A câmara sangrenta – Angela Carter

Angela Carter, em 1970

Coisas sangrentas e literatura fantástica não são o meu forte. Não é que eu nunca goste, mas é um gênero cujas obras dificilmente estão entre as minhas primeiras escolhas. Se A Câmara Sangrenta, da escritora inglesa Angela Carter, não viesse numa caixinha da TAG – Experiências Literárias, eu provavelmente não teria tido contato com esse livro tão cedo (valeu, TAG!).

Seus contos remetem a clássicos do folclore universal contados para crianças, como Chapeuzinho Vermelho, A Bela e a Fera e O Barba Azul, porém, com elementos nada infantis. Por conta disso, é comumente apresentada como um conto de fadas para adultos, definição que a própria Angela Carter detestou.

Talvez porque, ao dizer isso, presume-se que ela apenas adicionou o elemento “adulto”, ou seja, o erótico e o sangrento, às histórias da carochinha. Mas a verdade é que este livro não é uma simples releitura desses clássicos e essa percepção esconde a proposta absolutamente original do livro, que apesar de tomar como ponto de partida contos conhecidos por todo mundo, criou histórias que não precisaram recorrer a artifícios mirabolantes para serem autênticas.

A câmara sangrenta foi publicado na década de 1970, quando o debate sobre feminismo e papeis de gênero na sociedade estava em alta. Em parte, isso se reflete no fato de que as personagens principais de Carter são mulheres. Além disso, a maneira como elas foram construídas subverte a tradição do gênero feminino na literatura dos contos de fadas, de modo que suas personagens não aparecem nenhuma vez como representação da suposta fragilidade feminina.

Assim, temos uma Bela que até podia estar sob o domínio da Fera, mas que também tinha seus próprios recursos para virar o jogo. A jovem do conto que dá título ao livro – e que pra mim é a personagem mais bem construída dessa obra – podia até ser vítima do Barba Azul, mas não era incapaz de tomar consciência disso e de agir em favor próprio. Quanto à Chapeuzinho Vermelho, ela sequer aparece como vítima.

Penso que essa narrativa era a metáfora perfeita para a condição da mulher naquela nova – nem primeira, nem última – ruptura com a sociedade patriarcal dos anos 1970: admitir que a opressão masculina existe e que mulheres são frequentemente alvo da violência dos homens, mas sem naturalizar o papel de passividade relegado ao gênero.

Isso traz uma perspectiva que não é romântica e rompe com a ideia da mulher que é tão passiva, tão vítima, que é incapaz de agir, sobretudo quando a ação envolve violência, e de ser realmente protagonista de sua história.

Mas além das questões de gênero, também é marcante na obra a dualidade humana e animal sem fronteiras bem definidas, como se todos fossem tanto uma coisa, quanto outra. De certa forma, isso diminui a estranheza que sentimos em relação ao animalesco das personagens, que se tornam mais humanas, e dá uma pegada realista para essa narrativa fantástica.

Em A câmara sangrenta, somos nós, mulheres e homens, tanto humanas, quanto animais, tanto vítimas, como algozes. E diferente do que pode parecer, dizer isso através desses contos não diminui a competência da autora no debate das opressões de gênero, nem reforça violências. Antes, dá a mulher a dimensão do que ela pode ser: integral, completa, agente de sua vida e não apenas o resultado daquilo que o homem fez dela.

Tudo isso torna esse livro imprescindível e fazem da escrita de Angela Carter fenomenal. Trata-se de uma escritora que nos ganha nas primeiras linhas, seja pela beleza e fluidez da linguagem, seja pelo enredo nada convencional; mas também pela descrição ampla, com a composição do ambiente e das emoções das personagens aparecendo mais do que as situações concretas, propriamente ditas, o que faz dessa uma obra com forte apelo psicológico, sendo este também um de seus maiores méritos.

Salvador

salvador

Quando pensava em Salvador, cidade que eu não conhecia, as cenas que povoavam meu imaginário eram da ficção: os meninos de rua vivendo em um trapiche, na obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, e o assassinato dos meninos pobres no Pelourinho, mortos por um policial militar durante o carnaval, na série Ó paí, ó, de Monique Gardenberg. Dois cenários tensos que reúnem a degradação (situação de rua, pobreza, banalização da vida negra e pobre) e o espetáculo (a natureza exuberante e a festa popular, que atraem o turismo).

