, a vista impressionante para as praias com mar de verde intenso durante todo o trajeto já faria valer a pena a escolha por esse caminho. No entanto, além da paisagem ainda há mirantes onde é possível observar tartarugas marinhas.

É preciso ter coragem e certa habilidade para encarar essa estrada. Ela é de terra, sofre com a erosão, não tem sinalização e possui riscos especialmente nas áreas com acúmulo de areia. Alguns trechos são muito estreitos entre as falésias e o abismo e algumas subidas, igualmente estreitas, também juntam areia e fazem o carro deslizar. Mas, uma vez que você a enfrenta, a recompensa é garantida.

Para chegar até a Barra do Cunhaú vindo da Estrada das Falésias é preciso fazer a travessia do rio Catu pela balsa manual de Sibaúma. A extensão é curtíssima e a paisagem é linda.

Apesar de ficar muito perto de Pipa, a Barra do Cunhaú é totalmente alheia à efusividade turística vizinha. O lugar tem o ar antigo e nostálgico de vila de pescadores e as praias não lotam de turistas. Para quem gosta de tranquilidade e não se preocupa com a rusticidade – ou até a prefira -, é a escolha perfeita.

Em quase todo o litoral nordestino o sol se põe cedo, então, chegar às 16 horas num lugar pode significar pegar apenas uma réstia de luz. Foi o que nos aconteceu, por isso passamos primeiro um fim de tarde na praia e, como ficamos encantados com o lugar, voltamos para poder aproveitar um dia inteiro lá. 

No nosso dia dedicado à Cunhaú, tivemos sol, chuva e uma comida maravilhosa no restaurante Barraca da Baiana, em frente ao mar. Escolhemos ficar em uma pequena enseada da praia, onde a água entra por cima das pedras conforme a maré vai enchendo e forma uma piscina natural ótima para um banho bem tranquilo. 

barra do cunhau

barra do cunhau

Da Barra do Cunhaú saem barcos que fazem passeios com paradas em outras praias. Da orla vemos uma delas, a Praia da Restinga, de onde é possível ir até a Baía Formosa por uma estrada de terra. Dizem valer muito a pena a visita, mas nós não pudemos fazer essa viagem. 

Por outro lado, tivemos um final de tarde bem gostoso por ali mesmo, conversando com um morador sobre Sibaúma, comunidade quilombola de mais de 400 anos, separada da Barra do Cunhaú pelo rio Catu, onde fizemos a travessia de balsa. 

Ainda ficamos vendo os barquinhos e fomos contagiados pela nostalgia e história da região, cada vez mais certos de que devíamos voltar. Fazendo planos para isso, pegamos a estrada de volta para casa.

barra do cunhau 

 Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você curtiu conhecer um pouco das belezas de Barra do Cunhaú, veja também as duas primeiras partes da nossa viagem ao Rio Grande do Norte:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Pipa

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Praia de Tibau do Sul e Lagoa de Guaraíras

Tibau do Sul e Lagoa de Guaraíras

Depois de passar uns dias no distrito de Pipa, seguimos na direção norte do estado, para Tibau do Sul. Lá, na praia de mesmo nome, a Lagoa de Guaraíras encontra o mar, formando não só uma paisagem linda, mas com uma história bem interessante.

Guaraíras, na verdade, é uma laguna, uma vez que lagoas não têm contato com o mar. Acontece que há registros de que ela já foi mesmo uma lagoa e desde que Tibau começou a ser registrado em mapas, no século XVI, mais de uma vez mudou de forma. Em uma delas, holandeses tinham feito um canal para a passagem de grandes embarcações, que ficou esquecido depois da retomada do lugar pelos portugueses, e foi bloqueado por dunas de areia por quase 300 anos.

A última vez em que Guaraíras se abriu para o oceano foi em 1924, depois de uma cheia terrível que destruiu o povoado de Tibau. Novamente, a ação humana foi determinante. Para drenar a água de canaviais alagados, senhores de engenho começaram, um ano antes da enchente, a abertura de um canal, que não resistiu à força das chuvas e rompeu, dando à lagoa o aspecto que tem hoje. [Veja mais sobre essa história aqui.]

Apesar de aparecer como laguna em trabalhos acadêmicos e sites de viagem estrangeiros, a forma mais comumente usada pela população local é lagoa, por isso é esse o termo que uso aqui.

