Drops de abril: o fundo do poço

colagem ilustração cinema

Às vezes, quando faço meus drops (esse espaço dedicado a falar sobre o entretenimento que consumi no mês), acontece de eu perceber que segui, inconscientemente, uma linha temática.

Em janeiro desse ano, tudo esteve relacionado ao universo familiar. Já abril me surpreendeu pelo conteúdo todo girar em torno mundo do crime, das prisões e, mais louco ainda, das histórias de bandidos baseadas em fatos reais.

Por que isso acontece? Será que a astrologia e o mapa do céu explicam? Será que o nosso inconsciente busca pelas mesmas coisas de maneira tão insistente? Não sei, mas segue meu relatório:

Livro: Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias [Flannery O’Connor]

Li num pulo essa maravilhosa obra da escritora norte-americana Flannery O’Connor. Trata-se de um livro de contos do gênero gótico do sul dos EUA, escrito em meados do século XX. Nele, as histórias sempre terminam tragicamente, e as personagens revelam seu lado mais hipócrita, mesquinho e sombrio.

A maioria dos contos toca na questão de classes e no problema do racismo e sempre envolve aspectos religiosos, sobretudo a oposição entre o fervor religioso e o afastamento desse universo.

A autora, de fato, formou-se em Ciências Sociais, mas o que me deixou mais chocada foi descobrir que ela própria afirmou não tratar de questões sociais na obra, e sim de redenção religiosa. Flannery O’Connor era muito católica e fez suas personagens encontrarem a redenção pela tragédia.

Série: La casa de papel – 4ª temporada [Netflix]

Quando assisti a 1ª temporada de La casa de papel, lembro de ter achado graça. Achei meio piegas, meio humorística demais, meio novelesca. E ela é assim mesmo. Acontece que, se você assiste até final, alguma coisa te pega e você não consegue deixar de assistir.

Eu acho que isso acontece porque as personagens são muito carismáticas e acaba que a narrativa não se reduz apenas a uma perseguição policial, embora tenha todos os elementos de ação que a gente gosta de ver. E, embora ela tenha uma narrativa acessível e mais comercial, isso não a torna necessariamente superficial. E mais do que isso, não a torna óbvia, porque de fato a gente espera para ver o que vai acontecer e se surpreende.

Filmes:

O poço [Galder Gaztelu-Urrutia]

Todos estavam falando sobre esse filme e lá fomos nós assistir. O poço é uma prisão vertical, com centenas de andares e apenas dois presos por andar. Até aí, nada de mais. Acontece que a comida é servida de cima e quanto mas embaixo você está, menos (ou nada) você come.

A alusão mais óbvia é à desigualdade social, em que os mais ricos comem ostensivamente e para os mais pobres sobram pratos vazios e a violência, que da busca pela sobrevivência.

Mas óbvio que o filme quer mais do que isso (pelo menos eu acho): conseguiremos superar essa desigualdade? Como? Há possibilidade do ser humano realmente ser solidário em uma situação calamitosa, de desigualdade, de conflito, de luta pela sobrevivência? Quem tá em cima vai querer perder seus privilégios? Se há possibilidade de tentar superar essa desigualdade, isso vai se dar pela força ou pela educação? Pelo filme, a conclusão é de que pelo diálogo educado não se chega muito longe, mas a violência tampouco leva a algum lugar. Essa ideia, essa discussão, é ótima, genial. O problema é a forma.

O filme explora excessivamente a crueldade, a crueza de revirar o estômago, e muito pouco as reflexões que provavelmente foram colocadas. Se a questão é sobre a solidariedade, se se deve fazer um diálogo com as pessoas, se elas podem ser convencidas pela palavra ou se o convencimento continuará sendo pela violência, isso foi explorado de maneira tão superficial que fica em aberto demais. No final, sobra apelação trágica, um elemento de redenção religiosa (?) quase aleatório, apesar das alusões ao céu e ao inferno, e fica faltando o que deveria ser mais interessante do filme: a superação do conflito.

Prenda-me se for capaz [Steven Spielberg]

O filme é 2002 e o título faz parecer que é um daqueles de perseguição policial, com muita bomba, tiro e explosão. Mas não. Trata-se da história real do ex-vigarista/fraudador Frank Abagnale Jr., que com apenas 18 anos conseguiu se tornar o maior ladrão de banco dos EUA. Hoje, ele atua como consultor de segurança e trabalha para o FBI. A história é realmente interessante e quem faz o papel do protagonista é Leonardo DiCaprio, excelentíssimo na atuação – inclusive, fico cada vez mais fã dele.