Com tal apelo, eu só conseguia imaginar uma cidade violenta, artificial e apelativa. Felizmente, eu estava enganada. Não que Salvador não tenha seus problemas, como todo o Brasil, mas talvez porque tivemos sorte de estar nos lugares certos e com as pessoas certas, a cidade que eu vi era, antes de tudo, encantadora. Eu nem queria mais voltar para casa…

salvador
salvador por do sol

Pelourinho

pelourinho

Fomos ao Pelourinho várias vezes, em horários distintos e cada um deles ofereceu uma diversidade de coisas a fazer e uma variedade de olhar. Em nossa última visita, no início da noite de uma sexta-feira, estranhamos encontrar a maior parte do comércio fechada, com exceção de bares e restaurantes.

Um amigo local corroborou nossa tese: em Salvador, as pessoas valorizam o direito à cidade delas. E sexta-feira é o dia de curtir a cidade e suas festas. O Pelourinho é muito representativo dessa aura que Salvador tem e embora dispense grandes apresentações, não custa reforçar que vale muito a pena ir lá.

Igrejas

igreja da ordem terceira do carmo salvador

Dizem que Salvador tem uma igreja para cada dia do ano e o centro histórico tem uma grande concentração delas. Uma das igrejas principais, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, tem uma arquitetura impressionante e única no Brasil.

A história dela é bem interessante: foi construída em 1644 e ganhou a fachada atual apenas em 1705. O exterior da igreja geralmente é associado ao barroco, mas remete também ao movimento plateresco espanhol, uma fusão dos estilos gótico e renascentista. Isso faz com que a construção lembre um pouco as igrejas europeias.

igreja da ordem terceira do carmo salvador

Em meados do século XIX, o interior da igreja foi transformado no estilo neoclássico, bastante comum nas igrejas brasileiras do período. As colunas gregas, em cor branca, em contraposição aos rebuscados ornatos do barroco e do rococó, são uma característica desse estilo, assim como a simetria das construções. Já os azulejos, oriundos de Portugal, são uma adaptação do Brasil ao neoclássico, cuja intenção era quebrar a sobriedade e racionalidade do neoclássico trazido da Europa.

igreja da ordem terceira do carmo salvador
igreja da ordem terceira do carmo salvador

Sempre tem algo interessante por trás da história dessas igrejas (experiência de anos visitando igrejas brasileiras). É uma pena, porém, que faltem guias turísticos – ou guias turísticos preparados – para conduzir as visitas. E isso se repete na maioria das cidades históricas que visitamos. Algumas coisas que vemos só ganham significado se temos alguém preparado para falar a respeito enquanto conhecemos o lugar. Áreas da igreja, como o subsolo, também passam batidas se não há um guia para indicar a entrada.

igreja pelourinho

As ruas do Pelourinho

A visita às igrejas e museus era o que a gente mais gostava de fazer. Mas o Pelourinho é um museu a céu aberto, de história, arte, gastronomia, cultura. Andar por suas ruas é sempre muito agradável.

Visitamos muitos sebos, que além de charmosos, sempre tinham algo interessante. E às vezes, nem eram os produtos, mas as conversas com os responsáveis pelo lugar. Salvador é uma cidade com muita gente simpática e generosa. Voltamos com muitos presentes: de amigos, de hippies, de vendedores de sebo… eram livros, acessórios, brinquedos, longas conversas com pessoas que não conhecíamos até então. Isso sempre faz a viagem valer mais a pena.

pelourinho igreja
pelourinho salvador
pelourinho arte
pelourinho grafitti

Farol da Barra

farol da barra salvador

O Farol da Barra é um dos cartões postais da cidade e realmente é lindo de se ver. Subir o farol é uma atividade bem penosa, mas vale a pena ver o mar lá de cima. O museu dentro do forte também é bem interessante.

farol da barra salvador
farol da barra salvador

Comida

Salvador é a única cidade que visitamos que não deixou a desejar em nenhum dos nossos critérios de turismo gastronômico: 1) a comida sempre era boa, 2) as porções eram sempre generosas, 3) na maior parte do tempo encontrávamos comida regional, 4) o valor era justo.