A principal atração de Tibau do Sul é justamente o passeio de barco na Lagoa de Guaraíras, cujo roteiro inclui parada para ver golfinhos, banho de lama no manguezal e descida em um banco de areia que emerge das águas quando a maré baixa. À propósito, existem horários específicos para fazer essa viagem, por isso nós fomos primeiro para ela, ao invés de ir direto para a praia.

Esse é um passeio relativamente tranquilo de ser feito com bebês, a não ser pelos seguintes motivos : 1) Eles podem sentir medo. Aimée ficou assustada assim que entramos na lancha e grudou em mim durante todo o passeio. 2) Havia coletes salva-vidas, mas nenhum para alguém de 1 ano e 3 meses. 3) Depois de ter sido muito rápido em nos oferecer o passeio, o funcionário da empresa que oferece a programação recuou quando viu Aimée e disse que a Marinha proibia viagens de crianças menores de 2 anos pela costa.

Não encontrei nenhum regulamento ou legislação a respeito disso, mas é óbvio que as empresas têm receio de, em caso de acidente, serem responsabilizadas por carregar passageiros sem equipamento adequado. Porém, ao que parece não existe uma norma de segurança muito apropriada para viagem com os menores em qualquer outro meio de transporte além do carro e mesmo os ultra seguros aviões deixam muito a desejar nesse quesito. [Leia mais sobre isso no texto “Todos estão seguros, menos os bebês”, do pediatra Daniel Becker aqui].

O fato é que pessoas-com-bebês existem e seguem suas vidas (quase) normalmente, locomovendo-se pelo ar, pela terra e pela água, seja por necessidade, seja por diversão. E é claro que elas querem fazer isso sem sentir que estão colocando em risco a vida de suas crias.

Pensar a respeito fez com que eu me sentisse mal no início do passeio, ainda mais com Aimée assustada e agarrada em mim. Pois é… viajar com bebê tem dessas. Mas no fim, tudo correu bem e nós nos divertimos. O trajeto é curto e a descida para o manguezal e a prainha são bem seguras.

A primeira parada é pertinho da praia, para ver golfinhos. Acontece que “ver” aqui pode significar qualquer coisa, inclusive nada. Não dá para ir achando que vai encontrar um espetáculo a la SeaWorld; os bichinhos na natureza não são treinados para divertir a gente.

Portanto, contente-se em parar no meio da lagoa, ficar à espreita e levar um susto ao avistar uma barbatana deslizando sobre a água aqui e ali. Mesmo de longe e mostrando apenas o dorso, dá para ver que eles são maiores do que a gente imagina e apesar do nosso coração infantil esperar por um golfinho acrobata, se for pensar bem, é melhor que eles fiquem só de boa na lagoa mesmo.

A segunda parada é no manguezal. O piloto nos deixa lá contando sobre os benefícios do banho de lama para a saúde. Tudo bem, as pessoas gastam vários reais com cremes faciais, corporais e capilares de lama e argila, mas nenhuma das vantagens que dizem a respeito me animaram a rolar no mangue. Quem sabe no dia em que eu tiver reumatismo… Brincadeiras à parte, as crianças (e os adultos) se divertem e é isso que importa. As fotos também são ótimas, acho até que elas são a principal razão do banho de lama.

É interessante observar que o mangue é um ecossistema de transição: do ambiente aquático para o terrestre e do encontro da água do rio com o mar, portanto de água salgada ou salobra; já uma lagoa possui água doce. Então, quando Guaraíras era de fato uma lagoa, não havia manguezal nem a fauna e a flora características desse ecossistema.

O mangue é rico em biodiversidade e se constitui como berço de diversas espécies. Na verdade, grande parte do alimento proveniente da pesca é produzido no mangue. Além disso, comunidades tradicionais mantém uma relação intrínseca com esse ecossistema. [Veja o filme Mulheres do Mangue, produzido em parceria com nosso coletivo Co.inspiração Amazônica, aqui].

Agora pare e pense que toda a paisagem seria diferente se a Lagoa não fosse uma laguna.

A última parada é num banco de areia da Lagoa. A prainha que se forma é boa para mergulhar e a vista é bem bonita. Nós percebemos que a maré ia subindo bem rápido, por isso é importante chegar cedo para fazer o passeio, senão a visita a essa praia fica comprometida.

