Uma breve história do medo

“Eu tenho medo e medo está por fora/O medo anda por dentro do teu coração/Eu tenho medo de que chegue a hora/Em que eu precise entrar no avião…” (Belchior)

Eu não tinha medo de voar. Durante a infância viajava muito, mas só de carro ou de trem; voar, embora não fosse motivo de receio, também não chegava a ser objeto de desejo. Meu conceito de viagem simplesmente envolvia estradas: era fascinada por elas, me sentia inspirada e livre.

Quando pequena, entretanto, sonhava frequentemente que estava dentro de um avião que decolava, mas que não se mantinha no ar; ele precisava descer em uma pista de carros e subir em seguida, tornando a descer e subindo de novo. Não havia perigo e eu não acordava com medo, mas me sentia frustrada, como se estivesse impedida de algo e não tivesse controle da mente.

Depois da minha primeira viagem de avião, esse sonho cessou. Foi como se eu tivesse provado ao meu inconsciente que o avião era capaz de permanecer no ar, estável, sem precisar descer durante o trajeto. Segui por anos viajando com alguma frequência e tranquilamente, sem qualquer tipo de medo ou receio, até que as coisas começaram a mudar.

Dias tristes, noites melancólicas

Lembro bem da noite em que entrei no avião inicialmente segura e animada, mas tomei uma atitude atípica no decorrer do trajeto: olhei várias vezes as horas no relógio e não conseguia manter a atenção em uma conversa. A ansiedade e irritação me dominaram totalmente quando o avião demorou a pousar. Eu olhava para baixo e via a cidade iluminada, o avião se aproximava dela e depois tornava a subir.

Finalmente pousamos e por mais aliviada que eu estivesse por ter os pés no chão, a minha mente começava aos poucos a trabalhar no medo e uma angústia apontava no peito. Eu não entendia o que estava acontecendo dentro de mim, no entanto sentia irritação e ansiedade constantemente e, apesar da viagem que me animava durante o dia, à noite eu ficava melancólica e distante. Comecei a não conseguir dormir, mas o medo ainda era algo difuso, por isso eu não associava a nada muito importante, nem sabia que teria um problema grande pela frente.

Estado de alerta: não dormir para não morrer

Voltei para casa após o primeiro episódio de ansiedade em viagem e poucos dias depois peguei novamente o avião. Embora, por princípio, eu quisesse ir – digamos que eu tinha em mente que minha “missão” na vida era viajar, conhecer lugares e culturas, portanto nunca dizer não para as oportunidades de viagem -, eu não estava confiante.

A nova partida não contribuiu para me acalmar o espírito, pelo contrário. O voo foi problemático: começou com um atraso de oito horas, que fez os ânimos dos passageiros se alterarem a ponto de alguns gritarem que o avião iria cair. Eu, de antemão cheia de dúvida e ansiedade, diante daquilo comecei a pensar que era um sinal; eu deveria voltar para casa o quanto antes!

Pela primeira vez senti a garganta apertar e o peito queimar, enquanto o resto do corpo gelava e paralisava. Tinha vontade de gritar, correr, puxar os cabelos, fazer qualquer coisa que pudesse aliviar o terror. O ar me faltava, o medo era incontrolável, eu achava que ia surtar a qualquer momento. Ainda assim, subi no avião e sofri calada com as turbulências, barulhos suspeitos e com minha mente escandalosa, que olhava os passageiros a fim de verificar se tinham cara de que iam morrer naquela noite.

Era o início do estado de alerta, uma sensação incontrolável e insuportável. Em três cidades e três hotéis diferentes as noites foram horríveis e iam piorando gradativamente. No primeiro hotel, eu me senti profundamente triste; no segundo, me vi aterrorizada por espíritos que não via, mas achava que sentia – era um edifício antigo; no terceiro, eu tinha certeza de que acordaria no meio de um incêndio e me mantive alerta imaginando mil maneiras de fugir pela janela do terceiro andar.

Socorro, não estou sentindo nada

Em todos esses dias, entretanto, eu não externalizei o pânico. Na volta para casa, desesperada com o voo e tentando me sentir melhor, decidi que não iria na próxima viagem, marcada para dali a duas ou três semanas. Como consequência de esconder a sensação aterrorizante que tomava conta de mim, não conseguia falar, conversar normalmente, tampouco conseguia sentir algo além do medo.

Ao chegar em casa, sequer pude ficar feliz por estar em terra; qualquer sensação de euforia, conforto e emoção positiva era alheia a mim. Depois de entrar no avião para voltar para casa, não lembro quase nada do que fiz, senti e pensei pelos dias e semanas seguintes. Era como se eu estivesse morta. Lembro apenas que cheguei em casa vazia e sem ânimo e que à noite sentei em uma lanchonete, mas não consegui comer. Lembro que olhei ao redor e tudo parecia distante, irreal.

Foi então que tive a sensação de  ver a mim mesma a um metro de distância do meu corpo, suspensa, tal qual um balão de ar. Era como se o meu eu – espírito, mente, personalidade – estivesse fora e eu tivesse virado apenas um corpo vazio, distante de mim mesma. Quando eu não sentia medo, não sentia nada, a não ser um torpor. Uma música do Arnaldo Antunes nunca fez tanto sentido como naqueles dias:

“Socorro não estou sentindo nada, nem medo nem calor nem fogo, não vai dar mais pra chorar, nem pra rir. Socorro alguma alma, mesmo que penada me empreste suas penas…já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada…” (Arnaldo Antunes).

 É como morrer e é sobre se sentir completamente só

Logo me dei conta de que os sonhos com avião tinham mudado. Eu já não tinha sonhos frustrantes, em que um avião subia e descia, incapaz de se manter estável no ar. Eu sonhava com acidentes terríveis, aviões explodindo, chocando-se em pistas de carros e destruindo aeroportos. Em todos esses sonhos, eu estava observando de fora e em todos eles eu dizia: “Eu sabia! Eu sabia que ia acontecer! Eu sabia que ia cair! Eu disse!”. E acordava.

Depois de uma semana em alerta, sem conseguir dormir, temendo o botijão de gás todas as noites, achando que jamais conseguiria entrar em um avião novamente, com medo de rasgar as estradas alguma vez mais na vida, tendo horror a prédios com mais de um andar, temendo a morte, temendo a vida, insensível a qualquer estímulo, eu resolvi pesquisar o que sentia.

Em parte, a gente sofre por se sentir só na dor. Enquanto eu sofria sem dormir, todos dormiam. Enquanto eu sentia o peito explodir no avião, as pessoas iam conversando. Enquanto eu me sentia vazia, fora de mim e sem emoção, todos pareciam animados. Enquanto eu me sentia morta, todos viviam. E foi conversando com pessoas que passaram pelo mesmo que eu, que comecei a melhorar.

As crises de pânico começaram quando eu fazia aquilo que mais amava e voltavam sempre que tornava a fazer: viajar. Eu achava que jamais seria capaz de sentir novamente uma velha conhecida da infância, a sensação indescritível de estar em um lugar novo; um feliz frio na barriga, uma ardenciazinha boa na pele, da mudança de ares, um pôr do sol na estrada, uma cidade iluminada vista do alto, a decolagem e o pouso, a emoção da partida e a emoção do retorno…

No auge do pesadelo que era ter pânico, eu entendia a expressão fundo do poço. Sentia que tinha conhecido o inferno e achava que nunca nunca mais seria a mesma, que uma vez conhecendo a morte, seria impossível voltar à vida. Aconteceu… e o começo do fim foi encarar.