O restaurante mais marcante foi o Zanzibar, Culinária Africana. Como comemos bem! Não só pela comida gostosa, mas pelo atendimento acolhedor e pela delícia que é o lugar. Pedimos um prato chamado Ebubu Fulô, um peixe com molho de camarão e gengibre, acompanhado de purê de banana da terra e arroz branco.

zanzibar salvador

Pedimos uma porção de acarajé, que veio fechadinho, com tudo que vai dentro servido ao lado pra gente montar. Não pedimos sobremesa, mas acabamos ganhando de cortesia três porções deliciosas: bolinho de estudante, do qual nunca tinha ouvido e é uma das melhores coisas da terra (um bolinho doce de tapioca que parece uma nuvem, coberto com açúcar e canela), um doce de banana caseiro divino e a melhor cocada que eu já comi na vida, fresquinha, delicadíssima, fantástica.

culinária baiana

Outras coisas maravilhosas que provamos: a carne de fumeiro, que é uma carne de porco defumada deliciosa, que eu nunca nem tinha ouvido e um peixinho chamado Pititinga, frito inteiro. Também amamos a Seriguelaroska, uma “caipiroska” da melhor fruta do mundo, a seriguela e tomamos um sorvete imenso e delicioso na Sorveteria da Ribeira, que soubemos que é um clássico da cidade. À propósito, Salvador entende minha fome…

casa de Iemanjá Salvador

Outra coisa deliciosa é passear no final da tarde pela cidade, vendo pequenos cenários urbanos locais. O pôr do sol, os barquinhos, banhistas, surfistas, pescadores. Cada pedaço tem uma beleza e uma poesia. Com tanta coisa bonita, não surpreende que seja um lugar de onde saíram tantos artistas.

Salvador respira originalidade, cultura e ancestralidade. E isso é perceptível na comida – a melhor do Nordeste, na minha opinião. Acredito que uma boa culinária sempre expressa uma cultura forte, marcada por uma tradição que se manteve viva às mudanças do tempo.

Eu amei Salvador. É uma energia, algo que a gente sente e que faz não ter vontade de voltar para casa.

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Ps.: Uma das melhores coisas de se conhecer um lugar, é conhecer também as pessoas. Tive uma boa impressão de Salvador em grande parte por isso, pela simpatia com que éramos tratados em todos os lugares. Mas muito além da receptividade na rua, também fomos acolhidos por amigos que nos receberam como se fôssemos da família. Passar nossos últimos dias na casa do seu Zé, da dona Vilma, da Janaína, do Fernando e do Chico sempre será uma de nossas melhores lembranças dessa visita a Salvador.

Leitura com bebês: o papel da literatura na formação

leitura com bebês

Sempre achei fascinante como Graciliano Ramos, em Vidas Secas, conseguiu colocar na secura da palavra a vida de escassez das personagens e construiu com densidade emoções e sensações expressas numa língua parca, às vezes composta por resmungos e gestos.

Não é por acaso que seja assim, o pensamento organizado é resultado da elaboração da linguagem: quanto mais complexa ela é, mais bem construída é a expressão do pensamento.

Quando comparamos essa representação literária com a noção de que temos dois nascimentos, um biológico e outro psíquico, isso se torna particularmente interessante. Nosso nascimento psíquico é simbolicamente representado pela linguagem e é com ela que nasce o sujeito.

A fala se desenvolve com a escuta, que não é passiva. Os bebês têm uma sensibilidade muito grande à voz humana e quando ouvem tentam construir significados. Conversar com bebês, algo que fazemos intuitivamente, desconsiderando a ausência de respostas diretas, é crucial para o seu desenvolvimento.

É nesse sentido de construção de significados que a literatura assume um papel importante na formação do sujeito, pois embora o vocabulário varie com cada família, a fala do dia a dia é geralmente pobre, composta basicamente pelo imediato da vida cotidiana. A literatura, por outro lado, traz uma riqueza não apenas de palavras, mas de maneiras distintas de expressar sentimentos, ver e viver o mundo.

Desse modo, costumam surgir diferenças entre o desenvolvimento de crianças que têm contato com múltiplas formas narrativas, com sua diversidade poética e literária, capaz de promover um capital psicológico e cultural mais amplo, e aquelas de famílias nas quais impera a língua do dia a dia, com tensões pouco elaboradas.

Cabe aqui abrir um parênteses a respeito de indivíduos não alfabetizados e povos de cultura oral, uma vez que não se trata de dizer que a ausência da escrita significa ausência da capacidade de reflexão e desenvolvimento da autonomia.

Existem múltiplas formas narrativas e a literatura é apenas uma delas. A tradição oral, de contação de histórias, que passando de geração para geração carrega conhecimento adquirido, cultura e valores, nos mostra isso. No entanto, é preciso considerar o papel da literatura nas sociedades letradas, sobretudo quando a falta de acesso a ela reforça desigualdades sociais.