Lá tem barraquinhas que vendem comida e bebida e algumas cadeiras e mesas, mas quase nenhuma proteção contra o sol, o que foi bastante inconveniente, porque já era bem tarde. Nós acabamos voltando antes do fim da estadia na prainha (cerca de 40 minutos), mas achamos que foi o suficiente.

Depois da Lagoa de Guaraíras e do almoço, fomos caminhar pela praia de Tibau do Sul, que é muito bonita, com barreira de pedras e formação de piscinas naturais.

A vantagem dessa praia é que não é preciso descer falésias íngremes para chegar até ela. E apesar do ditado que diz que quanto mais difícil é a subida, melhor é a vista, Tibau do Sul, tão fácil de chegar, é sim uma praia que vale a pena ver.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você gostou de conhecer um pouco sobre Tibau do Sul e a Lagoa de Guaraíras, leia também as outras partes dessa viagem:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Pipa

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Barra do Cunhaú


					

Pipa

O Rio Grande do Norte tem alguns dos lugares mais lindos em que eu já estive.

As praias são maravilhosas, geralmente circundadas por falésias, grandes encostas formadas por camadas sedimentares que tornam a paisagem vista de cima algo de tirar o fôlego.

No município de Tibau do Sul, a 80 km da capital, fica o distrito de Pipa. Na verdade, Pipa é uma praia que recebeu esse nome ainda no século XVI por conta de uma pedra com formato de um tonel, recipiente cilíndrico usado para conservar bebidas como o vinho. Essa pedra, obviamente, ainda está lá e realmente lembra um barril.

Na época da colonização os europeus extraíam da região o pau-brasil e dominaram de tal forma o lugar que seu primeiro nome foi Oratapipy, do tupi “aldeia do homem branco”. Durante séculos a região foi pouco conhecida e explorada pelos brasileiros. Até que por volta de 1970 os surfistas descobriram suas praias e o que então era uma tradicional vila de pescadores, agricultores e artesãos de renda de bilro, cestos de palha e redes de pesca, se tornou um balneário cosmopolita e fervilhante.

Praia do Amor

A Praia do Amor é uma das mais bonitas do estado e a nossa preferida em Pipa. Tem uma bela visão panorâmica na descida para a praia, que é bastante extensa e de areia branca. O mar é agitado e tem ondas grandes, portanto é ótima para quem quer surfar, o que não significa que seja ruim para tomar banho. Quem não quer encarar as ondas pode procurar pelas enseadas da praia, reentrâncias onde a água chega macia, deixando o jorro quebrar lá fora.

Mesmo nos fins de semana, a praia é livre do excesso de gente e da poluição sonora, o que a torna excelente para passeios com bebês e crianças, que podem ficar bem à vontade brincando na areia e na beiradinha do mar.

O único inconveniente é a descida para a praia. Quem anda com bebê sabe que o céu é o limite para o tanto de coisas que a gente carrega. Descer as escadas íngremes das falésias com bebê e infinitos bagulhos não é uma boa ideia. Subi-las, depois de um dia exaustivo de sol e mar, menos ainda. Então o ideal é levar apenas o essencial e deixar a bagulhada baby [piscininha, cadeirinha, etc] para outra ocasião.

Algo que vale muito a pena é caminhar no final da tarde pela Praia do Amor e aproveitar para ver o pôr do sol. Além da paisagem linda, o lugar é cheio de pontos legais para fotografar: arte ao ar livre, tendas que oferecem aulas de surf, enseadas circundadas por pedras, falésias ao fundo, vista panorâmica e vegetação rica.

Praia da Pipa

A Praia da Pipa é menor em extensão de areia, tem ondas medianas e é bem mais movimentada que a Praia do Amor. É a praia central, o que é fácil de entender, afinal o distrito cresceu no entorno dela. Não é das mais tranquilas, o que não significa, porém, que o passeio não valha a pena. Recomendo muito uma ida ao final da tarde, para ver o pôr do sol que é lindo de lá.

Noite em Pipa

Andar por Pipa à noite é muito legal. A vila é toda luzes, cores, cheiros, pessoas e múltiplos idiomas. Mas o melhor para mim é, como sempre, comer. Especialmente se você está com bebê e não restam muitas opções de diversão noturna.