 

 Fotografia: Alexandra Duarte

Leitura: Não sou uma dessas

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Tomei duas decisões tardias em 2015: ler mulheres e ler mais obras que não fossem teóricas, já que passei a maior parte dos cinco anos na universidade longe demais do universo literário ficcional (ou não-teórico) e acho que isso mata um pouquinho da minha sensibilidade. Então, voltar ávida às leituras não-teóricas não é só uma questão de gosto, é uma necessidade…

Segui na minha lista de livros escritos por mulheres com Não sou uma dessas, de Lena Dunham, nova-iorquina criadora e protagonista de Girls, série produzida para a HBO sobre a vida de garotas e seus perrengues típicos do início da vida adulta. Sou espectadora esporádica de séries – fico meses sem ligar a TV – por isso assisti Girls somente algumas vezes, mas lembro de ter gostado do que vi, da fotografia  e do roteiro cômico e original.

Na verdade eu não sabia do livro até vê-lo na livraria. Sou muito visual e a capa me chamou logo a atenção, mas foi só por ter visto alguns episódios da série que me interessei em lê-lo. A aparência lembra um pouco aquela urgência dos best-sellers que prometem mudar sua vida definitivamente contando um relato de superação, mas a história  não é sobre isso, pelo contrário.

O livro é composto por tópicos no esquema das revistas femininas, com os temas Amor&Sexo, Corpo, Amizade, Trabalho e Panorama (que me remete às crônicas levinhas que costumam aparecer nas últimas páginas dessas revistas). A diferença é que ela não vai dar dicas de comportamento, como as revistas fariam, e sim falar, de maneira hilária e autocentrada, sobre como encarou cada uma dessas questões entre a adolescência e a idade adulta.

Há um fio condutor na trama que, mesmo não sendo linear, mostra uma personagem que vai amadurecendo, desde as primeiras páginas, quando ela parece mais adolescente e insegura, até as últimas, quando ela fala sobre o trabalho em Girls, sobre relações amorosas mais saudáveis e sobre satisfação e autoaceitação. Lena tem uma personalidade ansiosa, insegura, inquieta, egocêntrica, que necessita afirmar-se o tempo todo em todos os aspectos da vida, o que a torna muito intensa, mas também propensa a cagadas.

A escrita é autobiográfica, porque usa a experiência pessoal como matéria-prima, mas não é uma trajetória de vida e carreira, que é o que caracteriza a autobiografia propriamente dita. Não sou uma dessas segue um roteiro em que a experiência pessoal é essencial, certamente, mas tratá-lo como uma autobiografia somente é reduzir as possibilidades do texto.  E ela deve ter sido muitas vezes criticada por esse estilo de escrita mais livre e pessoal, porque logo nas primeiras páginas ela expõe a questão:

“Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe que tenhamos chegado, ainda existem forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. Que a escrita pessoal feminina não passa de um exercício de vaidade e que nós deveríamos apreciar esse novo mundo para mulheres, sentar e calar a boca.”

Na maior parte do livro, Lena descreve suas várias relações afetivas e sexuais, quase todas desastrosas, com homens que tiveram um sentimento de atração-repulsa meio doentia por ela e que, a despeito disso, ela insistiu em manter em uma relação dolorosa, como um caso que teve com um cara mais velho que conheceu quando trabalhava de garçonete em um restaurante:

“As primeiras poucas vezes em que Joaquin e eu transamos foram rápidas e um pouco tristes. As lâmpadas do teto zumbiam. Ele não olhou para mim e depois logo foi embora. Achei que, de alguma forma, talvez tivesse sido minha culpa. Talvez eu fosse um saco de batatas, sem criatividade na cama, paralisada pelo meu desespero de agradar. Talvez estivesse destinada a ficar lá deitada, dura feito pedra, até ser velha demais para fazer sexo.”

Às vezes, a relação acontece mais no mundo das ideias dela e nem o sexo se concretiza, como no caso que teve com um cara, ex-celebridade televisiva fracassada precocemente, emocionalmente traumatizado por um antigo relacionamento, por um cachorro que havia morrido e por algo que tinha a ver com a guerra no Iraque (embora ele não tivesse ido à guerra):

“No dia dos namorados, vesti uma lingerie e implorei para que ele, por favor, finalmente transasse comigo. A litania de desculpas que ele apresentou em resposta teria sido cômica se não fosse trágica: “Quero conhecer você melhor” “Não tenho camisinha.” “Tenho medo, porque gosto muito de você.”. Ele tomou calmante e dormiu, o braço estendido do meu lado, e, enquanto estava deitada lá, plenamente acordada e toda me coçando por causa da lingerie de renda, ocorreu-me que aquilo era humilhante, assexual e, pior de tudo, enfadonho. Aquilo não era conforto. Era paralisia.”

Mas nem só de frustrações sexuais é feita a narrativa do livro, embora elas estejam na maior parte dele. Me identifico com o que ela fala sobre os problemas com a escola e, depois, com a faculdade, a resistência com a autoridade, a rotina e os limites que permeiam as experiências com a educação formal; sobre ter desejado tanto entrar na universidade e depois ter desejado tanto sair, e, no fim, sobre sentir culpa e arrependimento por achar que poderia ter aproveitado melhor a experiência da época de estudante, ao invés de ter passado tanto tempo idealizando o futuro, especialmente o profissional:

“Se eu soubesse o quanto sentiria saudade dessas sensações, eu poderia tê-las vivenciado de outra forma, reconhecido seu glamour banal e respeitado o tique-taque do relógio que definiu toda essa experiência. Teria colocado meu ressentimento de lado, abaixado a guarda. Eu poderia ter um conhecimento básico da história ou da economia europeia. De uma forma abstrata, poderia sentir que de fato tinha estado em algum lugar, aberta, porosa e com vontade de aprender. Porque ser estudante era uma identidade invejável, uma que só poderei recuperar se um dia me matricular num curso livre de produção de livros ou coisa do tipo.”

Ou, talvez, esses arrependimentos sejam idealizações do passado, o que não deixa de ser o outro lado problemático da idealização:

“Não absorvi a essência da sala de aula. Não fiz anotações claras nem dancei a noite toda. Achei que acabaria me casando com meu namorado, envelheceria e ficaria de saco cheio dele. Achei que manteria os meus amigos e teríamos lembranças novas e diferentes. Nada disso aconteceu. Coisas melhores aconteceram. Então, por que ainda estou triste?”

Angústias existenciais, a idealização excessiva do futuro e da própria existência, os pensamentos obsessivos sobre a morte, o sentido da vida, sonhos de grandeza, o desejo intenso de fazer algo significativo no mundo, a identificação excessiva com as próprias ideias, a ansiedade crônica e o transtorno dissociativo, são outras questões expressas no livro:

“A ansiedade que me acompanha pela vida como um amigo ruim tinha reaparecido com força e assumido uma forma totalmente nova. Eu sentia como se estivesse fora do meu corpo, me vendo trabalhar. Não me importava se teria sucesso ou fracassaria porque não tinha certeza absoluta se estava viva. Entre as cenas, me escondia no banheiro e rezava pela capacidade de chorar, um sinal indubitável de que eu existia de verdade. Não sabia porque aquilo estava acontecendo. A realidade cruel da ansiedade é que você nunca acha que é boa o bastante.”