Países como a França e a Colômbia desenvolvem políticas públicas para incentivar a leitura desde a primeira infância, distribuindo livros infantis gratuitamente para as famílias e fomentando a criação e manutenção de bibliotecas públicas.

Com isso, assumem que diminuir as distâncias sociais não depende apenas de aumentar a renda da população mais pobre, mas contribuir para o acesso aos bens culturais, como a literatura, e promover maior igualdade na formação intelectual dos cidadãos.

Em Vidas Secas, o autor demonstra a dificuldade dos personagens em pensar a si mesmos como sujeitos devido a escassez da linguagem. Mas, além disso, expõe a relação de dominação pela palavra, quando os poderosos agem arbitrariamente com os pobres através do discurso sem que estes consigam se opor, pois pouco podem refletir sobre a opressão ou mesmo expressar o que sentem.

Assim como cuidamos dos bebês dando colo, carinho e boa nutrição, assim como conversamos e cantamos com eles, devemos nos apropriar dos livros como alimento fundamental para o seu desenvolvimento psíquico e social, pois eles não servem apenas como meio para o aprendizado da leitura e da escrita, mas para aprender a ler a si mesmo e o mundo de maneira mais plena. E, com isso, possibilitar a construção de novas e independentes histórias.

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Nas próximas semanas, o blog terá uma série de textos sobre os benefícios da leitura para o desenvolvimento dos bebês e dicas de leitura para cada faixa etária, até os 2 anos.

2 anos da Aimée e uma pequena reflexão sobre os “terríveis dois anos”


Aimée fez 2 anos dia 23 de abril de 2019 e o período que antecedeu o aniversário dela foi tenso! Todo mundo em casa adoeceu…

Que o diga o pai, em pleno aniversário da filha (e dia de São Jorge), indo ao médico descobrir uma sinusite grave, que não tinha sido diagnosticada apesar das três idas na emergência do hospital particular no final de semana.

A gente adiou a festinha (que era só a festinha caseira de sempre), mas para não passar a data do aniversário em branco fui com ela até a padaria comprar um bolo de limão (e acabei fazendo essas fotos, que não estavam nos planos e que ficaram tão fofinhas…).


O pai cantou parabéns antes de ir para o médico e ela, toda sorridente, com aquele jeito manhoso de quando recebe chameguinhos, pediu “vamos, mamãe, Patrulha Canina de aniversário!”.

Primeiro nós ficamos pasmos com a associação que ela fez (como assim Aimée sabe o que é presente de aniversário e como assim até já escolheu o que quer?). Mas depois lembramos do nosso comentário quando ela viu o Marshall (o cachorrinho bombeiro da Patrulha Canina) numa loja de brinquedos e ficou abraçada nele um tempão. O pai perguntou se a gente não devia dar de presente de aniversário e na hora eu disse que não sabia. Só que eu jamais ia imaginar que ela se lembraria disso!

O fato é que Aimée está crescendo (passa tão rápido e muda tanto!) e o tempo todo nos surpreende com as coisas que diz. Ela vai acumulando frases e situações e organizando os contextos e usos na cabecinha dela. E aí, num momento oportuno, ela aparece com uma elaboração toda certinha, que impressiona a gente. Aliás, o desenvolvimento infantil é um dos temas mais fascinantes para mim.

Mas há muitos anos escuto que essa idade, tão interessante e tão cheia de descobertas, é o “terrible two” (terríveis dois anos). Honestamente, eu nunca gostei dessa rotulação. Primeiro porque é injusta com a criança, ao estigmatizá-la. Depois, porque impede que a gente entenda as especificidades dessa fase.

Muita coisa muda neurologicamente, emocionalmente e fisicamente na criança que está deixando de ser bebê. E essa transformação é confusa e estressante não só para nós, mas principalmente para elas, que são capazes de aprendizados incríveis em uma velocidade intensa, mas que ainda não conseguem regular plenamente suas emoções.

É por isso que as birras acontecem. Não se trata de manipulação e desafio, mas de um pedido de socorro: é um ser humano que chegou na terra há apenas 2 anos querendo dizer “eu ainda não sei lidar com isso tudo sozinho”. Por isso o acolhimento é tão importante e tem efeitos tão positivos nessas horas – ao contrário das brigas, dos sermões e da raiva, que não só não educam como pioram a tensão.