Um dos restaurantes que gostamos muito foi a pizzaria argentina A lo Morón, que serve uma pizza de massa mais grossa e bem simples, mas deliciosa. Nós pedimos os sabores napolitano e calabresa e ambos estavam excelentes. Infelizmente, não provamos as empanadas, outro prato da casa. O ambiente é super agradável, tem uma vista legal e o atendimento é ótimo, as argentinas são muito queridas.

Outro restaurante de argentinos que adoramos foi o De boca em boca, que serve massas artesanais. Os pratos são individuais e muito saborosos. Embora saia um pouco caro para uma família grande jantar, o valor em si é justo, pois se trata de uma massa feita na hora, com molho caseiro e suave. O local é pequenino e aconchegante e o atendimento é bastante gentil e acolhedor, tal qual uma visita na casa de novos amigos.

Nós também temos de lá uma lembrança muito especial; foi a primeira vez que Aimée disse o significado do nome dela em francês: “a amada”. Isso porque ela costuma fazer sucesso onde chega e no meio daquelas perguntas típicas “que idade ela tem?, qual o nome dela?” acabamos descobrindo que Aimée também existe em mapuche e significa “enviada do céu”. Por um acaso, a moça que nos atendeu [se não me engano o nome dela é Ayelén, que significa “sorriso” em mapuche], tem uma melhor amiga chamada Aimée.

Pipa é um lugar maravilhoso, que dá vontade de ficar para sempre. Nós curtimos muito e temos vontade de voltar outras muitas vezes para viver o que não vimos e rever o que já vivemos. 🙂

Nessa viagem, porém, decidimos conhecer outras praias das redondezas. Seguimos para Barra do Cunhaú via Estrada das Falésias, que diga-se de passagem, é uma atração imperdível, e depois para a Praia de Tibau do Sul, onde fizemos um passeio pela Lagoa dos Guaraíras.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você curtiu conhecer um pouco desse lugar incrível, veja o restante dessa viagem:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Praia de Tibau do Sul Lagoa de Guaraíras 

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Barra do Cunhaú

1 ano da Aimée, festa em casa e elefantinhos

Dia 23 de abril Aimée fez um ano e nós comemoramos com uma festa em casa, só para a família e algumas crianças mais próximas.

Eu adoro fazer festinha, reunir pessoas íntimas, pensar um tema, fazer trabalhos manuais, montar mesa. Não passo aniversário em branco nunca e sempre dou um jeito de tornar o evento uma forma de por as minhas mãos para trabalhar criando coisas! Hahaha

Fazer uma festa de elefantinho não foi uma escolha aleatória, elefantinho foi o “tema” do primeiro ano de vida da Aimée. A gente percebeu que ela tinha um monte de coisas do bichinho e isso virou tão a cara dela que todo mundo quis dar elefantinhos de presente.

Uma dica para quem quer criar uma decoração personalizada e não sabe por onde começar é buscar uma ilustração como ponto de partida, assim fica bem mais fácil fazer “personalizados” para uma festa em casa. Com essa ilustração de elefantinho eu precisei acrescentar apenas o nome e a idade da aniversariante – usando o aplicativo Canva –  e com ela fiz os convites e três decorações de mesa.

Fizemos uma festinha bem simples e caseira, mas eu adorei o resultado de tudo. Acho que a combinação de rosa com dourado é muito bonita, iluminada, festiva.

Além disso, não usei tudo no mesmo tom de rosa e acho que isso contribuiu para um resultado que não é monótono.  Já as paredes brancas de casa me ajudaram a não ter trabalho com painel. 😀

Nós decidimos fazer uma festa pequena em casa porque Aimée dorme cedo e poderia ficar estressada com um ambiente tumultuado, num evento mais longo. Na verdade, muita gente acha bobagem fazer festa para bebês porque eles se estressam e, de qualquer forma, eles não vão lembrar de nada no futuro. Mas comemoração não é só de quem faz aniversário, é de quem vive junto e quando se trata do primeiro ano de vida do nosso bebê, que é um período tão intenso e que passa tão rápido, a gente merece mesmo comemorar. Afinal, isso não é nada mais do que a celebração de uma nova vida e de um ano inteirinho do nosso amor.

Sentimentos incapacitantes e 10 conselhos para quem não consegue concluir projetos

concluir projetos

Eu sei como ninguém o quanto pode ser difícil concluir projetos.