Lena Dunham relata sua própria vida de maneira nua e escancarada; sem dar muitas respostas, menos ainda definitivas, propõe contar tudo o que aprendeu, como se isso fosse uma missão de vida. Ela própria confessa que suas experiências foram limitadas a um universo privilegiado e que num dado momento percebe que viveu num mundo distante da realidade comum; isso a fez buscar o máximo de vivência, mas talvez não perceba que é preciso sair um pouco de si para ter experiências mais ricas com o mundo real…

Não sou uma dessas tem seus méritos, um deles o de ser escrito por uma mulher que dá a cara à tapa com coragem para falar sobre suas próprias incongruências. O título em português soa ruim, já que parece desprezar mulheres em geral, colocando a autora como alguém superior por ser supostamente diferente. Mas em inglês Not that kind of girl sugere mais alguém fora dos padrões de beleza e comportamento e a voz dessa pessoa fora dos padrões é outro mérito do livro.

Ainda que a escrita seja uma expressão da individualidade, ela não deixa de ser produto de um tempo e é por seus textos serem repletos dos anseios desses tempos, apesar da diversidade e da distância que existe entre a geração classe média alta, branca e privilegiada de Nova York e o resto do mundo (inclusive o resto do mundo em NY), é por esses anseios em comum que tanta gente se identifica com suas histórias.

 Fotografia: Alexandra Duarte

Marajó

Um final de semana com feriado e uma ideia que há muito rondava nossas cabeças: pedalar na ilha de Marajó.

Marajo

O arquipélago situado no Pará tem a maior ilha fluviomarítima do mundo, localizada na foz do rio Amazonas – na verdade, é graças a ele que o arquipélago existe, já que seus sedimentos vão sendo depositados no caminho até o oceano Atlântico, formando milhares de ilhas. Há milênios atrás era habitada por índios Marajoara, uma sociedade complexa e sofisticada da qual conhecemos a beleza das cerâmicas que ainda são reproduzidas na região.

Para chegar até lá, só precisávamos, eu e meu namorado, viajar 600 km de carro até Belém, ao som de Criolo e Afrobombas, nossa trilha sonora oficial on the road, depois pegar uma balsa no porto de Icoaraci com destino ao porto de Camará e curtir 3 horas no balançar das ondas do rio-mar, observando a paisagem repleta de ilhotas cobertas por mata e o trânsito de navios.

Às 7 horas do sábado estávamos no porto lotado; se quiséssemos desistir da missão de pedalar e ir de carro, não teria vaga de qualquer jeito, já que era fim de semana de feriado e balsa não é fácil, especialmente para quem não compra passagem com antecedência. Então deixamos o carro na garagem de um restaurante em Icoaraci, prendemos as bicicletas na balsa e partimos numa viagem tranquila. Sorte nossa, aliás, porque as histórias que contam sobre marés com ondas imensas que inundam o interior da balsa não são lá muito agradáveis.

porto icoaraci

balsa marajo

balsa marajo

Às 11 horas chegamos em Camará, tomamos água de coco, pegamos algumas informações com o vendedor e dali fomos pedalando até Joanes. Logo de cara recusamos uma carona, algo não tão sensato quando se trata de pedalar depois das 10 horas da manhã. Mas tínhamos ido com a missão de pedalar, queríamos muito fazer isso, e fomos mais na vontade de uma experiência alternativa do que como ciclistas, naquele sentido tradicional.

A verdade é que não tínhamos muita dimensão da dificuldade, especialmente porque recebemos informações erradas quanto à distância entre Camará e Joanes: achávamos que faríamos 12 km, mas fizemos pelo menos 20 km. Por isso é que muito antes da metade do caminho até a primeira parada o sol e o vento mais forte do ano, o do mês de setembro, correndo no sentido contrário ao que pedalávamos, foram desafiadores.

Mas esse é um trajeto especial: Marajó tem estradas tranquilas e a gente vai encontrando com  búfalos pacatos e gente simpática no meio do caminho, sentindo o cheiro de peixe sendo assado na brasa em cada casa de cada vila, fazendo com que o esforço do pedal fosse recompensado, tanto que sequer houve motivo para estresse. Às vezes o carro torna tudo mais preguiçoso e menos atraente. De bicicleta a gente ia sentindo a estrada, o clima, ia entrando na vibe do lugar.

ilha de marajo

ilha de marajo

Quando chegamos em Joanes fomos direto para a praia almoçar. A comida era boa, mas não era o que queríamos: o peixe na brasa no estilo tradicional paraense. Tínhamos ficado com o desejo da pescada amarela cujo cheiro sensacional sentimos quando paramos para comprar água no caminho entre Camará e Joanes. Quase nos convidamos para almoçar o peixe da vó, mas contivemos a cara de pau só porque parar para almoçar tiraria nossas forças para continuar pedalando. Então seguimos…

A praia de Joanes tem areia amarronzada e fria e as águas mornas com ondas fortes douradas  pelo sol, algo que me lembrou muito de Mosqueiro, no Pará, que também tem a mesma água salobra do rio-mar, mais doce pelo rio que salgada pelo mar. Por conta das inúmeras ilhotas com vegetação exuberante ao redor, as ondas trazem troncos e galhos que enchem a praia. Por conta disso, pode ser um pouco incômodo mergulhar quando a maré está enchendo.

Joanes é antiga e bucólica. Em uma praça, há ruínas de uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em cima de uma morrinho de onde se avista a praia. Um cenário encantador, ótimo para ver o entardecer, sentindo o vento que fica mais forte com a maré cheia. Depois de anoitecer, o programa (pelo menos o meu) é comer um pouco de todas as comidas típicas. As minhas preferidas são o arroz com galinha (um delicioso arroz branco bem temperado com cheiro verde e pimenta de cheiro, frango desfiado, milho e batata palha), o tacacá (caldo de tucupi com folha de jambu e camarão seco) e o vatapá paraense (creme feito com azeite de dendê e camarão seco, servido com arroz branco, folhas de jambu e um tiquim de tucupi).

joanes

joanes

No dia seguinte, acordamos cedo e pedalamos em direção a Salvaterra, até o ponto de travessia de barcos que levam à Soure. Uma viagem curtinha de rabeta – onde vai gente, bicicleta e moto – e chegamos na “capital” do Marajó. Sentamos para tomar um suco na feira, um cenário bem paraense, com  barraquinhas de produtos naturais e óleos mágicos, açaí, mingau e peixe frito, quando meu namorado descobriu uma conhecida na barraquinha de ervas. Foi assim que conseguimos hospedagem e realizamos o desejo de comer peixe assado na brasa (pratiqueira fresquinha, leve, deliciosa) e de quebra ainda comemos caranguejo (enooorme) e provamos o churrasco de búfalo (fiquei com dó).