Seria uma mentira descarada dizer que educar criança pequena é fácil, mas eu acredito muito que informação liberta a gente e que empatia transforma as relações. Ao criar nossos filhos, precisamos de coragem para rever antigos conceitos e repensar nossa forma de lidar com o outro – especialmente quando ele nos “desafia”, mesmo sem querer.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que amor, afeto e acolhimento nunca são demais. Podem até ser demais para um mundo que já não parece merecer, mas jamais serão em excesso para nossas crianças. Na verdade, tudo é mais difícil quando falta compreensão e sobra ódio. Então não é amor, abraço e colo o que estraga as pessoas na infância, pelo contrário: é não saber ouvi-las, respeitá-las e dar-lhes amor quando mais precisam.

Com a chegada dessa idade, que sem dúvida não é simples, mas que eu tenho absoluta certeza de que não deve ser vista com olhos mal acostumados por preconceitos e ideias agressivas, só quero desejar os mais felizes 2 anos birrentos para Memê. E que se for pra ser terrível, que sejamos nós “terríveis” com as bobagens desse mundo.

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Ps.: Fizemos uma festinha caseira cheia de corações, pra combinar com o nome dela, que em francês significa Amada. Participaram da festa as quatro amiguinhas mais especiais, de idades bem diferentes, mas que fizeram muito parte da rotina e das brincadeiras dela nesses 2 anos de vida: a Luísa, que tem um verdadeiro dom pra lidar com crianças e que leva Aimée pra passear desde que ela era bebezinha; a Raylla, criança cheia de vida e criatividade, que inventa as brincadeiras mais marotas e diverte Aimée até as gargalhadas; a Sophia, que sempre para pra conversar com Aimée e que apesar da idade não tem problema em emprestar os brinquedos dela, até as Barbies mais bonitas; e a Marcela, companheira mais novinha, que Aimée ama mimar, porque ela é bebê. <3

A louca da Casa – Rosa Montero

Rosa Montero [fotografia: Ivan Gimenez]

A louca da casa é como Santa Teresa chamava a imaginação. Esse é o tema principal da obra da escritora espanhola Rosa Montero: aquela parte essencial de todos os seres humanos e que impele romancistas e narradores a escrever, aquela que vai além da razão e da realidade imediata e existe em uma zona limítrofe com a loucura.

A obra é uma espécie de ensaio sobre o exercício narrativo, com um pouco de autobiografia, trechos da biografia de outros autores e um estilo que lembra um romance. O livro é dividido em dezenove capítulos e em cada um vamos descobrindo uma ideia central. Em um deles, por exemplo, ela trata de uma questão que sempre vem à tona quando mulheres escrevem: existe uma literatura feminina?

Para responder a essa pergunta, Rosa Montero, que se considera feminista – embora acredite que o termo anti-sexista seja mais coerente do ponto de vista semântico – explica que dentro de uma sociedade urbana ocidental é bem provável que homens e mulheres tenham mais em comum entre si do que pessoas do mesmo gênero de culturas ou estilos de vida muito distintos. Isso quer dizer que uma escritora espanhola que nasceu e viveu em grandes cidades possivelmente se identifica mais com um colega homem desse mesmo meio urbano do que com alguém que tem raízes e construiu sua identidade no campo.

Em suma, há uma literatura feita por mulheres, o que é muito diferente de dizer que existe uma literatura feminina, ou seja, acreditar que aquilo que as mulheres escrevem só serve para ser lido pelo próprio gênero. Embora a literatura feita por mulheres seja importante para a representatividade, ela pode e deve ser lida por todos os gêneros. Não obstante, durante séculos a mulher leu e se identificou com protagonistas homens e com personagens femininas construídas pela perspectiva do homem, muitas vezes adotando comportamentos que eles consideravam importantes, mesmo que fossem muito mais benéficos para o ego masculino do que para a dignidade feminina. É de Rosa Montero a famosa frase que diz:

“Quando uma mulher escreve um romance protagonizado por uma mulher, todo mundo considera que está falando das mulheres, mas se um homem escreve um romance protagonizado por um homem, todo mundo considera que está falando do gênero humano”.