Lidei e ainda lido com a insegurança e o perfeccionismo que me tornam uma pessoa com tendência à ansiedade. É um efeito bola de neve: a ansiedade me conduz à autossabotagem, a autossabotagem me torna uma procrastinadora, sempre temerosa de não conseguir fazer as coisas direito, a procrastinação me impede de fazer tudo o que eu preciso fazer e não dar conta de tudo me faz sentir uma impostora, aquela pessoa que até parece valer alguma coisa, mas que uma hora todo mundo vai descobrir que era uma farsa.

Crenças e atitudes nada agradáveis, não é mesmo? E que vão corroendo por dentro. Até que chega uma hora em que ou a gente se coloca no papel da pessoa incapaz, o que não é nada promissor, ou muda o comportamento e aprende a lidar com a sensação paralisante que impede a gente de fazer o que a gente quer fazer.

É possível.

Lembro de ouvir uma colega de graduação dizer que a monografia era um trabalho como outro qualquer. Então, quando chegou o momento, ela foi lá e c’est fini.  Já eu esperei muito por esse momento e reuni todos os meus esforços para fazer minha pesquisa. Foi um longo processo envolvendo crises, ansiedades, novas crises, novas ansiedades, num ciclo que não parecia ter fim.

Sei que entre a minha colega e eu existia um sentimento muito diferente em relação à monografia. Eu queria não só fazer algo bem escrito e correto, mas também honesto, relevante, original e me realizar fazendo minha pesquisa. Afinal, eu realmente acreditava naquilo.

Apesar de dedicada, minha colega não tinha pretensão alguma de fazer algo que fugisse de um trabalho comum, um trabalho que fosse além de seguir alguns passos conforme a orientação. Por outro lado, ela tinha foco, objetividade, segurança e desprendimento (da necessidade de fazer algo relevante) e como eu passei a admirar isso!

Hoje reconheço que a minha experiência foi problemática não só porque eu pretendia fazer uma pesquisa honesta. Na verdade, eu também tinha medo de fazer algo errado, incoerente, insuficiente, portanto, tinha medo de falhar. E isso foi crucial para o tamanho do meu sofrimento em fazer esse trabalho.

Outro dia, dando uma geral no email, encontrei um rascunho que era um desabafo sobre como eu demorava para fazer as coisas, sobre minha incapacidade em terminar aquilo que eu começava, etc, etc. Foi então que eu me dei conta de como tinha mudado, principalmente porque eu já não escrevo lamúrias assim.

Resolvi responder ao meu “eu antigo” e a resposta são os 10 conselhos a seguir:

1) Aprenda a ter constância

É fato que dá trabalho manter os próprios projetos de pé, mas ou a gente se dedica com constância ao que faz ou não consegue levar isso adiante. Você precisa levar a sério o seu trabalho e se esforçar para manter um ritmo. Importante: aprendi que constância tem muito a ver com o quanto a gente confia e se sente à vontade com o que está fazendo. Insegurança e perfeccionismo empacam a gente.

2) Lembre-se de que feito é melhor que perfeito

Os perfeccionistas são as pessoas que mais tem dificuldade em dar cabo das coisas. Quanto mais crítica você for, mais seu próprio trabalho vai parecer insuficiente. Mesmo que você acredite que não talento, saiba que talento também se constrói. É com a prática que a gente vai melhorando e, se você não se permite dar alguns passos porque acha que ainda não está bem, como é que vai conseguir fazer melhor algum dia?

3) Aprenda a ter assertividade

Cora Coralina disse que descobriu no caminho incerto da vida que o importante mesmo é decidir. A certa altura, percebi que muitos dos meus projetos não andavam porque eu ficava me perguntando se estava indo pelo caminho certo. Às vezes, é preciso meter uma ideia na cabeça sem muito espaço para dúvidas. Não se trata de ser inflexível ou acrítica, porque isso é muito ruim, mas de ter assertividade.

4) Tenha mais autoconfiança

Vou parecer minha mãe dizendo isso, mas ela está certa mesmo, então lá vai: você tem que se colocar lá em cima! Pode ser que você não saiba muito bem o que está fazendo, mas tem que confiar que está tentando fazer o melhor que pode. Respeite sua trajetória, suas intenções, seu esforço, até mesmo suas falhas. É comum a gente reclamar da falta de respeito e confiança dos outros em nós mesmas e no nosso trabalho, sem perceber que a gente também não confiança nem tem lá muito respeito por quem a gente é e pelo que a gente faz.