A tarde partimos para a praia do Pesqueiro, que fica um pouco distante do centro de Soure, por isso pegamos uma Kombi coletiva para chegar até lá, ao invés de ir pedalando. Porque, afinal, já tínhamos vencido o desafio do sol e do vento contra, podíamos nos dar esse prêmio de passear de transporte coletivo e precisávamos recuperar as forças para voltar ao porto de Camará no dia seguinte. E aí a paisagem mais linda de todas estava à nossa espera na Praia do Pesqueiro: uma imensa faixa de areia branca, com um mar imenso (essa praia fica para o lado do oceano, já não é mais rio-mar), com ondas que quebram mais fortes em bancos de areia longe da beira e fazem com que o banho seja mais tranquilo – pelo menos para mim, que gosto de ficar boiando de leve.

A água tem um quê de azulado, mas é predominantemente dourada, como costuma ser todo o litoral paraense, isso por conta dos sedimentos do rio Amazonas. Muitas poças de água se formam ao longo da areia e para chegar até o mar é preciso atravessá-las. É bom atravessar onde há gente se movimentando e fazer isso arrastando os pés, pois existe o risco de encontrar arraias, já que essas poças são lamacentas – e o curioso é que muita gente, entre crianças e adultos, prefere tomar banho nas poças-casas-de-arraias do que no mar. Eu, que cresci na beira do rio, morro de medo dos bichos das águas e por isso prefiro o mar, aberto e movimentado, que os igarapés cheios de cobras gigantescas, poraquês e seres mágicos puxadores de pé (segundo as lendas paraenses).

Andando mais adiante, encontramos um rio desaguando no mar, serpenteando por entre o manguezal, algo de beleza surpreendente. As águas desse rio se abrem como se fossem num semicírculo arredondado, como uma enseada de encontro do rio com o mar, um lugar ótimo para quem quer mergulhar sem o incômodo das ondas. A riqueza do manguezal é encantadora e atravessando esse rio dá para chegar a outras praias, mas é preciso ter cuidado com a maré que enche e torna a travessia de volta impossível.

soure

praia do pesqueiro soure

praia do pesqueiro soure

praia do pesqueiro soure

O Pará tem duas estações: a de chuvas e a de seca. No Marajó, entre dezembro e abril costuma chover muito. A beleza de visitar a ilha nessa época é ver os campos que alagam e se enchem de guarás, aves vermelhas símbolo da região do nordeste paraense e de Marajó. Em setembro as chuvas já não ocorrem e os campos estão secos, então não tivemos a oportunidade de vê-los repletos de guarás e búfalos, por outro lado, para a visitação das praias e o pedal, a seca é o melhor período. Na época das chuvas é mais fácil ver como as águas são significativas na cultura desse pedaço do Pará. Afinal, muitas pessoas vivem em áreas que alagam, em cima de palafitas, e o meio de transporte principal é o barco. A mudança das águas também influencia na pesca e na criação dos búfalos.

No total, foram 70 km de bike e uma experiência única num lugar único. Meu espírito se entusiasma com o singular de cada local, de cada vivência, e há tanta beleza e diversidade em Marajó… Além do quê, adoro o rústico de suas praias, majestosas em sua natureza e ritmo lento, característica que se repete pelo litoral paraense. Mas não é todo mundo que reage com entusiasmo à Ilha de Marajó e as críticas vão justamente na rusticidade da região.

Se o desejo é permanecer no ritmo da metrópole e encontrar praias urbanas e agitadas, o Nordeste tem excelentes locais. Se o que se quer é água de azul caribenho, melhor comprar passagens para o Caribe. Se há espanto com o fato das vilas marajoaras terem apenas uma pracinha e algumas ruínas, melhor seguir os roteiros do Velho Mundo e admirar as piazzas romanas, porque Amazônia é outra história, uma história incrível de um lugar que tem a sorte de se relacionar mais intimamente com a natureza nesses tempos em que nós estamos tão dissociadas dela e, sinceramente, eu prefiro que permaneça assim.

ilha de marajo

ilha de marajo

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

Cabo Verde ou, carinhosamente, Brasilinho

Cabo Verde

Acostumada com as dimensões continentais do Brasil, foi surreal avistar, do alto, aquela curva de ilha que o mar parecia querer engolir. A silhueta de terra e o mar gigante… Pousamos em Cabo Verde, na Ilha de Santiago, recebidas com a aridez de montanhas nuas a perder de vista, o céu nublado sem chuva e o vento agradável às 6 horas da manhã. Saímos de táxi e a paisagem permaneceu a mesma durante um bom tempo. O asfalto muito preto, as linhas da pista muito brancas e as montanhas nuas e acinzentadas como se dissessem que tinham nascido de um esporro de vulcão.

Cabo Verde

Depois de viajar pela aridez da estrada, a cidade apareceu: Praia, amarela, com seus prédios baixos, quadrados, quase sempre amarelos como os táxis, mas algumas vezes de concreto cinza. O mercado de Sucupira, com o prato de comida de 200 escudos e uma garrafa de cerveja portuguesa, foi o primeiro destino. Quando perguntamos por almoço no mercado, nos mandaram procurar pela cozinha entre as barraquinhas debaixo do sol.

A “cozinha” é um conjunto de cubículos, com duas mesas no máximo cada um, em que se servem pratos prontos muito parecidos com a comida brasileira: arroz misturado com feijão, “bife” de atum, carne de vaca ou galinha, batata frita e salada. Ouvimos dizer que o arroz consumido lá vai da China e embora tenha o gosto parecido com o nosso e seja solto, é de uma consistência mais liguenta. O bife de atum é especial e a palavra-chave para receber um tempero extra é sabor.

Mercado de Sucupira Cabo Verde

No mercado há muitos senegaleses vendendo seus tecidos e confeccionando roupas sob medida – vestidos e saias com cortes simples, na maioria das vezes. Gastamos horas em barracas de roupas tradicionais, maravilhadas com o que mais há em Sucupira em todas as cores, estilos e texturas: desde a simplicidade das chitas em lindas estampas até a impressionante elegância do batik. Mas descobrimos muita mercadoria brasileira também: fileiras e mais fileiras de chinelos Havaianas, sapatos e roupas – muita malha e jeans – que as sacoleiras caboverdianas vão comprar nas feiras e fábricas do Nordeste.

Mercado de Sucupira Cabo Verde

A noite em Praia é muito agradável. A cidade tem restaurantes e bares bem charmosos. Um deles é o Quintal da Música, um lugar especial com excelente comida e música ao vivo. No repertório da noite em que fomos lá tinha música brasileira, mas gostoso mesmo é ouvir a sonoridade do criolo, língua que na prática é a oficial do país. Falando em música, vale a pena conhecer o som produzido em Cabo Verde. As mulheres arrasam com a batuqueira. Elas demonstram força e beleza incrível quando tocam, cantam e dançam. Deve estar certo o espanhol, dono de um restaurante onde almoçamos, que disse que “em Cabo Verde todo mundo é músico“.

Quintal da musica Cabo Verde

Saímos de Praia, no sul da Ilha de Santiago, e fomos para Rabelados, uma comunidade camponesa tradicional e religiosa, situada no município de Espinho Branco, norte da ilha. Levamos poucas horas para chegar lá e no caminho de ida fomos parando para conhecer alguns lugares. Estivemos na casa de Amílcar Cabral, ícone intelectual, político e dirigente da luta armada pela libertação de Cabo Verde e Guiné-Bissau da colonização portuguesa e visitamos o antigo campo de concentração do Tarrafal, onde vários guerrilheiros que lutavam pela independência foram presos e torturados.