Em um outro capítulo, Rosa Montero fala de uma categoria que teve um papel essencial no mundo literário – na verdade, a autora garante que ela ainda existe. São as “esposas de escritores”, mulheres sem dúvida excepcionais, inteligentes e talentosas que, no entanto, abriram mão de seus próprios talentos para cuidar de tudo que diz respeito à obra de seu “Grande Homem”. Isso inclui todas as miudezas que fariam o escritor perder seu precioso tempo criativo: revisar textos e passá-los a limpo, cuidar das finanças, dos contratos, das edições, das traduções, da cobrança de pagamentos, das viagens, das relações públicas, além, obviamente, da casa e dos filhos. E como se isso não fosse o bastante, essas mulheres ofereceram conselhos literários que se mostraram fundamentais para o sucesso de inúmeras obras, como por exemplo, O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson.

Um aspecto interessante de Rosa Montero é que ela desmonta a aura mítica que cerca os escritores e os traz para uma luz mais humana. Assim, ela apresenta a história de Goethe, que na ânsia de fazer parte da aristocracia foi viver na corte de Weimar, como intelectual à serviço, após escrever seu célebre Os sofrimentos do jovem Werther. Seus trabalhos oficiais incluíram desde ser ministro da Fazenda até o trabalho de inspetor de minas. Tais ocupações garantiram-lhe um título nobiliário, mas sacrificaram seu talento e ele próprio escreveu que deixou de pertencer a si mesmo a partir do momento em que chegou na corte. 

“O grande Wolfgang era um pobre puxa-saco, um infeliz que desde o primeiro momento começou a largar os envoltórios da própria dignidade em sua árdua ascensão pela escala social. Os seres humanos são criaturas tão paradoxais que a fraqueza mais tola e vulgar pode coexistir ao lado do talento mais sublime”.

É verdade que todos que escrevem, escrevem primeiro para si, movidos por suas intranquilidades e incertezas e porque não suportam a vida tal como ela é. Mas em algum momento sentem que precisam de mais do que isso: precisam ser lidos. Ninguém sabe de onde vem essa necessidade do olhar alheio, mas certo reconhecimento público é crucial não só para que escritores continuem escrevendo, mas também para que continuem sendo. 

Para Rosa Montero, que além de Jornalismo também estudou Psicologia, o escritor é alguém que, mais do que os outros, tende à dissociação, aquela condição psicológica que leva as pessoas a sentirem distanciamento do mundo, como se ele fosse impalpável ou irreal.

“O romancista é um ser que tem as costuras de sua identidade meio soltas e tende a se sentir dissociado”.

O que é, provavelmente, uma das razões que levam o narrador a ter facilidade em escrever sobre outras vidas, mas que os tornam mais suscetíveis a colapsos emocionais, à loucura e à decadência, especialmente diante da fama ou do fracasso. Por outro lado, a linguagem, a escrita, a narração, são também formas de transcender a individualidade.

“Isto é a escrita: o esforço de transcender a individualidade e a miséria humana, a ânsia de nos unir aos outros num todo, o desejo de sobrepor-nos à escuridão, à dor, ao caos e à morte”.

E por isso a escrita é um instrumento coletivo poderoso, mas que pode ser destrutivo. Rosa Montero diz que “a palavra é o que nos torna humanos” e que “para assassinar em massa, é preciso primeiro despojar as vítimas em massa de sua condição humana”. Foi um dos motivos pelos quais o nazismo conseguiu chegar tão longe. Ela cita o caso do linguista judeu Victor Klemperer, que passou mais de uma década em trabalhos forçados na Alemanha e com o fim da guerra escreveu a obra LTI: A linguagem do Terceiro Reich, em que desmonta a “linguagem do vencedor” e denuncia “a hipocrisia afetiva do nazismo, o pecado mortal da mentira consciente empenhada em transferir para o âmbito dos sentimentos as coisas subordinadas à razão, o pecado mortal de arrastar essas coisas pela lama da pertubação sentimental.” E Rosa Montero conclui:

“…as palavras, quando mentem lambuzadas de sentimentalismo, podem ser letais como balas de um assassino”. 

Os discursos nazistas, como se sabe, foram cruciais para que todas as atrocidades que culminaram no holocausto pudessem ocorrer com grande apoio da população alemã, que depois se viu envergonhada e como que saindo de um sonho absurdo. O que se vê hoje na política brasileira também pode ser colocado no rol das situações em que as palavras mentirosas, lambuzadas de sentimentalismo, despojam e dominam as massas.

A louca da casa propõe a discussão de temas tão complexos, tais como a linguagem e o ofício da narrativa, de uma maneira leve e despretensiosa, sem deixar de ser crítica. É uma obra excelente não só para pessoas que escrevem e sonham em tornar-se escritoras, mas também para aquelas que adoram o universo da literatura e das palavras.

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