5) Dê espaço para o feedback, mas tenha critério

 Ouvir o que os outros têm a dizer sobre o nosso trabalho é essencial. Mas a linha entre ouvir um conselho que vai te ajudar a melhorar e se deixar levar pelo que é importante para os outros, e não para você, é muito tênue. Autocrítica, reflexão e um pouco autoconfiança ajudam a ir decidindo o que realmente você quer fazer. Lembre-se: você só vai fazer bem o realmente importa para você.

6) Não queira ter controle de absolutamente tudo

 O maior medo da pessoa insegura/ansiosa é não ter controle de tudo que envolve seu projeto. Acontece que não dá para prever como as coisas acontecerão o tempo todo. Às vezes, a ideia inicial não é a melhor. Às vezes, a gente deixa de acreditar naquela coisa. Às vezes aquilo em que a gente acredita não é a melhor escolha. Além disso, shit happens, como diria Jessica JonesNão tem problema. Quando algo foge ao nosso controle, a gente precisa de resignação e coragem, para seguir em frente e recomeçar.

5) Aproveite melhor o seu tempo

É engraçado. Se eu soubesse como era a vida com filhos, eu teria aproveitado melhor meu tempo, porque agora sei o quanto o tempo é um privilégio. Antes eu não dava conta de assistir uma vídeo aula, de cinco minutos que fosse, se dali a dez eu tivesse que sair de casa. Eu sei que isso tem a ver com ansiedade, mas agora eu procuro aproveitar cada mísero minuto para fazer algo útil. Por exemplo: é melhor escrever um rascunho de texto às pressas quando eu tenho uma ideia boa na cabeça, do que ter que começar do zero quando eu tiver um tempo maior disponível, porém sem ter nada em mente.

 8) Não espere pelo momento ideal

 Essa é uma das coisas mais difíceis para mim. Não é incomum eu achar que não estou pronta para algo ou que meu trabalho ainda não está bom. Não vou publicar isso, porque ainda não está pronto. Não vou entrar naquele projeto, porque ainda não estou pronta. O momento ideal é aquele em que a gente faz as coisas. A melhor oportunidade é a que a gente tem.  Também não existe maturidade ideal para saber que caminho tomar, maturidade é outra coisa. É preciso fazer escolhas, tomar decisões, ter constância, coragem e seguir pelo incerto para ver no que vai dar. Parece um clichê motivacional, mas eu tenho que admitir que é verdade.

9) Leve em conta que a vida tem altos e baixos

 Apesar da constância ser algo necessário para levar a cabo um projeto, a gente tem que ter em mente que, de fato, nada é muito linear e constante. É normal chegar um momento em que a gente não se sente totalmente dentro do que está fazendo, porque a vida tem facetas demais para que alguém consiga viver em função de uma só coisa. Não existe ser totalmente feliz em nada; tudo, absolutamente tudo e, especialmente, aquilo que a gente realmente ama fazer, vai dar trabalho, vão ter dias de desânimo, de descrença em si mesma, no trabalho que se faz.  Não se cobre tanto, não tenha tanta pressa. Respeitar os próprios limites e a energia de cada fase é fundamental.
10) Esqueça a noção de sucesso convencional
Nossa sociedade inventou uma ideia de sucesso e agora parece que a gente tem que fazer um monte de coisas para ser feliz. Mas, às vezes, felicidade dentro da gente tem a ver com poder ter uma tarde em paz, ouvindo o silêncio. Eu me sinto feliz assim desde criança e nos últimos tempos me dei conta de que isso é um conceito de felicidade para mim – e eu não estou dizendo isso para ser poética, é totalmente real. Quando eu não tenho tardes de paz suficientes, eu me sinto muito estressada e a vida parece me sugar. Eu preciso constantemente de pausa, silêncio, reclusão e ócio. Ócio reflexivo e ócio “nadativo” (de não pensar em nada, hahaha). Se para fazer um monte de trabalho massa e ter sucesso em algo, eu tenha que perder todas as minhas tardes de paz, eu não vou ter minha felicidadezinha. E aí não tem sentido fazer mais nada.