Cabo Verde
A grandiosidade do Baobá no terreno da casa de Amílcar Cabral.

Os rabelados têm uma história muito interessante. Eles foram discriminados por tentar manter suas tradicionais culturais e religiosas, ainda no período em que o país era colônia de Portugal, e por isso se refugiaram em uma região de montanhas. Com isso, perpetuaram suas tradições, acabaram por adquirir um espírito de resistência e mantiveram sua essência, em boa parte por conta da arte que produzem. A experiência na comunidade foi propiciada pelo encontro da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS). Quando chegamos, fomos recebidos pelas pessoas com a comida símbolo de Cabo Verde, a cachupa. Sinal de que fomos realmente acolhidos.

Comunidade de Rabelados

Além de Praia e Rabelados, fomos na Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, fundada em 1462 e primeira cidade construída pelos portugueses nos trópicos. Algumas construções estão toda ou parcialmente debaixo da terra, há muitas ruínas e algumas escavações arqueológicas podem ser vistas no entorno da cidade. Tudo é tão pequeno – a praça, as ruas, as casas – que dá para fazer um tour bem legal em uma manhã. Mas como cidade não é só ponto turístico, é bom ficar pra andar pelos espaços fora do eixo, conhecer algumas pessoas e comer a comida local, como a cachupa, búzios guizados, lagosta ou filé de atum fresquinho.

Cabo Verde

A sensação de andar pela Cidade Velha é de andar pelo Brasil antigo… mas como eu saberia disso? Acho que é a impressão do imaginário do passado colonial criado pela história e pela literatura. Andando pelas ruas, eu me sentia como nas descrições que Aluísio Azevedo fez em O cortiço ou em Casa de Pensão.  Uma senhora que conhecemos em Praia nos disse que lá as pessoas costumam gostar muito do Brasil e é corrente a expressão de que Cabo Verde é um Brasilinho.  Acontece que tudo o que os portugueses fizeram aqui foi feito primeiro lá; Salvador, na Bahia, é como uma grande Cidade Velha. Cabo Verde era a parada das embarcações que saiam da Europa, passavam pela África e partiam para a América.

Cabo Verde
Cabo Verde me marcou profundamente. As pessoas de lá, que parecem ter no espírito a expressão da natureza que as rodeia, são simpáticas e bonitas ao mesmo tempo em que são fortes e orgulhosas, além de terem aquele sotaque que parece música. Nos dias em que estive lá,  fui interiorizando a paisagem cortante, o mar de azul muito escuro, as montanhas negras e áridas e os vales verdes e úmidos, uma natureza tão diversa e ao mesmo tempo tão resistente e bela. E mais uma vez, mais uma viagem me transformou.
Rabelados
Amanhecer em Rabelados
Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

Leitura: O inventário das coisas ausentes

…e algumas considerações sobre ler mulheres

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                                                              Anne Sexton

Fui em uma livraria com a intenção de procurar autoras brasileiras contemporâneas. Primeiro porque eu andava lendo muita literatura clássica, minha cabeça estava entre o século XVIII e o XIX, completamente ignorante do tipo de escrita produzida agora. Depois porque eu comecei a me incomodar com uma ideia reproduzida por aí afora de que mulher escreve e publica pouco porque é mais acanhada que o homem, como se isso fosse uma característica que nascesse com a gente. Uma ótima desculpa para esconder o privilégio dos homens e a desigualdade entre gêneros decorrente disso. Eles quase sempre têm mais visibilidade e, principalmente, legitimidade ao falar e escrever. É como se o homem falasse algo universal, de interesse para a humanidade, e a mulher ficasse restrita a assuntos que interessam apenas ao próprio gênero.

Em As mulheres ou os silêncios da história, a historiadora francesa Michelle Perrot escreveu sobre como a mulher ocidental, pelo menos até o início do século XX, teve o espaço público e tudo o que o envolve negado: a rua, a cidade, a política e, consequentemente, a expressão pública da fala, da escrita, das decisões políticas e de tudo que não ficasse restrito ao lar. Incentivadas à discrição e, quando não, obrigadas à reclusão no âmbito privado, algumas mulheres, geralmente de classes privilegiadas, escreveram suas histórias em diários e cartas, interrompendo um pouco do silêncio a elas destinado, deixando um rastro de memória a partir da escrita íntima.

Foi acompanhando o debate em torno da visibilidade da literatura produzida por mulheres que eu me voltei para algo que sempre me incomodou um pouco, mas que nunca havia questionado muito profundamente – e também nunca havia feito nada a respeito. Mulheres escrevem, mas a gente não ouve falar tanto nelas quanto ouve falar dos homens. Dentre os livros considerados clássicos, quantos foram escritos por mulheres? Em uma dessas listas de internet, de cem apenas cinco. São eles que aparecem, que têm mais visibilidade, é sobre eles que a gente ouve falar. E, penso eu, é isso que faz com que a maior parte da nossa leitura continue sendo aquela escrita por homens, em detrimento da produção das mulheres.

Então eu fui numa enorme livraria com uma convicção simples: comprar uma obra escrita por uma autora brasileira contemporânea. Me senti meio mal por não conhecer o nome da maioria das escritoras mais jovens e fiquei triste por não encontrar as que leio na internet naquela livraria. Viajei sentada no chão dos corredores procurando nomes de mulher. Infelizmente eram poucas e ainda assim eu não conhecia quase nenhuma. Mas me senti inspirada por um título numa capa verde água…

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

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Tem algo de existencial nele, uma linguagem fluida e uma narrativa que parece alguém falando com a gente. O estilo de escrita é meio ofegante, com duas vozes se misturando numa mesma frase, como quando alguém conta um caso. Isso torna a leitura veloz, mas ao mesmo tempo gostosa.

O narrador é um escritor que quer falar de Nina, alguém que está ausente na vida dele e com quem ele teve um caso rápido quando ambos ainda estavam na faculdade, onde se conheceram. Mas ela vai embora de repente, sem dar explicações, e deixa com ele uma caixa com 17 diários.

Descrevendo os acontecimentos o narrador também parece escrever um diário; devaneios sobre a própria escrita, algumas lembranças e histórias paralelas, enquanto tenta elaborar uma ficção na qual Nina e ele são personagens. A obra é sobre o ato de criação na escrita; a vida do narrador e a ficção criada por ele se confundem.

O livro me prendeu, a leitura é viciante. Só não li as 122 páginas mais rápido porque parava em várias passagens, me reconhecia nelas e viajava nas sensações provocadas pela narrativa. É o tipo de história que me extasia, a que explora os sentimentos dos personagens. Não há a concretude de uma cidade, um local bem estabelecido sendo descrito e vivenciado. O universo é o interior dos personagens e suas emoções duras e reais, o amor e o desamor, a presença, a ausência e as fugas nas relações, é sobre o medo e o ódio, as mortes em vida e a memória.

A cada bocado de livro eu parava para pensar e escrever e se escrevo muito enquanto leio uma obra, é porque ela tem sido inspiradora de alguma forma, tem mexido com coisas dentro de mim, meus padrões, minhas ideias e emoções. A história de O inventário das coisas ausentes vai e volta, é repetitiva, como um martelo fincando um prego, materializando os sentimentos narrados, como um prego entrando na gente.