Do inferno [Albert Hughes e Allen Hughes]

Baseado nos quadrinhos de Alan Moore (mesmo autor de V de Vingança), conta a história do serial killer que atormentou Londres no final do século XIX: Jack, o estripador. A obra é uma releitura envolvendo alguns fatos sobre a atuação do assassino e elementos ficcionais, como a família real inglesa e a maçonaria. O protagonista é o inspetor do caso, papel interpretado por Johnny Depp. O filme é de 2001 e o clima Londres histórica suja e sombria, que me lembra vários filmes dos anos 2000, é bem legal.

O anjo [Luis Ortega]

Outro assassino em série, Carlitos, como era chamado, foi o maior serial killer da história da Argentina. Ganhou o apelido de Anjo porque tinha apenas 20 anos quando foi preso, e ostentava uma aparência feminina e angelical. Tinha origem familiar estável, sem qualquer situação de conflito ou precariedade que pudesse justificar a tendência violenta, o que torna o caso mais curioso. A atuação do elenco é ótima e o roteiro é realmente muito bom [foi exibido no Festival de Cannes].


E vocês, o que assistiram, leram ou descobriram de interessante? Fico feliz em receber sugestões. 🙂

Ler livros é se permitir viver um tempo mais lento

livros vintage sebo

Quando eu era criança, meus dias eram feitos de silêncios e espaços vazios que eu preenchia com leitura. O tempo era lento, comprido, como as longas sombras de um final de tarde.

Com a chegada de todas as responsabilidades da vida que a gente vai construindo, mas sobretudo conforme fomos ficando mais conectados virtualmente, o tempo foi se tornando mais escasso e os espaços, excessivamente preenchidos.

São tantas informações, tantas possibilidades em um rolar de dedos de uma tela… E fora dela, claro.

Talvez sempre tenha sido assim, mas a conexão em rede trouxe um mundo inteiro para mais perto da gente. No entanto, nunca damos conta de acompanhar tudo e parece que estamos apenas boiando na superfície das ideias e dos acontecimentos.

Quando, porém, refletimos sobre o fato de que a vida conectada nos aproxima de uma vastidão de informações, mas nos afasta dos livros, sempre aparece alguém para nos lembrar que com a internet nós estamos, de qualquer forma, lendo mais. E é verdade. A questão é: qual é a qualidade da leitura que fazemos na rede?

Essa qualidade, é preciso deixar claro, não se resume apenas à densidade daquilo que se lê, ou a uma quantidade de páginas lidas num determinado período, mas envolve todo o processo de leitura de uma obra.

O hábito de ler livros impacta nossa vida de diversas formas: por um lado, porque acessamos uma brecha de tempo lento no meio de uma rotina corrida, um tempo que passa sem a gente se dar conta e que promove prazer e tranquilidade, ao invés de ansiedade. Um tempo que parece impossível, anacrônico em relação aos dias que vivemos.

Por outro lado, com um livro podemos entrar em um universo, qualquer que seja, com mais profundidade do que nos possibilita o rolar infinito das páginas da internet, onde pululam as novidades por milésimo de segundo. Nem todos os livros são profundos, é certo. Mas, em geral, conseguimos nos aprofundar mais em qualquer assunto quando fazemos uso deles.

Além disso, os livros têm um impacto nas nossas vidas porque nos fazem desconectar do mundo para nos reconectar com nosso próprio interior e com nossas próprias ideias, algo que a leitura frenética das redes, que também costuma envolver muita interação e contato (comentários, compartilhamentos…), não permite.

Vale dizer que esse ato de se desconectar através dos livros não significa necessariamente uma fuga da realidade, porque, se às vezes entramos em um distante mundo fantástico, noutras seguimos a complexa linha da história e dos movimentos humanos. Portanto, nem sempre lemos para fugir da existência, às vezes é justamente para melhor nos encontrarmos nela.

A sensação de tempo lento e de permanência me parece crucial em um mundo tão ansioso, tão exausto pelos dias corridos, tão fragmentado e carente de coisas duradouras. Nos deixar envolver pelos livros é encontrar a sensação de bem-estar, tranquilidade e contemplação dos dias que nos pertencem, e nos libertar do sentimento de que o mundo nos escapa por girar rápido demais.

livros vintage sebo

Ps.: acredito que mesmo na internet existem espaços que parecem rasgar a barreira do tempo tão acelerado das redes virtuais. Os blogs têm cumprido essa missão, pois são lugares em que ainda se escreve e se lê de maneira mais lenta, em que ainda se compartilham coisas que duram mais e que permanecem.