“Você quase nunca me beija, ela reclama. É claro que eu te beijo, que ideia, pronto, acabo de te beijar. Nina esboça um sorriso, mas o seu olhar é tenso e melancólico. Eu a puxo para mais perto de mim. Queria te beijar mais vezes, eu penso, mas esqueço, quando vou ver o dia passou e a noite passou e eu esqueço, queria te beijar mais vezes, mas esqueço, eu quero dizer, mas ela não entenderia. Ficamos os dois em silêncio, eu observo a infiltração do teto, a infiltração adquire novos relevos a cada chuva, o mofo ameaça se instalar. Porque você não manda dar um jeito nisso logo de uma vez, pergunta Nina, como se ouvisse meus pensamentos, eu esqueço, respondo. Quer que eu chame alguém, ela pergunta, aquilo me causa um incômodo instantâneo e irracional, não, não precisa, deixa que eu mesmo cuido das minhas coisas, digo imediatamente, sem conseguir disfarçar a agressividade na voz. Nina se afasta, responde, por que você faz isso?, isso o quê? eu pergunto, pensando que ela se refere à infiltração, mas ela diz, você quase não me beija, você quase não quer sair de casa, você quase não fala comigo direito, e quando fala é com tanta impaciência, esse desamor. Para que você me quer aqui?, talvez seja melhor eu ir embora. Nina me encara triste, derrotada. Eu a abraço com força, eu penso, não vai, Nina, não vai, fica, eu penso, mas não digo nada, e novamente eu esqueço, e passam-se mais dias e mais noites.”

Chapada dos Veadeiros: entre ETs e entre tantos

Precisávamos de um lugar para passar férias e alguns amigos já tinham nos contado de lá umas histórias boas. Depois de algumas semanas pesquisando tudo, pegamos avião, carro e fomos até o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros/GO. Os relatos de viajantes falavam de um lugar mágico e místico, que emanava energia de pureza tranquilizante. De fato, a Chapada dos Veadeiros é um paraíso não tão escondido, mas inacreditável. Entre ETs e entre muitos malucos que vagam por lá no período de julho, chegamos.

A Chapada dos Veadeiros nos recebe com essa paisagem…

Bom, quanto aos ETs – com os quais eu vivo sonhando, diga-se de passagem – não posso lamentar que o contato tenha se limitado aos vários bonecos espalhados pela cidade de Alto Paraíso e pela Vila de São Jorge, entrada para o Parque e local do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, que ocorre em julho – à propósito, esse foi um dos motivos de nossa viagem ter sido nessa época. Embora a cidade nos receba com uma nave espacial no arco de entrada e uma parte do turismo se deva à tentativa de contatos extraterrestres, nós não tivemos a felicidade de topar com turistas intergaláticos.

Jardim de Maytrea: dizem que um dos locais com maior concentração de energia do planeta.

 A vantagem de estar em São Jorge em julho é participar do Encontro, que reúne culturas de vários estados do país e de algumas partes do mundo. É uma experiência gratificante e memorável. Durante o dia e à noite, rolam as oficinas, como as de maracatu, e no palco, o centro convergente do evento, os shows de música e dança, que variam de atrações folclóricas a músicos famosos. As ruas lotam de pessoas e a Vila se enche de barraquinhas de artesanato, comidas e músicos que tocam ao ar livre, em restaurantes ou em bares com fogueira e luar.

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Luau de música instrumental: Alceu Valença em baixo, bateria e trompete.

Nossos dias consistiam em acordar cedo, tomar um bom café e partir para as trilhas, que incluíam longos trajetos de carro e a pé, subidas de morro, banhos em poços de água gelada, mirantes para ver o horizonte e sentir a emoção de estar viva – que andava vacilante -, encontros com rios de saltos espetaculares e travessias cabalísticas – não é sempre que se atravessa o mesmo rio sete vezes para chegar a um local misterioso de vento frio e úmido que parece cantar, cercado por paredões altos, com aparência de cenário de filme em que a qualquer momento seres místicos da floresta surgem de dentro da água e por entre a vegetação.

Cachoeira e Poço do Segredo.

Cachoeira e Poço do Segredo

À noite a Vila proporciona a experiência  do choque de culturas com gente de mundos diferentes, que de certa forma se reúne com um sentimento de humanidade e de respeito pela ancestralidade em comum, mas que também se diverte e procura a paz tão rara num encontro consigo mesmo entre tantos…O exercício da alteridade: cantos dos hinduístas pelas ruas, algumas orações cristãs, a religiosidade afro expressa na vestimenta do rapaz da barraquinha de acarajé, a música que é jazz, reggae, eletrônica, nordestina instrumental, o cinema  que é aberto e a exposição visual nas paredes da casa do artista plástico local, desafiando qualquer noção ou perspectiva de normalidade, tudo confluindo para o espaço público da Vila, que se parece com uma grande praça.

Paredes da casa do Moacir, artista local

Paredes da casa do Moacir, artista local

Estar na Chapada dos Veadeiros é uma experiência que, ao nos fazer entrar em contato com a natureza ao redor, nos remete ao nosso próprio interior, nosso espírito, nossa natureza, ao funcionamento do nosso corpo e às nossas emoções. Em alguns momentos estar lá foi tenso e é impossível negar que a viagem desencadeou uma série de mudanças no meu comportamento. Em parte, o potencial perigo de algumas trilhas, o olho sempre voltado para o abismo ou para a profundeza de lagos escuros, tapeando uma mente que estava se acostumando a sentir só medo. Por outro lado, o choque das energias puras da natureza com as energias perturbadas de descrença e ansiedade.

As águas cristalinas do Rio Preto...

As águas cristalinas do Rio Preto…

A velha história da (re)descoberta de si mesma que viagens costumam proporcionar e que, embora nem sempre sejam longas, compensam por serem intensas. Mas nada da alegria efusiva que costumam alardear; redescoberta pode ser algo muito mais sutil, lento e doloroso e que pode ser sentido muito depois do fim da viagem. Foi lá que despertei para medos e sentimentos que ignorava e isso costuma doer. No entanto, não consigo lembrar da Chapada sem sentir felicidade, porque um encontro feliz é mais sincero que superficialmente alegre e empolgado e por isso a saudade e vontade que sinto de voltar, agora com outro espírito e visões, para atravessar cabalisticamente sete vezes um rio que não é mais o mesmo, sendo eu não mais a mesma…

Rio Preto cortando a Chapada...

Rio Preto cortando a Chapada…
Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

Frida: a (re)criação de si mesma na arte

Frida é um mito: as sobrancelhas unidas, o exotismo, a rebeldia e certa paleta de cores são símbolos capazes de identificar a obra, criada por ela sobre si mesma, em boa parte do mundo. No entanto, ninguém disse mais sobre seu país de origem ao falar de si em autobiografias pintadas. O surrealismo próprio, mas também mexicano, um estilo vindo de dentro de Frida, da vida que é fruto de experiências em sua terra natal ao longo do tempo, por entre e além das tragédias, foi proclamada pelos surrealistas europeus, ainda que ela própria não acreditasse muito nem no surrealismo nem em si mesma.

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Fotografia feita pelo pai, Guillermo Kahlo, 1932

A história, como todo mito, é cheia de coisas inacreditáveis. Frida sobreviveu como que por milagre a um terrível acidente de ônibus que sofreu aos 18 anos e que a manteve confinada na cama, com a coluna envolta em um colete de gesso, por vários meses – e por longos períodos, com intervalos, durante toda a sua não muito longa existência. Foi graças ao pai, Guillermo Kahlo, um fotógrafo alemão que também pintava telas, que ela começou a pintar para valer: logo depois do acidente ele deu à filha inválida um cavalete adaptado para a cama e todo o material necessário para a pintura. Antes, ainda na infância, ela contraiu poliomielite, que a deixou com a perna direita pouco desenvolvida, a mesma que seria amputada nos seus últimos meses de vida, e que também a tinha deixado muito tempo presa à cama. Nesse período ela tinha uma amiga imaginária e a imaginação era essencial para que ela pudesse se sentir mais viva: a doença, a dor e a tragédia viraram parte dela, ela se acostumou a isso e seus quadros traduzem todas as dores que sua gargalhada sonora, seu riso sarcástico e seu ar sedutor e inteligente escondiam.

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A coluna partida, 1944

Como qualquer artista sofre influências de quem admira, Frida foi bastante influenciada por Diego Rivera, com quem viveu por 25 anos, entre um divórcio e um segundo casamento. Apesar das brigas – certa vez ela disse que duas tragédias tinham acontecido na vida dela, a pior era ele -, Frida e Diego se amaram intensamente e de um jeito pouco convencional. Ele era muralista e comunista convicto, julgava que as pinturas em quadro eram o tipo de arte burguesa em decadência, que fica confinada à propriedade privada, enquanto os murais podem ser vistos e apreciados por toda a classe trabalhadora, desprovida de condições financeiras para comprar obras de arte. Ele pintava paredes contando histórias que exaltavam o povo mexicano e os operários da fábrica, obras que falavam da revolução social e tinham como heróis, além dos trabalhadores, Karl Marx, Vladimir Lênin, Josef Stálin e Leon Trótski. Em suma, para Diego os murais são arte para o povo, pertencentes a ele.

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Frida e Diego Rivera, tela de 1931, retratando o casamento, que ocorreu em 1929

Entretanto, Frida pintou telas a vida toda, que nos primeiros anos de pintura costumavam ser bem pequenas. Elas eram detalhadas, com pinceladas sutis e precisas, bem diferentes das pinceladas generosas e grandiosas de Rivera. O que havia de mais interessante entre Frida e Diego é que os dois eram completamente apaixonados pela arte um do outro; eles se admiravam, orgulhavam-se, interessavam-se imensamente pelo crescimento artístico do outro. Ele dizia que jamais seria capaz de pintar como Frida e que não havia nenhum pintor ou pintora à sua altura na contemporaneidade. Quando Rivera conheceu Frida, ele já era bastante famoso mundialmente, ainda assim sentiu-se maravilhado pelas primeiras pinturas dela e por isso sempre a incentivou a seguir seu estilo original e continuar pintando seus próprios sentimentos, ao invés de tentar imitar alguém ou um movimento. No entanto, isso não foi difícil para ela. Embora ao longo de sua vida, em especial nos últimos anos, Frida tenha se queixado de não conseguir pintar algo que tivesse uma função social clara, que proporcionasse uma transformação social pela arte, o fato é que foi justamente o contrário – retratar a própria realidade – que a tornou uma grande artista; ela identificou o sofrimento do México com suas próprias dores. E fez isso de maneira genial.

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Quatro habitantes da Cidade do México, 1938

Ela era do Partido Comunista e ao contrário do que pode parecer, não foi Rivera quem a levou, Frida já havia se filiado antes de conhecê-lo. Mas sua atitude em relação à política era bastante singular. Ela tinha sonhos para o povo mexicano, odiava vê-los sofrer, se dava muito melhor conversando com pessoas simples em mercados e feiras do que conversando com intelectuais e artistas, que ela julgava afetados e prepotentes demais, especialmente os estrangeiros. Os Estados Unidos ela chamava de Gringolândia e detestava o que para os ianques é o centro da vida: a ambição. Ela dizia que não tinha pretensão de ser bem-sucedida, “ser alguém”, como os gringos diziam: ser a “gran caca” não a interessava. Ela jamais teve pretensão de ser uma grande artista e embora quisesse viver de sua arte desde que pintou seus primeiros quadros, Frida não fez nenhum esforço para torná-los vendáveis: ela realmente não conseguia pintar o que não fosse seu sentimento mais profundo e era modesta demais para acreditar que o que pintava tivesse algum valor.

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Autorretrato na fronteira entre o México e os Estados Unidos, 1932

O tipo de sentimento pouco alinhado com qualquer doutrina que seja, mesmo a do partido, e a ideia de que todas as coisas e seres estão inevitavelmente interligados, tal como pregava o antigo povo asteca, ancestral dos mexicanos, era o que a tornava comunista. Provavelmente ela sentia isso de forma muito mais intensa e genuína que muitos integrantes do partido, inclusive Rivera, que era fascinado pelos Estados Unidos tanto quanto reclamava do México. Embora nos últimos anos de vida ela tivesse tentado seriamente pintar algo que seguisse a linha do partido – e escreveu em seu diário: “Pela primeira vez na minha vida, a minha pintura tenta ajudar a linha traçada pelo meu partido: REALISMO REVOLUCIONÁRIO” -, Frida continuou pintando sobretudo a si mesma e seus próprios sentimentos, tanto em autorretratos quanto em naturezas-mortas, ainda que permeados de suas ideologias partidárias e suas crenças, que iam desde a revolução comunista à visão holística do mundo.

El marxismo dará salud a los enfermos, 1954 ✆ Frida Kahlo © Ñángara Marx
O marxismo trará saúde aos doentes, 1954

Frida conseguia expressar o que ia em seu interior em incríveis pinturas surrealistas, apesar de não seguirem o movimento do início do século XX. O surrealismo, enquanto movimento, era uma válvula de escape para os desiludidos do Velho Mundo, sobretudo artistas e intelectuais que tentavam escapar da lógica do mundo moderno por meio da busca do que ia dentro do subconsciente de cada um; era uma tentativa de superar a realidade. Frida fantasiava, mas isso era fruto de sua própria vida e do lugar em que vivia, dos momentos de solidão que passou na cama, de seu temperamento e do que absorveu da cultura mexicana, repleta de ídolos pré-colombianos, combinados com rituais cristãos à moda mexicana. Pintar, para ela, era um jeito de encontrar um equilíbrio entre seu interior, tão vivo, com o mundo; era uma forma de se conectar à realidade. Isso a tornava admirável, mais do que aos próprios mexicanos, aos olhos dos europeus, incluindo Salvador Dalí e Pablo Picasso, importantes expoentes do movimento surrealista na Europa.

O que a água me deu, 1938
O que a água me deu, 1938

Além de se representar na pintura, ela escreveu muitos diários, em que conta histórias por vezes tão exageradas e fantasiosas como seus quadros, mas nos quais ela expôs genuinamente suas dores. Na frente das pessoas Frida representava muita alegria e vigor, como se não se importasse nem um pouco com as dores e limitações físicas e todas as cirurgias e fusões de vértebras que tinha que fazer. Fingia não se incomodar com as traições de Diego, ficava amiga das amantes dele e fazia piadas disso. Seus quadros, entretanto, assim como as cartas a Diego e suas tentativas de suicídio nos últimos anos de vida, revelam a tristeza profunda em que ela vivia. Quando teve que amputar a perna, ela fez no diário um desenho dos pés em um pedestal e escreveu “Piés, para qué los quiero, se tengo alas pa’volar”. Para os amigos ela dizia, tirando sarro, que era a Frida pata de palo – Frida perna de pau -; era assim que seus amigos a chamavam na infância por conta da perna mais fina acometida pela poliomielite.

Uma das últimas páginas do diário de Frida, fazendo alusão à amputação de sua perna

 Havia dois motivos para Frida fazer piada com a própria vida e demonstrar apenas alegria aos outros: por um lado, era uma questão de dignidade pessoal esconder suas dores – mesmo tornando-as tão claras em suas telas e talvez por isso elas sejam tão pujantes -, por outro lado, Frida realmente queria ter vida, ainda que tivesse desejado a morte tantas vezes. Esse sentimento dual era próprio da crença da natureza dialética: assim a morte é representação da vida, como a vida é da morte. Tudo está ligado. Ela desejou muito ter filhos, mas nunca conseguiu e sofreu diversos abortos, sua coluna quebrada não conseguia segurar o feto. Ter filhos é uma forma de permanecer vivo, ela sabia bem disso e é provável que essa impossibilidade a tenha feito se reproduzir tanto em sua obra. Ao olhar suas telas por um tempo, sentimos como se ela estivesse aqui. Ela está viva em sua obra e permanecerá.

fonte: Frida – a biografiaHayden Herrera

O dia vinte

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A metade do primeiro mês do ano sempre traz decepção. Esperei dezembro inteiro pelo ano novo e os últimos meses do anterior, embora tenham corrido cansados, traziam um leve frescor de novidades – novidades raramente parecem ruins. No entanto, janeiro é o mês mais chato. Os gastos com as compras feitas há poucas semanas atrás já liberaram todos os hormônios do prazer que podiam e  o primeiro mês é um mês de contenção ou de endividamento para a maioria.

Mas muito mais que qualquer coisa relacionada a dinheiro, não há nada de fresco em janeiro, apenas uma lufada quente daquele cansaço que parecia que iria acabar depois do pequeno recesso das festas. É um cansaço silencioso, sem o frenesi dos jingles de natal, quase sem esperança. É como acordar de um sonho tão bom e passar o dia inteiro de mau humor, porque, afinal, era só um sonho.

É sempre uma decepção voltar à realidade depois das fantasias do natal e do réveillon. Mas, é ainda pior chegar no dia vinte, quando o trabalho já se acumulou na mesa que há tão pouco tempo tinha sido limpa e renovada com objetos novos, e me dar conta de que estou tão perdida novamente. O tempo passou tão rápido e tão cheio, que deu o dia trinta e um de dezembro e eu esqueci de fazer a lista de resoluções, eu que sempre fiz lista de resoluções de ano novo!

A mudança de corte de cabelo, a monografia, a retomada dos estudos de fotografia, o próprio ato de fotografar, tão negligenciado em meio ao trabalho, estudo e outros compromissos, as listas de livros lidos que parecem diminuir a cada ano, a promessa de assistir mais filmes e quem sabe de ver séries novas ou acompanhar as antigas, voltar a pedalar, parar de perder tanto tempo atualizando as timelines…desativar temporariamente as contas em redes sociais: ficar por fora, para ver se consigo ficar mais por dentro.

“Fica pro ano que vem” agora é uma realidade distante  e nada agradável. O que tem para se resolver, tem de ser resolvido agora. Bate um desespero…o final de semana podia me ajudar a organizar uma agenda e arrumar a mesa de estudos em casa e eu espero ansiosamente por ele, mas o final de semana é uma falácia. Nessas horas me pergunto qual o sentido da vida ou se deveria chutar o balde. Mas ter que limpar a bagunça depois de chutá-lo não parece promissor.

Eu chutaria o balde acreditando tanto na vida como quando acreditei na passagem de um ano para o outro. Expectativas e esperanças que parecem indestrutíveis até a realidade do primeiro dia útil bater à porta e começar a destruir lentamente qualquer sentimento de euforia. Não que eu não acredite na vida e não que eu não tenha sonhos. Mas me falta quem me pague a passagem e me sustente na Irlanda enquanto sigo em viagem “para me descobrir”.

Eu tenho que me descobrir aqui mesmo, desde a cadeira giratória do trabalho, escrevendo em uma pausa que eu mesma me concedo, enquanto a sala desaba em protocolos e emissões de certificados. É aqui mesmo que tenho que me encontrar, arquivando processos e analisando documentos. Não porque eu queira estar aqui, desconfio até que nunca estou aqui de fato. Faço meu trabalho por pura vergonha na cara, mas estou sempre com a cabeça em outras histórias.

O mundo, aliás, está cheio delas: principalmente histórias de pessoas que jogaram tudo pro alto e foram seguir seus sonhos. Como recompensa para tão corajoso ato, tudo aconteceu, todas as coisas boas, maravilhosas e inesperadas, todo o sucesso e dinheiro do mundo surgiram do nada, trazidos pela Vida, que bateu à porta vestida de amarelo e com sorriso largo como num comercial de pasta de dentes, pois ela é justa com aqueles que abandonam a mediocridade de precisar trabalhar e que têm dinheiro no banco para fazer a viagem de descoberta.

De repente, surge uma bela casa e um lindo escritório, porque gente de sucesso, vestida de pijamas, caneca de café em punho e chinelos, trabalha mais do que qualquer um, mas trabalha em casa. Muitas viagens de avião, palestras motivacionais e best-sellers contando como consegui ficar rico seguindo meus sonhos escondem a dura realidade das coisas e da gente que precisa trabalhar oito, nove, dez horas por dia, fora e longe de casa, que quando chega ao lar cansada ainda tem os trabalhos domésticos, e quando finalmente deita na cama não esquece que tem em si todos os sonhos do mundo. O quarto, no entanto, é um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é.

A minha sorte é que escrevo e descrevo as ilusões da vida, as minhas, pelo menos. E ironicamente, elas me alimentam de sonhos desiludidos, talvez amadurecidos, salvos do desejo que corrompe a razão, mas que não deixam de ser sonhos que me impelem a continuar, pois eu também tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu, que menosprezo minhas qualidades quase sempre, tenho que seguir acreditando um bocado em mim, para não desabar no dia vinte de janeiro, fechada em uma sala de onde se enxerga o topo de um coqueiro, num dia nublado e sem saída.

Ou sem saída que exija chutar baldes, porque eu já chutei tantos baldes que nunca deram onde eu queria, mas que deram em algum lugar. E nesses lugares algumas coisas foram boas, outras ruins e umas tantas ruins e boas ao mesmo tempo. De tudo isso não tirei um best-seller nem um guia de vida de sucesso, mas uma vida real e talvez uma mente com alguma perspicácia para ser capaz de observar que para tudo existe um outro lado e que se sabe humana demais pra esperar por finais impecáveis, mesmo de um texto. Por isso agora, aqui do dia vinte de janeiro, depois de viver dramas e conhecer infernos por pura ansiedade por resoluções, meu desespero não resolve nada e é plácido. Levemente melancólico, levemente ácido.

Fotografia: txr53 em Lomography